A acompanhante inesperada – Epílogo

6/junho, 2011

Epílogo – Resoluções pós-viagem (e quem é a acompanhante inesperada?)

Depois de 10 dias de viagem, e mais de 2500km rodados, além de quase 20 capítulos de história, fiquei pensando em muita coisa, e cheguei a algumas conclusões.A primeira é que a viagem, mesmo com todos os prós e contras, com os altos e baixos, e mesmo com essa acompanhante inesperada, a chuva, foi sensacional e inesquecível.

A segunda é que, enfim, botei em prática uma ideia que tive há muito tempo, e não doeu nada. É hora de parar de só pensar e realmente fazer, de botar em prática todas as outras que tive. Uma por vez, claro.

E a terceira é que tomei gosto, definitivamente, por esse troço de viajar e tirar foto e escrever. Aos seis leitores desse blog, aguardem mais relatos assim.

Agora sim, de verdade, fim.


A acompanhante inesperada – parte 19

4/junho, 2011

Parte 19 – Enfim, mineiras na história

Já era noite e, obviamente pelo adiantado da hora, tínhamos perdido uma das instituições cariocas: tomar uma gelada no Bar Urca vendo o sol se por na Baía de Guanabara. Se bem que, com a chuvaincessante que caía, não eria por do sol de qualquer jeito. Decidimos, então, fazer o que dava para dizer que experimentou e curtiu parte do Rio: comer bolinho de bacalhau, tomar alguns vários chopes em butequim carioca, ouvir samba na Lapa e beijar cariocas lindas que falam safadeza no ouvido. Se possível, tudo isso junto, (mas achamos que era pedir demais).

Dos quatro do carro, eu era o único que tinha alguma experiência de caminhos pela cidade, então resolvi não arriscar e percorri os pontos que já tinha visitado alguma vez. Para experimentar o bolinho de bacalhau, paramos no Manoel e Juaquim do Largo do Machado. Pedimos chopes e assim já tínhamos 50% dos nossos objetivos da noite. Mas lá não tinha samba, tampouco cariocas formosas e solteiras e que davam mole, então não demoramos muito e seguimos para Santa Tereza. Lá paramos em um típico boteco carioca, com azuleijos decorados, quadros com charges e notícias, camisas e flâmulas de times, tão imitados (os donos sempre dizem “homenageados”) por bares paulistas tipo o Pirajá. Rolava um samba, pedimos chope e, tendo abrido mão de mais bolinho de bacalhau, contabilizávamos naquela hora uma taxa de 66% dos objeivos cumpridos. Mas, apesar de ter muita mulher bonita em volta, elas estavam devidamente acompanhadas com seus respectivos namorados também em volta, o que nos fez crer que não conseguiríamos atingir ali 100%. Aproveitamos para experimentar uma cachacinha fluminense antes de ir embora e seguimos para o único lugar que, acreditava eu, conseguiríamos chope, samba e cariocas (solteiras) ao mesmo tempo: a Lapa.

A oferta de lugares legais e em que o samba corria animado na Lapa era enorme e não sabíamos onde ir e qual deles escolher, parecíamos paulistas perdidos que acabam de chegar no Rio depois de uma viagem de dez dias. O jeito era bater tudo aquilo a pé e entrar em um deles no “achômetro”, depois de verificar cinco quesitos: 1) número de mulheres, 2) animação do samba, 3) número de mulheres, 4) valor da entrada e do chope (fim de viagem, a grana estava igualmente no fim) e 5) número de mulheres.Caminhando debaixo da chuva, passamos por meia dúzia e enfim entramos em um que eu agora (estou terminando esse capítulo 5 meses depois da viagem, vergonhoso eu sei) não lembro o nome. O que posso garantir é que havia em profusão samba, gente bonita, chope e pegação. Pegamos um chope cada um, ficamos ali olhando o movimento, outro chope, mais outro e nenhuma mulher sequer olhou. Até aí tudo normal, não sou do tipo que as mulheres olham e se interessam, ainda mais estando molhado da chuva como eu estava.  Fui até o banheiro pra dar uma secada em tudo, uma ajeitada no visual e, na volta, resolvi passar no bar e pegar uma cachacinha, para dar uma esquentada, afinal desde pequeno prendemos com nossas mães que não é bom tomar chuva, é preciso tirar a friagem pra não ficar doente. Uma menina examinava a carta de cachaças e fiquei esperando ela terminar para poder escolher a minha. Enquanto esperava, comecei a notar em cada detalhe dela, no nariz pequeno, lábios finos, cabelo preto liso até pouco depois do ombro… quando dei por mim, estava apaixonado. Ela notou que eu olhava para ela e, sem se abalar, pediu minha opinião:

- Indica alguma boa?

