Falta de Sorte

23/Abril, 2009


(uma homenagem às inúmeras mulheres que já me disseram não, e àquelas incontáveis outras que ainda dirão)

Se eu tivesse sorte, você gostaria de mim e deixaria eu gostar de você. Aí a você não desgrudaria de mim e eu não desgrudaria de você, você iria me ensinar esse monte de coisa sobre artes e filósofos e literatura que você sabe, e eu ia te levar prum estádio e ia te ensinar a vibrar com uma simples partida de futebol, você ia me explicar semiótica russa como se fosse a coisa mais natural do mundo, e eu ia te falar que bom mesmo é encher a cara num dia de sol num quiosque na praia, você ia tentar parar de fumar e eu ia tentar ouvir as suas músicas preferidas, você ia passar a gostar de comer manga e eu ia comer linhaça sem fazer piada, você iria mostrar as coisas erradas da vida e me fazer ficar indignado querendo mudá-las e eu ia fazer você rir mais do mundo e de si mesma, você iria me tornar uma pessoa melhor e eu iria te mostrar o quão fantástica você é, você riria dos meus amigos estranhíssimos, mas faria de tudo para que também fossem seus amigos, e eu riria dos seus amigos estranhíssimos, mas faria de tudo para que também fossem meus amigos.

Se eu tivesse sorte, você gostaria de mim e deixaria eu gostar de você. Aí a gente ficaria horas olhando um pro outro, a gente correria juntos da chuva na paulista, a gente falaria dos problemas um para o outro, a gente ouviria os problemas um do outro e diria que vai ficar tudo bem, eu to aqui, a gente ia fazer amor até cansar e continuar fazendo mais, a gente comeria paçoca cuspindo e fazendo porquice, a gente jogaria playstation madrugada adentro, a gente ia ficar trocando mensagens no celular no jantar em família mesmo estando de frente um pro outro na mesa, a gente falaria mal de filmes e músicas que todo mundo fala bem, a gente falaria bem de filmes e músicas que todos falam mal, a gente morreria de ciúmes um do outro, mas a gente deixaria o outro dar uma olhadinha para outra pessoa, afinal olhar de leve, por quase dois segundos não arranca pedaço, a gente sairia separados, cada um com seus amigos, mas sempre pensando no outro, a gente ia visitar parente distante e no caminho parar em qualquer lugar inusitado e fazer amor, a gente ia concordar em muita coisa, a gente ia discordar em mais coisas ainda, a gente ia confessar segredos inconfessáveis e riríamos falando que é isso, não tem problema nenhum, e a gente ia chorar no colo do outro por qualquer um daqueles motivo que valem a pena chorar, enquanto o outro faz cafuné e diz xiu, a gente ia aprender a dançar alguma dança, a gente ia dormir abraçados no sofá e acordar com uma puta dor no corpo porque já não temos idade pra dormir abraçados no sofá, e antes de dormir no sofá a gente ia fazer amor sem prestar a mínima atenção no filme que a gente brigou tanto na locadora para alugar.

Mas o problema é que eu não tenho sorte e por isso você não gosta de mim e nem deixa eu gostar de você. Pela minha falta de sorte nós ainda não fizemos tudo o que poderíamos fazer. No final das contas, porque eu não tenho sorte, você também não tem.


Fugazes paixões eternas

16/Abril, 2009

9:00h -  Estou no ônibus indo trabalhar e lendo um livro, quando tenho minha atenção desviada para uma menina que acaba de entrar. Ela entra e fica ali, parada à minha frente. Uma graça, esbanja charme, e eu fico instantaneamente apaixonado pelos cabelos negros ondulados, ainda molhados, pela pele fresca do banho, meio assim cor de jambo (apesar de eu nunca ter visto jambo). O ônibus segue cada vez mais cheio e eu sigo cada vez mais apaixonado. Já imagino nós dois na mesa de bar e alguém perguntado “Como vocês se conheceram?’ Cuidado com a resposta, errar o número da linha do ônibus é crime maior do que esquecer o aniversário dela. A coisa fica séria e o meu primeiro presente é um carro. “Não quero que fique andando de ônibus com tanto vagabundo metido a Don Juan por aí”. Depois de algum tempo começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Nessa hora, o ônibus para no ponto e ela desce. Observo pela janela minha paixão sumir na multidão para nunca mais voltar. Volto ao livro.

