- Qual é o segredo do seu sucesso?
Ele fita o auditório lotado. Mal pode acreditar naquela centena de rostos olhando para ele. Quem diria que um dia ele estaria ali, na mesma faculdade que estudou, mas na condição de palestrante principal da tradicional Semana de Propaganda. Sua mãe ficaria orgulhosa, ele pensa. A despeito de todo mundo, ela sempre disse que ele chegava lá. Ele se lembra da música do Chico e ri. Queria tanto que o velho Matias, seu professor de Teoria da Comunicação estivesse lá para que ele pudesse, enfim, olhá-lo no olho como quem diz “Tá vendo? Lembra que você me chamava de “desperdício de tempo e dinheiro”? Olha onde o pequeno desperdício está agora.” Se bem que só um “Chupa velho safado!” já tava de bom tamanho. A pergunta repetida e o traz de volta à realidade:
- Tipo, o seu primeiro sucesso, aquele que te deu o primeiro Leão em Cannes. Como você teve aquela idéia?
- Está falando daquela campanha do Bem-me-quer praquela multinacional, né? É… ela foi o meu primeiro Leão e foi com ela que eu ganhei notoriedade e espaço pra criar e ganhar todos os outros prêmios. Bom, aquela idéia surgiu como surgem as grandes idéias – e pigarreia.
As lembranças daquele dia vêm imediatamente. Ele lembra de acordar de ressaca, nu em uma cama desconhecida. “Que porra de lugar é esse? Que que eu estou fazendo aqui?” ele se pergunta. A cabeça dói. O gosto de guarda-chuva na boca. O cheiro de álcool com látex e sexo. O quarto ainda na penumbra, mas ele já percebe o sol lá fora. Ao seu lado uma mulher de cabelos ruivos dorme pesadamente. A pele muito branca, meio que coberta pelo lençol. Ele se lembra vagamente do acontecido naquela noite. O bar. Muita gente. Muita cerveja. Muita caipirinha. Muita tequila. De algum jeito chegaram àquele quarto. Aí ele se lembra vagamente do acontecido naquele quarto. Uma noite daquelas. Muito sexo. Muito grito. Muito suor. Me arranha, me morde, me bate. Muita selvageria entre ele e aquela mulher ruiva. Até o momento em que os dois, exaustos e saciados, tombam e adormecem. E ai está ele. Não devia ter bebido tanto ontem no bar. Não devia ter feito tanto sexo. Não, isso devia sim, não se arrepende. Cambaleante, vai até o banheiro e lava o rosto. Está um caco. A dor de cabeça e o gosto de quem tomou chá de meia suja não ajudam. Olha pro relógio é dá um grito. PUTAQUEOPARIU já são dez e meia da manhã. A ruiva acorda assustada. “Quequefoi?” “Cacete, eu preciso ir embora AGORA. Tenho uma reunião importantíssima, brainstorm pra uma puta campanha duma puta multinacional. Se não chegar, tô morto.” Enfia a calça. A camiseta tá toda amassada, fedendo a fumaça de cigarro. Sai catando meia e tênis e chave e carteira, tropeçando na mobília e nas roupas da ruiva que estão no chão até que consegue chegar na porta do apartamento. Só grita um “Te ligo depois” pra menina que vem descabelada, enrolada no lençol, logo atrás dele, e bate a porta. No elevador vai se amaldiçoando “Burro, burro, burro! O pessoal da agência querendo sua cabeça, só precisam de um motivo pra te mandar embora e você faz isso! Idiota!” Continua se amaldiçoando enquanto sai do prédio e pega um táxi. Já são onze e cinco quando pega a Marginal congestionada. Pronto, a reunião começou, ele não chegou e seu emprego já era. Não tem mais jeito. A primeira coisa a fazer hoje ao chegar em casa é arrumar o currículo e o portfólio. Só uma idéia genial pode salvar o emprego. Isso mesmo! Ainda há uma chance. Mas a idéia TEM QUE SER genial. E começa a pensar, e teima e lima e sofre e sua. Falta pouco para chegar na agência. Pressão… pressão… Não tá vindo nada. E justo ele que sempre se orulhou de trabalhar bem sob pressão. Maldição… Vem… Alguma coisa… Qualquer coisa! Nuvem. Pires. Rato. Gelatina. Tegucigalpa. Vermelho. Lá fora o sol brilha. As borboletas. A flores. É isso! As flores! Bem-me-quer, bem-me-quer! Sensacional! Pega o caderno e rascunha a idéia. Acaba assim que o táxi para na frente da agência. Paga a corrida feliz da vida e nem pega o troco. Entra como um raio e vai direto para a sala de reunião. Abre a porta e todos se viram para ele. Percebe na expressão geral algo como “Nossa, ele está um caco.” Nem deixa o chefe falar. Não há tempo para esporros idiotas. “Tenho aqui a idéia certa para essa campanha” diz, triunfante, enquanto balança as folhas de caderno no ar. E explica para toda a equipe sua idéia. A campanha “Bem-me-quer” é um sucesso e ganha o Leão de Ouro em Cannes, o prêmio maior da propaganda. E o primeiro Leão da agência. Daí pra frente ele vira estrela. E o resto é história.
- “A- rrãm” dá outro pigarro, voltando sua atenção ao público que lota o auditório à sua frente. “Desculpe. Como eu ia dizendo, aquela idéia surgiu como surgem as grandes idéias. Muito trabalho, dedicação, garra, esforço e empenho. Como dizia Einstein, o único lugar onde sucesso vem antes de trabalho, é o dicionário. E é esse o meu conselho a todos vocês. Trabalhem muito, trabalhem forte, trabalhem duro. Vocês serão recompensados.”
A platéia explode em palmas. E um sorriso maroto aparece no canto de sua boca.