Fugazes paixões eternas

9:00h -  Estou no ônibus indo trabalhar e lendo um livro, quando tenho minha atenção desviada para uma menina que acaba de entrar. Ela entra e fica ali, parada à minha frente. Uma graça, esbanja charme, e eu fico instantaneamente apaixonado pelos cabelos negros ondulados, ainda molhados, pela pele fresca do banho, meio assim cor de jambo (apesar de eu nunca ter visto jambo). O ônibus segue cada vez mais cheio e eu sigo cada vez mais apaixonado. Já imagino nós dois na mesa de bar e alguém perguntado “Como vocês se conheceram?’ Cuidado com a resposta, errar o número da linha do ônibus é crime maior do que esquecer o aniversário dela. A coisa fica séria e o meu primeiro presente é um carro. “Não quero que fique andando de ônibus com tanto vagabundo metido a Don Juan por aí”. Depois de algum tempo começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Nessa hora, o ônibus para no ponto e ela desce. Observo pela janela minha paixão sumir na multidão para nunca mais voltar. Volto ao livro.

9:30h - O elevador do prédio onde trabalho se enche de gente no térreo. Estou no fundo e, quando a porta se fecha e a massa se ajeita, noto uma nuca caprichosamente posicionada à minha frente. Me apaixono na hora. Os cabelos castanhos, brilhantes, meticulosamente presos, e apenas alguns fios soltos, colados à nuca. Já me vejo abraçando-a por trás e explorando aos beijos aquela nuca durante horas. E outras tantas horas contando uma por uma quantas sardas ela tem no rosto que, apesar de eu não estar vendo agora, sei que existem aos montes. A cena muda para nós dois na rede, numa tarde preguiçosa de começo de outono, com o sol se pondo, ela deitada no meu peito com aqueles cabelos todos espalhados, eu fazendo um cafuné interminável, a gente falando sobre nada e sobre tudo, ou melhor, no mais absoluto silêncio. Naquela hora começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Mas antes que eu diga isso para ela, a porta do elevador se abre e ela sai. Da minha paixão, só resta o perfume, enquanto o elevador sobe.

9:32h - Entro no escritório onde trabalho. A recepcionista me olha e me cumprimenta com um “Bom dia” que é música para os meus ouvidos e um sorriso tão sorriso que eu me apaixono de imediato, sem resistência. Vem à minha mente a imagem de nós dois num quarto e, quando eu acordo ela está sorrindo aquele sorriso dela para mim, o que, junto com o sol da manhã que entra pela janela e os seus cabelos dourados, faz com que o quarto fique insuportavelmente iluminado. começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Mas aí vejo meu chefe acenando da sala ao lado e, antes que eu tenha a certeza de qualquer coisa, vou para a minha mesa trabalhar e a paixão fica ali na recepção.

Encaro o micro, mas só consigo pensar nas minhas três fugazes paixões daquela manhã. Num exercício mental, repito que preciso parar de me apaixonar assim. É quando eu ouço um “Oi Paulo” feminino atrás de mim. E sorrio antes mesmo de me virar.

6 Respostas para “Fugazes paixões eternas”

  1. Cinthya Disse:

    Eu particularmente ia amar ter esta capacidade masculina da “paixão fulgaz” e não ficar com o coração dilacerado com cada paixão que desce do ônibus ou sai pelo elevador. Vantagens de ser menino.

  2. Melissa Disse:

    Gostei taaanto desse texto!

  3. Loira Disse:

    Impressionante como vc romantizou o tesão descontido, a falta de vergonha na cara.
    Cortemos a ladainha, babe. A verdade é que vc não pode ver um rabo de saia.

    Mulherengos são uma merda, mas são uma delícia.

  4. Iara Disse:

    Meu Deus!! Tô boba.
    Que delícia os amores fugazes!!

  5. tatah Disse:

    boy paixões fulgaz é tudo de!!!
    bom passp por isso várias vezes!!!

  6. Mary Disse:

    Foi um jeito legalzinho de dizer:
    Sou um galinha rsrs…

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