9:30h - O elevador do prédio onde trabalho se enche de gente no térreo. Estou no fundo e, quando a porta se fecha e a massa se ajeita, noto uma nuca caprichosamente posicionada à minha frente. Me apaixono na hora. Os cabelos castanhos, brilhantes, meticulosamente presos, e apenas alguns fios soltos, colados à nuca. Já me vejo abraçando-a por trás e explorando aos beijos aquela nuca durante horas. E outras tantas horas contando uma por uma quantas sardas ela tem no rosto que, apesar de eu não estar vendo agora, sei que existem aos montes. A cena muda para nós dois na rede, numa tarde preguiçosa de começo de outono, com o sol se pondo, ela deitada no meu peito com aqueles cabelos todos espalhados, eu fazendo um cafuné interminável, a gente falando sobre nada e sobre tudo, ou melhor, no mais absoluto silêncio. Naquela hora começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Mas antes que eu diga isso para ela, a porta do elevador se abre e ela sai. Da minha paixão, só resta o perfume, enquanto o elevador sobe.

9:32h - Entro no escritório onde trabalho. A recepcionista me olha e me cumprimenta com um “Bom dia” que é música para os meus ouvidos e um sorriso tão sorriso que eu me apaixono de imediato, sem resistência. Vem à minha mente a imagem de nós dois num quarto e, quando eu acordo ela está sorrindo aquele sorriso dela para mim, o que, junto com o sol da manhã que entra pela janela e os seus cabelos dourados, faz com que o quarto fique insuportavelmente iluminado. começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Mas aí vejo meu chefe acenando da sala ao lado e, antes que eu tenha a certeza de qualquer coisa, vou para a minha mesa trabalhar e a paixão fica ali na recepção.

Encaro o micro, mas só consigo pensar nas minhas três fugazes paixões daquela manhã. Num exercício mental, repito que preciso parar de me apaixonar assim. É quando eu ouço um “Oi Paulo” feminino atrás de mim. E sorrio antes mesmo de me virar.


A Secreta Sociedade da Terceira Idade – Parte 2

13/Abril, 2009

 

Maria da Graça vai, aos poucos, retirando o conteúdo do pacote sem remetente que recebeu na porta da sua casa: uma agulha de crochê e um livro de receitas. Junto, uma missiva (espaço pra um comentário: bonito missiva né? Também gostei. Fecha comentário):

 

“Querida Vovó de primeira viagem. Mais uma vez, bem-vinda à Sociedade da Terceira Idade. Você acaba de entrar nesse seleto grupo e nós estamos aqui para auxiliá-la. Afinal, são dezenas de publicações e livros que ensinam uma mãe novata a ser mãe. Mas e nós, avós, como aprendemos a ser avó? Porque ser uma avó significa ser totalmente diferente da mãe. Você só é avó porque já foi mãe. Já sofreu, já suou, já padeceu no paraíso.Seus filhos já deram um trabalho absurdo e estão criados. Agora vem a parte boa. Chegou a sua hora de curtir a sua neta. Você, como avó, vai amá-la e mimá-la e estragá-la como sua mãe fazia com seus filhos e você sempre reclamava. Mas agora você pode. Agora você é avó. Parabéns.

Nesse nosso primeiro contato, você está recebendo um livro de receitas para aprender a cozinhar doces maravilhosos e pratos saborosos e cheirosos do jeito que só uma avó sabe fazer. Lá estão todas as dicas e os segredos mais secretos da culinária, coisa que não aparece nem na Maravilhosa Cozinha da Ofélia.

Está recebendo também agulhas de crochê, novelos de lã e um guia completo sobre crochê e tricô. Como avô, você terá muitos casaquinhos e meias e gorrinhos para fazer para a sua neta.

Em breve você receberá outros presentes nossos.

Importante: Isso não é brincadeira. Trata-se de uma instituição séria e altamente secreta. Nunca, repetimos, nunca comente da Sociedade da Terceira Idade com quem quer que seja. Só as vovós é que sabem dessa nossa milenar Instituição.

Cordiais saudações e parabéns pela linda netinha. Ela tem os olhos da mãe.

 

A Sociedade da Terceira Idade”

 

Realmente muito engraçada a brincadeira. Restava agora saber quem foi que fez isso. Mas é fácil. Ela vai ter que ligar para todo mundo informando o nascimento da neta, com certeza vai acabar descobrindo o autor.

