As férias da Redenção – parte 35

Como já mencionado, o calor absurdo de uma sauna mista impede que qualquer pessoa durma além das 9 da manhã. Qualquer pessoa normal, diga-se de passagem, já que Luciano é uma caso à parte e, tendo dormido andando certa vez, obviamente não se incomodava om o calor e tampouco com toda a algazarra feita pela família, crianças, agregados e tantos outros desconhecidos que apareciam e sumiam repentinamente da casa de Dona Marieta, e  curtia seu sono tranquilamente na rede.

Assim que acordei, tomei banho e café e já fui cercado por olhares suplicantes de Grande e Dênis, os dois homens da casa, que estavam sedentos por cerveja. Não pediram diretamente, mas Grande, que estava fritando alguns peixes (que nós havíamos comprado no dia anterior) tratou de deixar claro como aqueles peixes ficariam bem melhores se acompanhados de uma cerveja. Dei o dinheiro para um dos moleques que estava por ali e ele tratou de ir pegar cinco cervejas rapidamente. E assim começamos umas 10 da manhã e seguimos durante toda a tarde: cerveja e conversa fora (eu garantia a cerveja e eles a onversa fora) e o Luciano dormindo impassível na rede. Foi aí que eu aprendi muito mais sobre a dinâmica da casa da Dona Marieta, dos seus moradores e, por assim dizer, do povo de Parintins em geral.

Dona Marieta tinha dois filhos: Dênis (diminutivo de algo muito pior, tipo Denisvaldson ou algo assim), quase 30 anos, também conhecido (por nós) como Jeremias Muito Louco, que foi abandonado pela mãe biológica ainda na tenra idade e foi adotado por Dona Marieta; e Eliana, de 18, 19 anos, ela sim filha de sangue. Dênis era casado com Márcia, 25 anos, e já tinham 3 filhos, com idades entre 11 e 1 ano. Como podemos observar pela matemática, casaram-se quando ela tinha uns 13 anos e ficou grávida. Eliane era casada com Silvano, cujo apelido era Grande. Eu ainda era um pouco maior que ele, mas dada a estatura das demais pesoas de lá, ele era realmente grande. Tinha emigrado do sertão da Paraíba e casara-se com Eliane quando la tinha 16 anos. inham um filho de 1 ano. Além dos cinco adultos e de quatro ciancas, viviam ainda na casa mais dois moleques, adolescentes de idades que não me recordo, msa que era sobrinhos de sei lá quem, e que por algum acaso do destino tinham sido abrigados lá. À essa tropa todo dia unia-se amigos, tios, tias, primos e mais um batalhão de familiares e agregados, que iam e vinham, apareciam e sumiam de acordo com uma lógica que não fui capaz de entender completamente.  A certa altura eu não sabia mais quem era quem, se eu já tinha sido apresentado a fulano ou beltrana ou não. Na dúvida sorria pra todo mundo e conversava como se fôssemos velhos amigos.

A tarde foi avançando e as viagens do moleque para pegar cerveja foram se tornando cada vez frequqentes, o pessoal da casa foi enxugando álcool e as coisas omeçaram a ficar cada vez mais, como direi, pitorescas. Conforme fui conhecendo cada um mais a fundo, e eles foram se abrindo e contando suas histórias e seus dramas pessoais pra mim, vi que aquela casa dava um enredo digno de novela mexicana.

Começou com Eliane. Durante toda a tarde aquela carinha de anjo me lancava olhares altamente lascivos, que eu no começo fingia não perceber, mas quando ela começou a passar a perna dela na minha, por baixo da mesa de madeira onde estávamos sentados bebendo, não deu para ficar indiferente. Pouco depois do almoço o marido dela, aquele mesmo apelidado de Grande, paraibano cabra-macho que provavelmente resolvia as pendengas no facão, foi dormir.  A Lolita dos rópicos então aproveitou para me dar uma bela prensa do tipo “E aí paulista, tô aqui e me pega que sou sua. Vai encarar ou é frouxo?” Confesso que a tentação foi grande, mas tive de usar de muita diplomacia e pular fora. Estava na casa deles, com o marido, cabra-macho paraibano de alcunha de Grande, acostumado a resolver as coisas na faca, era melhor deixar pra outra hora, sabe como é. Ela me confidenciou que estava fazendo isso para se vingar do marido que, ela tinha certeza, tinha um caso com Marcia, a concunhada.

O marido acordou e Eliane arrefeceu nas suas investidas. Repare que eu disse arrefeceu, não disse parou. E a cerveja continuou vindo em profusão, o álcool acabou fazendo Silvano, aka Grande, também se confessar comigo. Talvez para mostrar macheza ou paulista recém-chegado, sabe-se lá o porquê, disse que tinha, sim, um caso com a concunhada e com mais algumas mulheres da vizinhança.

No some e aparece das pessoas, Silvano, o Grande, sumiu para fazer sabe-se lá o que e Dênis, que era a cara do Jeremias muito louco (não sabe do que se trata? Veja aqui) sentou-se ao meu lado. Completamente embriagado, aproveitou a presenca de um estranho, suponho, para desabafar. Disse que tinha se casado com a esposa porque ela ficara grávida muito cedo, que sabia que ela tinha alguns amantes, inclusive Silvano. Chegou atee mesmo a botar em dúvida a paternidade de algum dos filhos. Como conservavam os traços indígenas da mãe, era dificil afirmar se ele estava com alguma razão ou não.

Lá pro fim do dia, nova substituição na equipe, sai Dênis “Jeremias muito louco” e chega Dona Marieta, a matriarca da casa. Já chegou me aconselhando:

- Meu filho, tome cuidado com a Márcia. Tá doidinha para dar para você. Nnao pode ver um moço novo e bonito assim que já fica toda assanhada.

Diante da minha cara de espanto, e do  alto de toda a sua sabedoria de trocentos anos, profere as palavras definitivas:

- Aqui é assim mesmo, todo mundo trepa com todo mundo, todo mundo sabe, mas finge que não vê. Assim fica melhor pra todo mundo.

omo que confirmando as palavras de Dona Marieta, quando ela se retirou voltou Eliana, com toda a carga o quesito “vamos seduzir o paulista”. E aí, só aí, é que o Luciano resolveu acordar e pegou no pulo toda a tensão sexual entre eu e ela. Ao percebê-lo, ela se retirou e ele veio tirar satisfação:

- Tá louco? Dando em cima da mulher do Grande?

Não posso culpá-lo pela inversão nos papeis, fosse ele com ela eu também teria achado que ela era a vítima.

- Da missa você não sabe nem a metade, meu amigo.

E contei toda a história. No final das contas não aconteceu nada porque eu não quis, mas eu fiquei muito mais familiarizado com a cultura local. E minha consciência menos pesada pela casada da noite anterior.

(continua)

Uma resposta para As férias da Redenção – parte 35

  1. Luciano Luna disse:

    E o pior é que ele não aumentou em NADA. Foi exatamente assim que aconteceu. O povo lá tem fogo no rabo…hahaha…não sei se ele vai chegar lá no próximo capítulo, mas já fica aqui o adendo de quem vivenciou a história. Nos 2 próximos dias, as mamelucas devoradoras de homens Eliana e Márcia ainda dariam descaradamente em cima de mim e de Blédimilson, o ícone, a lenda, o mito…haha…mais detalhes nos próximos capítulos (ou não).

    Só um Paraibano (ou Maranhense, não lembro ao certo) apelidado de GRANDE e uma figura como o Dênis (Elias Muito Louco) para fazer com que nos comportássemos.

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