O sábado à noite é dos bêbados – final

- Oi

Ela olhou pra mim com um misto de desinteresse e mau-humor, como se pensasse “Ih, lá vem mais um”. Dei o meu melhor sorriso, aperfeiçoado diariamente com creme dental branqueador, mas que acho que não foi suficiente, porque ela não respondeu nada.

- Tem alguém aqui ou posso me sentar?

Ela me mediu de cima abaixo, sem grande entusiasmo. Até que viu a garrafa de água com gás da minha mão (especulação minha) e viu que eu não era mais um dos bêbados puxadores de cabelo e assentiu:

- Não tem ninguém. Se você quiser…

No “quiser” eu já estava sentado, mais temendo o fato de que a minha ansiedade me fizesse sair correndo dali do que qualquer outra coisa. Bonita mesmo a menina, seus vinte e (bem) poucos anos, começamos a conversar amenidades, ela até que se mostrou receptiva, mostrei a água, pra reafirmar o conceito de “eu não sou bêbado” e comentei como estava quente o lugar, ela falou de como tinha gente, estava muito cheio, eu concordei e, como pra quebrar o gelo não há nada melhor que uma piada, mesmo que besta, emendei:

- Pois é, cheio mesmo. Se eu fosse o Belchior, viria aqui tranqüilo, que com certeza ninguém me acharia.

Encarei-a esperando a risada, que seria o sinal de “é, você é engraçado e legal”, mas ao invés disso só vi no rosto dela um ponto de interrogação gigante. Pela idade ela não fazia idéia de quem era Belchior e com certeza não devia imaginar que ele tinha sumido. Bola fora minha. Eu confesso que a piadinha não era boa, mas algum risinho, mesmo de “que merda” deveria arrancar dela, mas ela simplesmente não entendeu. Eu fiquei sem graça, ela continuou sem entender nada e, durante uns três segundos que passamos olhando um para o outro, uma bola de feno rolou do nosso lado. Dei um sorriso amarelo, tomei um gole da água com gás, agora já não tão gelada, pedi licença e fui embora. Pronto agora isso… precisava achar uma mulher mais nova (ou seja, em melhores condições estéticas) do que a cinquentona e uma mulher mais velha (ou seja, em melhores condições cultuais). E tudo isso sóbrio. Passei um tempo vagando pelos inúmeros ambientes da casa, sem sucesso. Até que eu me toquei que, o tipo de mulher que eu queria era suficientemente esperta para não estar ali, no meio daquela muvuca interminável, era sábado a noite e ela deveria estar fazendo algo bem mais interessante. Isso me fez pensar “E o que eu, então, estou fazendo aqui?” A resposta não veio, então eu fui embora e dormi, com uma grande lição aprendida: o sábado à noite é dos bêbados.

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