 

(continua)


Dividida – parte 2 de 2

6/Abril, 2009

- Então quer dizer que é mentira?

- Hum?

- Você não me ama mesmo né, Carlos Alberto? E olha pra mim quando eu falar com você!

- Pronto, acabou de estragar meu jogo. Agora só falta sair um gol do peru. Que que foi? Pra que esse drama todo?

Over gol de peru.

- Aí, ta satisfeita agora?

- É que você não me ama.

- Mas eu não acabei de falar que te amo? Deu azar e saiu o gol do peru.

- Falou.

- Então…

- Mas foi hoje, dia primeiro de abril. Dia da mentira. Você nunca me falou que me amava. E foi falar bem no dia da mentira.

- Mas catzo! Você é quem ficou insistindo!

Ele olha para o relógio

- Ó, vamos fazer o seguinte. Já vai dar meia-noite… 3…2…1…Pronto, meia noite. Tecnicamente agora já é dia dois de abril, não é mais dia da mentira. Agora eu já posso dizer Eu te amo e você pode actreditar. Quer ver? Eu – te – a – mo. Viu?.

- É?

- É.

- Mesmo?

- Mesmo.

- De verdade?

- Juro.

- Não sei não… Hoje você nem deu atenção pra mim aqui no bar… ó quis ficar vendo esse jogo do Brasil.

- Não, impressão sua. É que seleção brasileira é só de vez em quando né. Você é todo dia que eu vejo.

- Ta vendo? Você prefere a seleção a mim! “Essa daí eu vejo todo dia”.

- Não não. Você dá de goleada em qualquer seleção pela minha preferência.

- É?

- É… ou você acha que eu vou te trocar por esse monte de homem suado, feio pra burro? Olha o Ronaldinho Gaúcho, que coisa horrorosa.

- Mas o Kaká é bonitinho, vai

- Êêêê… e você acha que eu lá vou achar homem bonito? Prefiro você.

- Então ta.

(silêncio na mesa. Ele masca uma manjubinha)

- Amo-or

- Oi

- Então você me ama mesmo?

- Poxa, já falei. Claro!

- Lá vem você de novo com esse “Claro”…

- Mas eu já falei que te amo, poxa vida. Quer ouvir mais? Eu te amo, eu te amo, eu te amo… Satisfeita?

- Hum…. quase. Você me ama mais que essa manjubinha?

- Claro, sem dúvida. Mesmo com esse molhinho de alho essa manjubinha não chega aos seus pés.

(terminando de mascar a manjubinha, tenta dar um beijo nela. Ela recua)

- Ah não, cruz credo. Molhinho de alho não.

- Aí, ta vendo, agora é você que está com frescura.

- To nada.

(A mesa fica em silêncio)

- E você me ama mais que esse bar?

- Affe, que pergunta mais besta

- Ama ou não ama?

- Amo, amo fácil. Esse bar não é nada se eu não viesse aqui com você.

- Ah ta…

(novo período de silêncio na mesa)

- E a cerveja? Você me ama mais do que a cerveja?

- Hum…

- “Hum..” o que?

- Se eu amo mais você ou a cerveja?

- É.

- Quantas garrafas? Qual cerveja?

(fim… tela preta. Créditos. Ao fundo ouve-se o cara rindo)

- hahaha calma, amor… foi uma piada… eu amo mais você

- Ama mesmo?


Dividida – parte 1 de 2

3/Abril, 2009

Cena 1 – Casal no bar. Onze e tanto da noite. Jogo Brasil e Peru rolando. Ele compenetrado na tevê, vendo o jogo. Ela, olhando para ele. Na mesa, dois copos de cerveja e uma porção de manjubinha.

- Amo-or – ela cheia de graça, encaracolando o cabelo, mexendo na cutícula e olhando para ele.

- Oi – sem tirar os olhos da tevê.

- Você me ama?

- Claro!

- Ah não, assim não vale…Você sempre fala “Claro” quando eu te pergunto isso… mas nunca diz que me ama.

- Mas não é a mesma coisa?

- Lógico que não! Você nunca me disse “Eu te amo” pra valer.

- Ah, querida, mas você sabe disso.

- Não sei não, você nunca disse. Quero que você me diga hoje que me ama.

- Hoje?

- É. Hoje.

- Que horas são?

- São onze e 53, por quê?

- Onze e 53? Hum… Hoje não dá.

