Fábula

Era o livro do momento. As vendas estouradas. De um escritor gringo, palestrante internacional. Foi capa de Veja, entrevistado no Jô. reportagem do Fantástico. Estava já na 32a edição e não parava nas prateleiras, apesar de ser caríssimo, quase mil reais. Estava na boca de todo mundo. Era uma fábula e tanto, diziam. Mas quem lia não emprestava, queimava. Livro pequeno, menos que 50 páginas. Quem leu, leu, quem não leu tá por fora. O diabo é que, sem exceção, todos que liam queimavam e recusavam-se a comentar. Tudo o que ele sabia é que era uma fábula. Trabalhou o mês inteiro, não saiu de balada, atrasou a segunda parcela do seguro do carro e não foi com a namorada nem uma vez no cinema. Estava economizando pra comprar o livro. Queria saber que fábula era aquela. Enfim, mil reais na mão, foi à livraria. Relutou. Mil reais num livro de umas quarenta e tantas páginas? Vale a pena? Claro que valia, era uma tremenda fábula. A curiosidade foi maior que a avareza e ele comprou o livro. Não esperou nem chegar em casa, abriu o pacote e foi lendo no metrô mesmo. Uma história confusa, sobre tangerinas, fotos digitais, piscinas, o óculos do Ray Charles e a Teoria da Relatividade. Ficou extremamente desapontado, gastara mil reais, não tinha entendido nada. Por fim, o último capítulo, intitulado “A moral da Fábula”. Ufa, até que enfim, pelo menos o dinheiro gasto vai valer a pena. Transcrevo o último capítulo, de apenas uma linha:

“A grande fábula da qual você até agora se pergunta não podia ser outra: o dinheiro gasto. Mil reais, meu amigo, é uma fábula!”

Subiu-lhe um ódio mortal. Saiu do metrô e queimou a porra do livro. Em algum lugar do planeta, o escritor e o editor riram.

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