Gorn in Rio – parte 1

Depois de uma hora parado no trânsito, enfim chego à rodoviária. Desembarco em meio a um mundaréu de passageiros. Uma chuva fina bastou para transformar em caos partidas e chegadas, e dezenas de pessoas aguardam para partir em ônibus que já deveriam ter saído ou para receber seus conhecidos que ainda não chegaram em ônibus que já eram pra estar lá há tempos. Vendo aquele tumulto todo, resolvo comprar o quanto antes a minha passagem de volta, o que me demora mais uns quarenta minutos na fila do guichê. Assim que consigo ouço alguém às minhas costas: “Não acredito! Chuchu?” Me viro e vejo uma amiga que há tempos não encontrava, sorrindo para mim. Pausa na narração. Esclarecimento importante: “chuchu” é um termo carinhoso ao qual alguns anos atrás eu usava para me referir a toda e qualquer mulher que eu conhecia. Não se tratava de menosprezar dizendo que era sem gosto, era simplesmente uma forma mais fácil de eu não ter que tentar gravar nomes e, repetidamente, fracassar. Claro que elas sempre me chamavam de “chuchu” de volta e, até hoje, ainda trombo com quem me chame assim. Voltemos à narração. Minha amiga está com mais uma menina num albergue em Copabacana e combinamos de fazer algo mais à noite, apesar de estarmos longe um do outro. Elas vão embora num táxi, em sentido inverso ao meu caminho, e eu tomo um ônibus. Pronto, se tudo mais der errado, pelo menos um rosto conhecido eu tenho no Rio. Incrível como quando você está sozinho, procura conversar e fazer amizade com todo mundo: no ônibus que eu pego para a Cinelândia conheço um casal de paulistas, que está procurando albergue pra ficar. Quando expliquei com empolgação do meu achado na Lapa, ao lado da boemia e da farra, eles gentilmente agradecem e vão para outro lugar “queremos ver monumentos e arquitetura”. Bom, cada um com suas prioridades, desço sozinho na Cinelândia e sigo caminhando para o albergue. A chuva não para de cair e me vem à mente a cena-cichê do cara que acaba de chegar na cidade e é surrado, roubado e deixado sem nada desacordado na chuva. Rio da minha idéia besta, mas me convenço de que bandido não sai pra assaltar sete e meia da manhã, e na chuva, certo? Errado. Lá longe vejo vindo na mesmo calçada na minha direção dois típicos malandros de morro. “Vai dar merda” pensei, ao ver que na rua éramos só nós três. “É só manter a calma, vou atravessar a rua e assim, sutilmente, fugir deles.”  Atravesso a rua e, adivinha? Eles também. “É, realmente vai dar merda” voltei a pensar, enquanto eles estavam chegando cada vez mais perto. “Só passar por eles rapidamente, não parar, e rezar pra nada acontecer”, me instruí.  Eles vindo, eu indo, “vai dar merda mesmo” eles mais perto, eu mais perto, “qualquer coisa eu saio correndo”, nenhum dos três dá sinais que vai desviar do caminho, o encontro é iminente, um deles desacelera, o outro passa  já pega na minha mochila e se dirige a mim (mode carioquês on): “Ae, guerrero, perrrdeu.” O da frente já me segura pela camiseta “Seguinte, é um assalto, passa tudo ou te encho de facada”. Olho pra ambos e não vejo arma nenhuma. Se tivessem armaods, levariam o que quisessem, mas já passei da idade de ser intimidado só no grito, forcei a passagem e saí correndo. Eles não vieram atrás e eu só parei quando vi uma viatura de polícia parada. Mas aí eu já estava realmente perto do albergue, que rapidamente achei e entrei. A moça da recepção, muito simpática, enquanto fazia meu cadastro e pegava o comprovante de depósito das diárias, engatou aquele papinho de “primeira vez aqui, etc etc etc” e terminou com um “Você vai ver, vai gostar do Rio, tem muita coisa maneira aqui”. Pensei se deveria responder “É, tenho certeza que será ótimo, até me assaltar já tentaram”, mas achei uma resposta por demais ranzinza, ia contribuir pra ela falar mal dos paulistas, então me contive e virei para o lado, onde tinha um cartaz “Don´t be a gringo. Be a local” que oferecia excursões na favela. “Pronto, tudo certo, seu quarto é subindo a escada, primeira porta a direita”. Subi as escadas e entrei no quarto, onde imperava uma orquestra de roncos. Três beliches estavam ocupados e só um lá no canto tinha um colchão vago. Me acomodei o melhor que pude e resolvi dormir um pouco, para me refazer da madrugada insone no ônibus.

(continua)

2 Respostas para “Gorn in Rio – parte 1”

  1. silvinha Disse:

    pega nada não, chuchu!
    desanima não!
    “perrrdeu guerrero” deve ser um jeitinho carioca de dizer boas vindas…

  2. Melissa Disse:

    meu deus! L. vc fugiu deles!? não deixou levarem suas coisas!?
    Que herói!

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