- Não dá o que?

- Não dá pra eu falar que te amo.

- Como assim, não dá? Você me ama ou não?

Ele, ainda vendo o jogo, não responde.

- Hein Carlos Alberto, eu estou falando com o senhor. Por que disse que hoje não dá pra falar que me ama?

- Porque é melhor não. Hoje não.

- Não estou entendendo… Que que tem demais você falar hoje que me ama?

- Caralho, que merda!

- Calma Carlos Alberto, é só uma pergunta, não precisa ficar assim.

- Meu, o cara não tocou pro outro que estava sozinho pra fazer o gol. Você viu isso? Viu só? Puta que o pariu!

- Ah, o senhor está falando do jogo? Viu como nem presta atenção em mim? Eu não significo nada mesmo…Nem falar “eu te amo” você fala pra mim.

Ele para de olhar a tevê e vira a atenção para ela:

- Tá… tá…. é isso que você quer ouvir?

- É.

- Que horas são?

- Onze e 55.

- Não dá.

- Faaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaala vai.

- Então tá… Eu te amo – e volta a assistir o jogo.

Silêncio na mesa. Ele ainda vendo o jogo. Ela toma um gole de cerveja. Mas não parece muito satisfeita, então volta à carga:

- Mas amo-or… Por que você disse que hoje não podia dizer que me amava?

- Hoje é primeiro de abril, responde mecanicamente, sem tirar os olhos do jogo.

Silêncio na mesa

(continua)


A Secreta Sociedade da Terceira Idade – Parte 1

23/Março, 2009

 

Maria da Graça nunca achou a menor graça no seu nome. Até hoje. Ela sempre achou que era nome de velha, o típico nome de avó mesmo. Então, nada mais natural que a partir de hoje ela considerasse o nome perfeito. Vinha pensando nisso enquanto dirigia seu carro de volta para casa. Estava voltando do hospital, onde sua filha tinha acabado de dar à luz a uma linda menina. “Vovó Maria”. Melhor ainda, “vó Gaça”. Ela não parava de imaginar a netinha chamando-a assim. E daí que a criança só tinha algumas horas de vida? Ela já imaginava a menina andando pela casa, rabiscando paredes… que maravilha. Maria da Graça, ao se aproximar da porta de casa, já vendo sua netinha correndo pra lá e pra cá, percebe um embrulho na soleira da porta, como se fosse uma caixa de Sedex, só que sem remetente. Estranho… Quem é que colocaria um embrulho daqueles na sua porta? Como conseguiu entrar, aliás? Ela entra em casa se perguntando “O que deve conter? Abro ou não abro?”. A curiosidade, enfim, é maior do que a prudência e ela acaba por abrir o pacote. Ela toma um pequeno susto com o que vê. Logo de cara, um bilhete, datilografado, chama-lhe a atenção: “Parabéns, vovó. Agora você tem uma linda netinha e faz parte do nosso grupo. Bem-vinda à Sociedade da Terceira Idade.” Estranho, muito estranho. Ninguém ainda sabia do nascimento da sua neta. Tinha corrido às pressas só ela e sua filha ao hospital. Mal tinha tido tempo de avisar o Douglas, seu genro. É isso, foi ele. Só pode ter sido ele que ligou para alguém e pediu para fazerem essa brincadeira. “É até bem criativa”, pensa, enquanto examina o conteúdo da caixa. (continua…)


Namorado de Aluguel (2 de 2)

12/Março, 2009

 

No sábado marcado, lá vou eu até a casa da menina, minha “namorada” naquele final de semana. Ela está espetacular, toda produzida. Sabe que estou começando a gostar desse negócio de fingir namoro? Oi, tudo bem? Oi. Três beijinhos no rosto. Você tá linda, como e que em tantos anos nunca te vi assim? Obrigada, não é sempre que sou madrinha de casamento. Você também não está mal não. Bom, eu me esforcei. Ta com mapa do lugar? Ta aqui ó. Deixa eu ver. E assim a gente segue falando amenidades o caminho inteiro. Só que, como diz o ditado, quem não arrisca não petisca, resolvi tentar de novo:

- Você sabe que por me usar nesse fim de semana, vai ter que pagar né?

- Ah, Paulê, achei que você estava fazendo isso por ser meu amigo.

- Amigo eu sou, claro, mas amigos, amigos, negócios à parte.