Podia ter respondido algo como “nenhuma que se compare a você”, mas não sei sei foi a surpresa dela se dirigir a mim, ou o fato de que a mulher por quem eu acabara de me apaixonar, além de também ter uma voz linda ainda bebia cachaça, o fato é que eu só consegui responder “Nem.” Ela virou para o atendente e pediu uma tal de Seis Luas e eu, me recuperando a tempo, emendei “Manda uma dessa pra mim também“ e sorri para ela, que retribuiu. Vieram as duas pingas, viramos num gole. Caretas à parte,mandei:

- Boa né?

- É.

E pronto, minha conversa tinha acabado. Só que eu não queria deixar ela sair dali. A única que tinha trocado qualquer palavra comigo até aquela hora, não podia deixar escapar. Não ive outra opção a não ser jogar todo o meu charme:

- Mais uma? Qual você já tomou?

Ela fez que ia embora, pensou um pouco, fez um “será?” seguido de um “por que não?” e não resistiu à minha argumentação matadora:

- Dessa vez eu escolho.

Ela aceitou e, devido a outro lapso de memória decorrente dos cinco meses de atraso dessa narração, não lmbro o que eu escolhi. Mas foi aí que começamos a conversar, nome daqui, nome dali, feliz ano novo, pra você também, blá blá blá. Mais uma cachaça, e outra, e outra, descobri que era mineira e uma das últimas coisas que eu me lembro foi a de pensar, ao beijá-la ali mesmo no balcão do bar: “No fim das contas, nessa  viagem conheci uma mineira.” Depois disso não lembro de nada, não sei muito bem o que aconteceu, como ela foi embora, ou como eu paguei a conta e fui embora e nem o que os outros três fizeram ou onde estavam. Só acordei no sofá do apartamento no dia seguinte com o Fábio me chamando.

- Acorda. Vambora pra São Paulo.

Olhei pela janela. Chovia, pra variar. Pela luminosidade, já era bem perto do meio dia. Me lavei, arrumamos tudo e ainda me lembrei de levar uma garrafa de 1,5l de água na viagem. Levamos quase o dia inteiro para chegar a São Paulo. E a chuva não parou um minuto.

Fim


A acompanhante inesperada – parte 18

31/maio, 2011

Parte 18 – Rio para não chorar

Sábado, 1 de janeiro. O primeiro dia de 2011 começou, claro, chovendo. Começou é modo de dizer, porque apesar de ter passado a virada de ano em claro, sempre temos a impressão que é um novo dia só depois que dormimos e acordamos. E tivemos que acordar antes do meio dia, para ir embora ser ter que pagar outra diária naquele muquifinho que achamos em Piúma. Aquela pousada era aliás o retrato da nossa virada: decepcionante, muito aquém do que esperávamos, com um mundaréu de gente feia e pouco acessível no quesito “borá comemorar o ano novo no rala e rola”. Suei para arrumar uma menina bem mais ou menos (“mais ou menos” é um eufemismo gritante para “horrenda”), Fábio também, Luciano e Thiago nem isso. No carro, saindo do Espírito Santo, ninguém disse nada, mas tenho a certeza de que era exatamente o que todo mundo pensava. Mas ainda tinha o Rio de Janeiro, última parada da viagem, última chance de a gente se dar bem: certeza que um abraço apertado de uma carioca falando sacanagem na orelha com aquele sotaque que você não sabe se ama ou odeia nos faria esquecer Piúma.

