Tendo contado com a sorte e colhendo os dividendos dos inúmeros contatos feitos na viagem de barco até Parintins, entramos no bumbódromo. Agora era tomar a decisão crucial: para qual boi torcer?
Eu podia ser Caprichoso, o boi preto com estrela na testa, da cor predominante azul.
Ou podia ser Garantido, o boi branco com coração na testa, da cor predominante vermelha.
Olhando bem pra cara dos dois, achei o preto mais intimidador. Além do que, um coração na testa não ajudava o Garantido a parecer lá muito másculo.
Caprichoso 1, Garantido zero.
Segunda informação recebida: Caprichoso é a agremiação da elite. Garantido, a do povão. Numa analogia com o futebol, é mais ou menos dizer que um é São Paulo, o outro Corinthians. Aí, não tenho nem dúvida sobre quem escolher.
Caprichoso 2, Garantido zero.
Mas o que realmente me fez definir para quem torcer, foi a história dos dois bois e o porquê do nome deles. Diz-se que anos atrás havia um poeta, casado com uma mulher lindíssima. E havia um trovador, vizinho do poeta, que também se apaixonou pela mulher. Numa das festas do boi o trovador, para tentar conquistar a moça, resolveu criar o seu próprio boi e, para provocar o poeta, ameaçou: “É bom o poeta ficar de olho na mulher dele para eu não roubá-la para mim, porque hoje estou indo caprichoso.”
O poeta, comunicado do fato, contra-atacou criando também o seu próprio boi elançou um ultimato em resposta: “Fala para ele que nem adianta vir para cima da minha mulher, porque ela não me troca por ninguém. Aqui tá garantido.”
Ou seja, enquanto o poeta do Garantido era casado, tinha uma família, o trovador do Caprichoso queria era tumultuar a ordem estabelecida. Ou seja, na essência eu era muito mais parecido com um do que com outro.
Placar final Caprichoso 3, Garantido zero. Eu já tinha escolhido meu boi.
A festa em si é espetacular, surpreendente mesmo. A apresentação conta, como nas escolas de samba do carnaval, com quesitos obigatórios. A história contada é a do casal que trabalhava numa fazenda. Grávida, a mulher sentiu desejo de comer carne e, sem ter dinheiro para comprar, o marido acabou matando o boi que vivia na fazenda. Acontece que o boi era o animal preferido da sinhá, a filha do dono da fazenda. Com medo de sofrer uma punição do dono da fazenda, ele chama os espíritos amazônicos, que ressucitam o boi. Mas não um boi comum, e sim um boi de pano, que viveria para sempre. A essa lenda são entremeadas outras lendas e personagens folclóricos amazônicos, diferentes a cada noite, com carros alegóricos, fantasias e músicas distintas para cada apresentação. Tudo lindo, cheio de detalhes, visualmente magnífico.
E a tocida é um espetáculo à parte. Três instrutores passam os 90 minutos de cada apresentação guiando a coreografia da torcida. Simplesmente sensacional.
Um espetáculo inesquecível, que deve ser visto por todo mundo. E eu, iz questão de ver todas as noites, mesmo sabendo que fora do bumbódromo o pau comia e a farra era imensa. Mas, mesmo assim, ainda deu pra curtir a cidade e os milhares de turistas que invadiram a ilha.
(continua)