- Tá bom, quanto você quer?

- Quem falou em dinheiro? Nessas horas eu lembro do Tim Maia: “Não quero dinheiro eu só quero amar só quero amar só quero amar.” Pode pagar com o corpo mesmo.

Tomo um tapa. É, não deu muito certo. Mas o dia está apenas começando, ela há de ceder. Um pouco antes de chegar no tal sítio há uma bifurcação sobre a qual o mapa não falava nada. E agora, esquerda ou direita. Discutimos sobre qual caminho tomar. Eu acho que é pra esquerda, ela acha que é pra direita. Eu pego à esquerda, ela fica emburrada e para de falar comigo. Olha que não é que estamos mesmo parecendo um casal de verdade?

Chegamos no sítio e eu sento em uma mesa enorme, cheio de amigos e amigas dela. Apresentações feitas, esse é o Paulo, meu namorado, cumprimento todos com um sorriso. Estou pouco a vontade, odeio chegar em festa que eu não conheço absolutamente ninguém. Ainda mais quando eu percebo que a única pessoa que eu conheço desaparece e vai parar no altar, onde estão os outros padrinhos e madrinhas. Começo a conversar amenidades com o casal ao meu lado, seguindo o Guia Gorniak para Casamentos em que Você não Conhece Ninguém. Percebo que eles sabem bem mais dos gostos, costumes e da rotina da minha “namorada” do que eu. É, esquecemos de combinar certas coisas, inclusive desde quando namoramos. E parece que minha interlocutora lê meu pensamento, pois exatamente nessa hora, ela pergunta:

- E desde quando vocês namoram?

Caceta, e agora? “Desde a semana passada, quando ela me ligou falando desse casamento” não parece ser uma boa resposta.  Dou a única resposta possível nessa situação, aquela que sempre funciona. Quando em apuros, sobre qualquer assunto, não se intimide. Vá de depende.

- Depende.

- Como assim, depende?

Pronto, agora sim, consegui o gancho pra enrolar essa resposta indefinidamente.

- É… complicado. Porque a gente já se conhece há anos, tem uma história cheia de altos e baixos. E nós dois temos uma data diferente pro início do namoro. Espera ela voltar e você pergunta pra ela.

Assunto resolvido, começamos a falar sobre outras coisas, vai a cerimônia, trocam juras, alianças, “aceito” de ambas as partes e um beijo, aí começa a melhor parte:o buffet. Volta minha “namorada”, vem as cervejas e o whisky, e eu lembro porque gosto tanto dela: como bebe a menina. Passam os noivos “Felicidades, vocês formam um ótimo casal” outras coisas do gênero, até que a festa inteira está suficientemente alcoolizada para dançar Village People e assemelhados na pista. E é aí que o quem não arrisca não petisca entra de novo em ação. Chego no ouvido dela “Eu VOU te dar um beijo agora e você NÃO VAI fugir. Sabe como é, somos namorados, ia ficar estranho”. E tome um beijo que, para a minha surpresa, é respondido por um abraço e dura uns cinco minutos.

- Nossa, não saia que era tão bom.

- Tem muita coisa que você não sabe. Mas vai saber.

E a festa continua. Mas isso, já é um outra história.


Namorado de aluguel (1 de 2)

10/Março, 2009

Sou acordado com o telefone tocando. Atendo com aquela voz de quem acabou de ser acordado por um telefone tocando

- Auô..

- Oi Paulo! Você tá dormindo?

Bom, voz de mulher. Indistinguível, mas ainda assim, mulher. E, pelo jeito que disse “Oi, Paulo”, deve me conhecer.  E pelo horário também. Afinal, não se liga pra alguém que não se é muito íntimo às sete da manhã. Logo, não é telemarketing, então não tem porque não ser educado:

- Não, não…

- É que você está com uma voz de sono…

- Impressão sua, tô começando a trabalhar.

- Ah tá, ainda bem. Odiaria ter te acordado. Tô te ligando pra pedir um favorzão. Mas antes me responde uma coisa: você me ama?

- Que? Como assim se eu te amo?

- É, eu sei que você me ama, não ama?

- Sim eu amo – e fiz uma pausa.

- Você sabe com quem está falando né?

- Claro, oras – e fiz outra pausa. Não sei se fui muito convincente na resposta, mas eu disse que amava, não podia dizer que não fazia nem idéia de quem era.

- Então quem sou eu?

