Cena 1 – Casal no bar. Onze e tanto da noite. Jogo Brasil e Peru rolando. Ele compenetrado na tevê, vendo o jogo. Ela, olhando para ele. Na mesa, dois copos de cerveja e uma porção de manjubinha.
- Amo-or – ela cheia de graça, encaracolando o cabelo, mexendo na cutícula e olhando para ele.
- Oi – sem tirar os olhos da tevê.
- Você me ama?
- Claro!
- Ah não, assim não vale…Você sempre fala “Claro” quando eu te pergunto isso… mas nunca diz que me ama.
- Mas não é a mesma coisa?
- Lógico que não! Você nunca me disse “Eu te amo” pra valer.
- Ah, querida, mas você sabe disso.
- Não sei não, você nunca disse. Quero que você me diga hoje que me ama.
- Hoje?
- É. Hoje.
- Que horas são?
- São onze e 53, por quê?
- Onze e 53? Hum… Hoje não dá.
- Não dá o que?
- Não dá pra eu falar que te amo.
- Como assim, não dá? Você me ama ou não?
Ele, ainda vendo o jogo, não responde.
- Hein Carlos Alberto, eu estou falando com o senhor. Por que disse que hoje não dá pra falar que me ama?
- Porque é melhor não. Hoje não.
- Não estou entendendo… Que que tem demais você falar hoje que me ama?
- Caralho, que merda!
- Calma Carlos Alberto, é só uma pergunta, não precisa ficar assim.
- Meu, o cara não tocou pro outro que estava sozinho pra fazer o gol. Você viu isso? Viu só? Puta que o pariu!
- Ah, o senhor está falando do jogo? Viu como nem presta atenção em mim? Eu não significo nada mesmo…Nem falar “eu te amo” você fala pra mim.
Ele para de olhar a tevê e vira a atenção para ela:
- Tá… tá…. é isso que você quer ouvir?
- É.
- Que horas são?
- Onze e 55.
- Não dá.
- Faaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaala vai.
- Então tá… Eu te amo – e volta a assistir o jogo.
Silêncio na mesa. Ele ainda vendo o jogo. Ela toma um gole de cerveja. Mas não parece muito satisfeita, então volta à carga:
- Mas amo-or… Por que você disse que hoje não podia dizer que me amava?
- Hoje é primeiro de abril, responde mecanicamente, sem tirar os olhos do jogo.
Silêncio na mesa
(continua)