Sou acordado com o telefone tocando. Atendo com aquela voz de quem acabou de ser acordado por um telefone tocando
- Auô..
- Oi Paulo! Você tá dormindo?
Bom, voz de mulher. Indistinguível, mas ainda assim, mulher. E, pelo jeito que disse “Oi, Paulo”, deve me conhecer. E pelo horário também. Afinal, não se liga pra alguém que não se é muito íntimo às sete da manhã. Logo, não é telemarketing, então não tem porque não ser educado:
- Não, não…
- É que você está com uma voz de sono…
- Impressão sua, tô começando a trabalhar.
- Ah tá, ainda bem. Odiaria ter te acordado. Tô te ligando pra pedir um favorzão. Mas antes me responde uma coisa: você me ama?
- Que? Como assim se eu te amo?
- É, eu sei que você me ama, não ama?
- Sim eu amo – e fiz uma pausa.
- Você sabe com quem está falando né?
- Claro, oras – e fiz outra pausa. Não sei se fui muito convincente na resposta, mas eu disse que amava, não podia dizer que não fazia nem idéia de quem era.
- Então quem sou eu?
Ai meu Deus. Odeio gente que não acredita em mim. É por isso que o mundo não vai pra frente, ninguém confia em mais ninguém. Despertei meus sonolentos neurônios no tranco e me pus a pensar: quem é que poderia ter ligado àquela hora. Eu só tinha uma mulher em mente, mas precisava de mais um pouco de voz para formar uma opinião mais conclusiva.
- Ah, vá. Não acredito que você acha que eu não sei quem é você. Não vou responder só de birra.
- Ah Paulezinho, tá vendo como você não sabe? E disse que me ama e tudo o mais.
Essa resposta era tudo o que eu precisava. Só tem duas meninas que me chamam de “Paulezinho”, mas só uma delas seria louca o suficiente para me ligar à essa hora da manhã. Retruquei com toda a confiança do mundo:
- Claro que eu sei que é você, Marcela, deixa de ser besta. Ou você acha que eu ia dizer que amo assim, pra qualquer uma? Diga, qual o favorzão que você quer?
- É que… bem… eu fui convidada para ser madrinha de um casamento daqui a duas semanas. O problema é que todo mundo lá vai com namorado, menos eu. Você não quer ser meu namorado por um final de semana?
- Cuméquié?
- É, eu sou a única sem namorado, fica mó chato. Você não quer passar o fim de semana fingindo ser meu namorado? Afinal, você disse que me ama, não ama?
- Amo sim, claro. Tudo bem, eu viro seu namorado por um final de semana. Quando é que vai ser?
- Não esse sábado, o outro, em Mogi.
- Ta pode ser, não tenho nada marcado. Mas como namorado vai ter beijo né? E vamos dormir juntos né?
- Deixa de ser besta, você vai ter que fingir que é meu namorado, mas até certo ponto. – – Mas que raio de namoro é esse que não tem beijo, então?
- Não, não. Nada de beijo nem de dormir junto. Só abraçar e andar de mão dada que pode.
- Ah, para. Nesse calor, andar de mão dada, não quero não. Quero beijo.
- Se comporta rapaz! Isso a gente vê depois. Mas posso contar com você então.
- Claro que pode.
- Ótimo. Quero ver você bem bonito pra ser meu namorado hein?
- Você tem certeza que sabe com quem ta falando? Eu, bonito?
- Ah seu idiota! A gente se vê sábado então. Beijão.
- Beijos.
(continua)