Ai meu Deus. Odeio gente que não acredita em mim. É por isso que o mundo não vai pra frente, ninguém confia em mais ninguém. Despertei meus sonolentos neurônios no tranco e me pus a pensar: quem é que poderia ter ligado àquela hora. Eu só tinha uma mulher em mente, mas precisava de mais um pouco de voz para formar uma opinião mais conclusiva.

- Ah, vá. Não acredito que você acha que eu não sei quem é você. Não vou responder só de birra.

- Ah Paulezinho, tá vendo como você não sabe? E disse que me ama e tudo o mais.

Essa resposta era tudo o que eu precisava. Só tem duas meninas que me chamam de “Paulezinho”, mas só uma delas seria louca o suficiente para me ligar à essa hora da manhã. Retruquei com toda a confiança do mundo:

- Claro que eu sei que é você, Marcela, deixa de ser besta. Ou você acha que eu ia dizer que amo assim, pra qualquer uma? Diga, qual o favorzão que você quer?

- É que… bem… eu fui convidada para ser madrinha de um casamento daqui a duas semanas. O problema é que todo mundo lá vai com namorado, menos eu. Você não quer ser meu namorado por um final de semana?

- Cuméquié?

- É, eu sou a única sem namorado, fica mó chato. Você não quer passar o fim de semana fingindo ser meu namorado? Afinal, você disse que me ama, não ama?

- Amo sim, claro. Tudo bem, eu viro seu namorado por um final de semana. Quando é que vai ser?

- Não esse sábado, o outro, em Mogi.

- Ta pode ser, não tenho nada marcado. Mas como namorado vai ter beijo né? E vamos dormir juntos né?

- Deixa de ser besta, você vai ter que fingir que é meu namorado, mas até certo ponto. – – Mas que raio de namoro é esse que não tem beijo, então?

- Não, não. Nada de beijo nem de dormir junto. Só abraçar e andar de mão dada que pode.

- Ah, para. Nesse calor, andar de mão dada, não quero não. Quero beijo.

- Se comporta rapaz! Isso a gente vê depois. Mas posso contar com você então.

- Claro que pode.

- Ótimo. Quero ver você bem bonito pra ser meu namorado hein?

- Você tem certeza que sabe com quem ta falando? Eu, bonito?

- Ah seu idiota! A gente se vê sábado então. Beijão.

- Beijos.

 

(continua)


O Segredo do Meu Sucesso

11/Fevereiro, 2009

- Qual é o segredo do seu sucesso?

Ele fita o auditório lotado. Mal pode acreditar naquela centena de rostos olhando para ele. Quem diria que um dia ele estaria ali, na mesma faculdade que estudou, mas na condição de palestrante principal da tradicional Semana de Propaganda. Sua mãe ficaria orgulhosa, ele pensa. A despeito de todo mundo, ela sempre disse que ele chegava lá. Ele se lembra da música do Chico e ri. Queria tanto que o velho Matias, seu professor de Teoria da Comunicação estivesse lá para que ele pudesse, enfim, olhá-lo no olho como quem diz “Tá vendo? Lembra que você me chamava de “desperdício de tempo e dinheiro”? Olha onde o pequeno desperdício está agora.”  Se bem que só um “Chupa velho safado!” já tava de bom tamanho. A pergunta repetida e o traz de volta à realidade:

- Tipo, o seu primeiro sucesso, aquele que te deu o primeiro Leão em Cannes. Como você teve aquela idéia?

- Está falando daquela campanha do Bem-me-quer praquela multinacional, né? É… ela foi o meu primeiro Leão e foi com ela que eu ganhei notoriedade e espaço pra criar e ganhar todos os outros prêmios. Bom, aquela idéia surgiu como surgem as grandes idéias – e pigarreia.

