Parte 10 (de 10)
A conclusão
A chuva não pára de cair, já é bem de madrugada no sábado e eu ainda não consegui um beijinho sequer nesse carnaval. Sábado de carnaval zerado! Pra não dizer que estou completamente zerado, tem um selinho na bagagem. Isso é inadmissível. Realmente estou velho demais pra isso. Já foi-se longe o tempo em que eu era bom, passava o rodo. Agora não passo de um trintão acabado e gordo. Melhor mesmo é eu parar de achar que a farra ainda é coisa pra mim, arrumar namorada e me endireitar. Tudo na vida passa, minha fase desair-na-noite-e-beber-tudo-ebeijar-todas também já era. Era exatamente isso que eu pensava enquanto procurava com meu amigo uma barraca para tomar whisky. Afinal, sem mulher, a única forma de me aquecer era na base do whisky. Eu não conseguia me animar nem com o meu amigo repetindo uma máxima que eu ensinei para ele:”Na chuva só ficam as loucas”. Eu quero que as loucas se explodam, o carnaval se exploda, Caxambu se exploda. Estou velho demais pra essa merda toda. Cheguei numa barraquinha e pedi um Red Label. O carinha da barraca me deu uma olhada tipo “coitado, ele pensa que ta onde?” e falou
- Red Label não tem não, só tem esse aqui, ó.- e apontou pra uma garrafa de Old Eight, claramente paraguaia, e claramente é a palavra exata, parecia com um envelope de Clight Tea diluído em 3 litros d´água. Bom, se não tem tu, vai tu mesmo, e já tá tudo fodido manda uma dose disso aí mesmo, há de servir . E, ainda por cima, quem sabe se eu não beber meia garrafa desse Old Eight paraguaio, não conseguia me matar, e acabar com esse carnaval patético? .É, eu tava velho demais pra isso.
Enquanto bebia e bufafa e praguejava e amaldiçoava e ranzinzava, vieram parar do meu lado duas meninas, encharcadas, para sair da chuva. Pediram pinga com mel pro cara da barraca e, enquanto tomavam, começaram a conversar. Como estavam bem coladas a mim, não deu para não ouvir.
- Nósinhora, que frio né?
- É, demais. A gente precisa se esquentar.
- É, mas só a pinga num ta adiantando. Seria bom um abraço.
- Pede pro minino aí do teu lado.
- Até que ele é bonitinho… podia me dar um abraço né?
Elas tavam falando de mim ou era impressão minha? Bom, mesmo que fosse de mim, estava puto demais para dar bola, estava bem escolado com mulheres que eu vou agarrar e desviam como se estivessem em Matrix desviando de balas, ou que pegam meu ouvido pra pinico e na hora de retribuir a atenção falam que não é bem assim.
- Mas ele nem olha pra cá. Assim fica difícil.
É, elas tavam realmente falando de mim. A curiosidade foi maior do que o mau-humor e eu virei pra encarar as duas. Com cara de bravo, claro, pois eu realmente estava irritado e não sou de dar mole assim e rir pra primeira doida-que-bebe-pinga que aparece, tá pensando o que? Encarei e virei rapidamente, como se eu não tivesse nem aí para as duas. Mas até que eram ajeitadinhas, não seria nada mal fazer uma permuta de bebidas e calor corporal, não necessariamente nessa ordem, claro. Mas eu ainda estava bravo, ainda chovia, ainda estava frio, eu ainda achava aquilo tudo uma merda.
- Mas ele tá bravo, olha só a cara dele – disse uma
- Ai que eu adoro um homem brabo! – respondeu a outra de bate-pronto.
A rapidez e o conteúdo da resposta me surpreenderam e desarmaram meu mau-humor. Eu ri e tive que puxar conversa. Meu amigo que não é bobo nem nada juntou-se a nós e, dali a minutos, estávamos eu e a que “gostava de homem brabo” nos aquecendo, afinal só o whisky e a pinga com mel não tavam dando conta. Não senti mais a chuva e o frio deixou de ser um problema.
- Eu adoro isso aqui. E ainda temos vários dias pela frente – comentei com meu amigo, entre uma pausa e outra no aquecimento.
- Ué, mas você não disse que estava velho demais? Não estava xingando a tudo e a todos? Não disse que iria embora amanhã?
- Eu? Ta maluco? Deve ter me confundido com alguém. Que papo de velho.
fim