Namorado de aluguel (1 de 2)

Sou acordado com o telefone tocando. Atendo com aquela voz de quem acabou de ser acordado por um telefone tocando

- Auô..

- Oi Paulo! Você tá dormindo?

Bom, voz de mulher. Indistinguível, mas ainda assim, mulher. E, pelo jeito que disse “Oi, Paulo”, deve me conhecer.  E pelo horário também. Afinal, não se liga pra alguém que não se é muito íntimo às sete da manhã. Logo, não é telemarketing, então não tem porque não ser educado:

- Não, não…

- É que você está com uma voz de sono…

- Impressão sua, tô começando a trabalhar.

- Ah tá, ainda bem. Odiaria ter te acordado. Tô te ligando pra pedir um favorzão. Mas antes me responde uma coisa: você me ama?

- Que? Como assim se eu te amo?

- É, eu sei que você me ama, não ama?

- Sim eu amo – e fiz uma pausa.

- Você sabe com quem está falando né?

- Claro, oras – e fiz outra pausa. Não sei se fui muito convincente na resposta, mas eu disse que amava, não podia dizer que não fazia nem idéia de quem era.

- Então quem sou eu?

Ai meu Deus. Odeio gente que não acredita em mim. É por isso que o mundo não vai pra frente, ninguém confia em mais ninguém. Despertei meus sonolentos neurônios no tranco e me pus a pensar: quem é que poderia ter ligado àquela hora. Eu só tinha uma mulher em mente, mas precisava de mais um pouco de voz para formar uma opinião mais conclusiva.

- Ah, vá. Não acredito que você acha que eu não sei quem é você. Não vou responder só de birra.

- Ah Paulezinho, tá vendo como você não sabe? E disse que me ama e tudo o mais.

Essa resposta era tudo o que eu precisava. Só tem duas meninas que me chamam de “Paulezinho”, mas só uma delas seria louca o suficiente para me ligar à essa hora da manhã. Retruquei com toda a confiança do mundo:

- Claro que eu sei que é você, Marcela, deixa de ser besta. Ou você acha que eu ia dizer que amo assim, pra qualquer uma? Diga, qual o favorzão que você quer?

- É que… bem… eu fui convidada para ser madrinha de um casamento daqui a duas semanas. O problema é que todo mundo lá vai com namorado, menos eu. Você não quer ser meu namorado por um final de semana?

- Cuméquié?

- É, eu sou a única sem namorado, fica mó chato. Você não quer passar o fim de semana fingindo ser meu namorado? Afinal, você disse que me ama, não ama?

- Amo sim, claro. Tudo bem, eu viro seu namorado por um final de semana. Quando é que vai ser?

- Não esse sábado, o outro, em Mogi.

- Ta pode ser, não tenho nada marcado. Mas como namorado vai ter beijo né? E vamos dormir juntos né?

- Deixa de ser besta, você vai ter que fingir que é meu namorado, mas até certo ponto. – – Mas que raio de namoro é esse que não tem beijo, então?

- Não, não. Nada de beijo nem de dormir junto. Só abraçar e andar de mão dada que pode.

- Ah, para. Nesse calor, andar de mão dada, não quero não. Quero beijo.

- Se comporta rapaz! Isso a gente vê depois. Mas posso contar com você então.

- Claro que pode.

- Ótimo. Quero ver você bem bonito pra ser meu namorado hein?

- Você tem certeza que sabe com quem ta falando? Eu, bonito?

- Ah seu idiota! A gente se vê sábado então. Beijão.

- Beijos.

 

(continua)

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