As lembranças daquele dia vêm imediatamente. Ele lembra de acordar de ressaca, nu em uma cama desconhecida. “Que porra de lugar é esse? Que que eu estou fazendo aqui?” ele se pergunta. A cabeça dói. O gosto de guarda-chuva na boca. O cheiro de álcool com látex e sexo. O quarto ainda na penumbra, mas ele já percebe o sol lá fora.  Ao seu lado uma mulher de cabelos ruivos dorme pesadamente. A pele muito branca, meio que coberta pelo lençol. Ele se lembra vagamente do acontecido naquela noite. O bar. Muita gente. Muita cerveja. Muita caipirinha. Muita tequila. De algum jeito chegaram àquele quarto. Aí ele se lembra vagamente do acontecido naquele quarto. Uma noite daquelas. Muito sexo. Muito grito. Muito suor. Me arranha, me morde, me bate. Muita selvageria entre ele e aquela mulher ruiva. Até o momento em que os dois, exaustos e saciados, tombam e adormecem. E ai está ele. Não devia ter bebido tanto ontem no bar.  Não devia ter feito tanto sexo. Não, isso devia sim, não se arrepende. Cambaleante, vai até o banheiro e lava o rosto. Está um caco. A dor de cabeça e o gosto de quem tomou chá de meia suja não ajudam. Olha pro relógio é dá um grito. PUTAQUEOPARIU já são dez e meia da manhã. A ruiva acorda assustada. “Quequefoi?” “Cacete, eu preciso ir embora AGORA. Tenho uma reunião importantíssima, brainstorm pra uma puta campanha duma puta multinacional. Se não chegar, tô morto.” Enfia a calça. A camiseta tá toda amassada, fedendo a fumaça de cigarro. Sai catando meia e tênis e chave e carteira, tropeçando na mobília e nas roupas da ruiva que estão no chão até que consegue chegar na porta do apartamento. Só grita um “Te ligo depois” pra menina que vem descabelada, enrolada no lençol, logo atrás dele, e bate a porta. No elevador vai se amaldiçoando “Burro, burro, burro! O pessoal da agência querendo sua cabeça, só precisam de um motivo pra te mandar embora e você faz isso! Idiota!” Continua se amaldiçoando enquanto sai do prédio e pega um táxi. Já são onze e cinco quando pega a Marginal congestionada. Pronto, a reunião começou, ele não chegou e seu emprego já era. Não tem mais jeito. A primeira coisa a fazer hoje ao chegar em casa é arrumar o currículo e o portfólio. Só uma idéia genial pode salvar o emprego. Isso mesmo! Ainda há uma chance. Mas a idéia TEM QUE SER genial. E começa a pensar, e teima e lima e sofre e sua. Falta pouco para chegar na agência. Pressão… pressão… Não tá vindo nada. E justo ele que sempre se orulhou de trabalhar bem sob pressão. Maldição… Vem… Alguma coisa… Qualquer coisa! Nuvem. Pires. Rato. Gelatina. Tegucigalpa. Vermelho. Lá fora o sol brilha. As borboletas. A flores. É isso! As flores! Bem-me-quer, bem-me-quer! Sensacional! Pega o caderno e rascunha a idéia. Acaba assim que o táxi para na frente da agência. Paga a corrida feliz da vida e nem pega o troco. Entra como um raio e vai direto para a sala de reunião. Abre a porta e todos se viram para ele. Percebe na expressão geral algo como “Nossa, ele está um caco.” Nem deixa o chefe falar. Não há tempo para esporros idiotas. “Tenho aqui a idéia certa para essa campanha” diz, triunfante, enquanto balança as folhas de caderno no ar.  E explica para toda a equipe sua idéia. A campanha “Bem-me-quer” é um sucesso e ganha o Leão de Ouro em Cannes, o prêmio maior da propaganda. E o primeiro Leão da agência. Daí pra frente ele vira estrela. E o resto é história.

- “A- rrãm” dá outro pigarro, voltando sua atenção ao público que lota o auditório à sua frente. “Desculpe. Como eu ia dizendo, aquela idéia surgiu como surgem as grandes idéias. Muito trabalho, dedicação, garra, esforço e empenho. Como dizia Einstein, o único lugar onde sucesso vem antes de trabalho, é o dicionário. E é esse o meu conselho a todos vocês. Trabalhem muito, trabalhem forte, trabalhem duro. Vocês serão recompensados.”

A platéia explode em palmas. E um sorriso maroto aparece no canto de sua boca.


Férias

22/Dezembro, 2008

A partir de hoje, eu entro em férias.

- Ué, mas pela frequência de textos postados, você já não tava?, há de perguntar alguém.

- Não. Mas a minha promessa de ano novo número dois mil, seiscentos e dez é publicar textos no meu blog com mais frequência, responderei eu.

Ano que vem termino a saga “Correndo atrás”, a quem interessar possa.

E nada como um ano novo na Bahia para render novas histórias. Até dia 05.

Gorniócio