Parte 36
Segunda noite de farra am Parintins. Nova oportunidade de visitar o Bumbódromo, agora do lado do Caprichoso. Quando você está na torcida de um boi tem que ficar no mais absoluto silêncio enquanto o boi adversário se apresenta. Como havíamos entrado com a menina do barco na noite anterior, que era Garantido, ficamos na torcida vermelha e por isso não pudemos emitir um pio quando o Caprichoso entrou. Agora não. Agora iríamos participar de toda a coreografia, estaríamos no meio da massa fazendo algazarra, gritando, torcendo. Devo dizer que a sensaçao é indescritível. A alegria, a energia, a vibração são emocionantes, não tem como não se envolver. Três pessoas ficam à frente da arquibancada, de costas para o espetáculo e de frente para a galera atuando como autênticos animadores de torcida. São quase duas horas pulando, gritando e com os braços levantados executando as mais variadas coreografias. Leques de papelão, bate-bates infláveis, bexigasm e muitos outros objetos, devidamente patrocinados por Kaiser, Bradesco, Correios e outros, ajudam a compor um cenário incrível. Se não houvesse carros alegóricos gigantes lá embaixo, com dezenas de figurantes nas mais extravagantes fantasias, arrisco a dizer que tudo bem, a festa da arquibancada seria a mesma, tal a empolgação de todo mundo.
Exausto e com os braços doloridíssmos (mais de uma hora com os braços levantados e em movimento contínuo) não é mole de aguentar não. A solução era um só: creveja. Aliás, duas: cerveja e mulher. E fomos nós, junto com todo o resto das duas torcidas (quiçá da cidade) para alguns metros abaixo do umbódromo, no entorno da igreja de Nossa Senhora do Carmo. Defronte (adoro essa palavra) à praça da igreja, inúmeros bares esperavam a turba sedenta com cerveja gelada e música alta. Cenário ideal para aglomeração, onde todas as idades, credos, raças e sexos convergiam a partir da meia noite e sabe-se lá até que horas. Tenho certeza que Deus olhava pra mim lá de cima e, lembrando-se do nosso trato e dacota que eu ainda tinha que cumprir,pensava: “Vai lá meu rapaz, me encha de orgulho!”
Naquela noite, por acaso Luciano tinha colocado uma camisa da seleção do Paraguai. Depois de meia dúzia de cervejas decidiu que criaria uma persona, Pablo Hernandes, e a partir dali só se comunicaria em espanhol com as mulheres. O sucesso foi imediato,, se a mulherada já se jogava em cima quando flávamos que éramos de São Paulo, imagina de um estrangeiro, mesmo que paraguaio falsificado? Nem as inúmeras gafes cometidas, como por exemplo dizer que era de Punta Del Este, que fica no Uruguai, ou abusar de palavras em italiano vindas diretamente da novela Passione, como se fosem castelhano, diminuiu o interesse do sexo oposto. Ele tornou-se, então, o centro das atrações, o ímã que uxava as mulheres. A mim só restou bancar o peixe piloto e ficar à sua sombra, aproveitando as mulheres que apareciam.
Mas não deu para pasar o rodo em qualquer coisa que aparecesse pela frente, porque sub-repticiamente apareceu ela. Alta, morena, longos cabelos pretos escorridos, um portento, como diria meu avô o velho Stan. Aliás, quem chegou primeiro foram os seios, e alguns segundos depois, ela. Vestia um top que não escondia nada seus vastos atributos frontas, reassalva-os inclusive. Como se não fosse perdição suficiente para uma mente fértil como a minha, ainda tinha as coxas, cujo tamanho era inversamente proporcional à do microshort branco que usava. Era tudo o que eu tinha pedido para aquela noite e um pouco mais, aliás bastante mais, de bônus. Entretando ela se aproximou de nós pelo lado em que o homem mais próximo era ele, o ícone, a lenda, o mito, Bledmilson. Rapidamente Blédi abordou-a e começou uma aula de cavalheirismo e de como se cortejar uma dama no meio da floresta. Cumprimentou-a, perguntou seu nome, nos apresentou e sem mais perder tempo, disparou:
- Mas tú tá um espetáculo de gostosa, hein? Bora fudê?
Eu confesso que fiquei mais espantado que ela, que apenas rui e negou gentilmente o convite. Mas Bledmilson não era o ícone, a lenda, o mito à toa. Uma das qualidades dele era a perseverança:
- Vamo lá, rapidinho. Bora fudê. Te pago o motel. Você vai gostar.
Meu primeiro impulso foi pedir desculpa a ela pelo Blédi, ele não sabe o que está dizendo, bebeu demais e essas coisas, mas só olhei para o outro lado como que querendo me desligar daquele diálogo. Posso jurar que ela não só não ficou nada ofendida, como se fosse outra pessoa que não Bledmilson, o ícone,a lenda, o mito, tinha grandes chances de ela ter aceitado. Depois de novamente declinar da proposta de Bédi, ela começosar comigo e, sem toda a eloquência dele, acabei ´ropondo a mesmissima coisa depois de algum tempo de conversa. Para meu júbilo e regozijo ela aceitou e fomos para o motel, um dos únicos dois da cidade. Vinte reais o quarto, pagos adiantados, por meia hora. Como tinha fila de espera, não tinha como pagar por mais de trinta minutos. Pagava, usava, saía e, se quisesse mais meia hora, esperava algum quarto vagar novamente. Quem era eu para reclaEu era o de fora, tinha que seguir as regmar? Ras deles. Além do que, com uma mulher daquele tamanho, eu sinceramente cheguei a temer pela minha integridade física. Meia hora estava mais do que suficiente. Entramos no quarto e, pouco antes do bem-bom, ela me avisa:
- Só não podemos demorar muito que eu tenho que voltar rápido para casa.Meu marido está me esperando.
Marido? Outra casada? Eu estava com ímã de mulheres comprometidas ou era só uma coincidência absurda? Parei de pensar nisso depois que lembrei do episódio da tarde, com a mulher do cara da casa que eu estava ficando se jogando em cima de mim. É, esse era o esquema lá mesmo, a fidelidade não era algo muito em alta. E aí ela tirou a roupa e eu parei de pensar em qualquer outra coisa.
(continua)