Chegamos ao Rio pouco antes do fim da tarde, a chuva continuava, fomos procurar onde ficar. Conhecia alguns albergues que eu tinha ficado nas minhas visitas prévias à Cidade Maravilhosa, e fomos atrás deles. O primeiro, lotado. O segundo, idem. No terceiro eu já nem esperava achar vaga. Óbvio que, por ser ano novo, férias e coisa e tal, não encontraríamos 4 camas nem a pau. Em outros tempos, poderia manter o otimismo e contar com a sorte, mas sorte não era muito algo que estava nos acompanhando naquela viagem. A atendente do terceiro albergue disse que conhecia um hotel que talvez tivesse vaga, mas como era final de viagem, o orçamento estava pra lá de estourado e nada um pouco melhor do que rede em barraco de favela estava a altura das nossas capacidades financeiras. Bateu uma preocupação, a única saída possível seria pular a parada no Rio e rumar direto para São Paulo, com a tristeza de não conseguir pegar uma noite sequer de samba na Lapa.

Mas pensando no samba da Lapa e nas sacanagens com sotaque carioca ao pé do ouvido, eu não ia desistir fácil. Dormir no carro, pelo desconforto e principalmente pelo cheiro de cachorro molhado e mofo não era uma opção. Amigos cariocas? Os que eu conhecia tinham se pinchado do Rio, era a mesma coisa eu passar o ano novo em São Paulo, algo absolutamente improvável. Mas e amigas cariocas que moram e trabalham em São Paulo? Lembrei de um vizinho que namorava uma carioca, se eu não me engano ele havia comentado que passaria a virada no Rio! Toca ligar para São Paulo, achar o telefone dele, ligar e torcer para ele atender. E ele atendeu! E ele estava no Rio! Obrigado sorte, desculpe ter falado mal de você agora há pouco, eu pensava com meus botões enquanto explicava para ele nossa situação e dava ênfase em “só um banho e qualquer lugar para dormir, ou vamos ter que voltar para São Paulo direto”.Companheiro de outros carnavais (e anos novos e viagens afins) sabia que não me deixaria na mão e me deu o endereço. Tomamos banho e bebemos umas cervejas enquaqnto ouvíamos as histórias de como o ano novo tinha sido ótimo e cheio de mulheres lindas e simpáticas e alegres e receptivas a abraços e beijos de feliz ano novo. Diametralmente oposto ao nosso, portanto. Mas não havia de ser nada, a noite no Rio agora abria-se para nós, sorrindo e cheia de possibilidades.

(continua)


A acompanhante inesperada (ou “O Ano Novo de 2011”) – Parte 17

24/maio, 2011

Parte 17 – Otimismo de ano novo

Não vou dizer que quando acordei, algo depois das seis da tarde, eu já estava completamente recuperado da ressaca que havia me flagelado desde Guarapari. Bom, bom, de verdade, não tava não. Mas sabe como é, dia 31, virada de ano, aquela hora onde todo mundo fica mais feliz e otimista, o momento onde você mais abraça gente (e por gente, entenda-se mulheres. Pra que vou dar feliz ano novo pra homem desconhecido?), um clima tão grande de oba oba, de farra desmedida e festa sem hora pra acabar, que eu sempre me pergunto como é que vou me deixar vencer por uma ressaca? De jeito nenhum, essa é a hora que separa os homens dos meninos, os fortes dos fracos, os que levam a vida dos que são levados por ela. Implorei para meus outros três companheiros de aventuras para ser o último a tomar banho e aproveitei cada segundo desse tempinho extra para conversar sério com meu estômago, com minha cabeça e com meu fígado e convencê-los, um a um, de que estava tudo bem, eles não estavam doendo nem tinham trabalhado acima da capacidade e sofrido o diabo na noite anterior. Tive que usar todo meu poder de retórica e mesmo assim não ficaram lá muito confiantes. Claro que eu sabia que o pior ainda estava por vir, mas não precisava dizer né, e dado meu modo de vida pregresso eles provavelmente também sabiam. Enfim chegou minha vez, tomei banho e parece que a “Conversa com meus órgãos internos” (preciso lembrar de patentear algum curso de autoajuda com esse nome) deu certo, pois não houve qualquer indício de recaída para abraçar o vaso.

Antes de mais nada precisávamos comer algo, a experiência diz que beber a quantidade insana de álcool que estávamos acostumados sem sequer forrar o estômago era pedir pra virar o ano dormindo na areia. Pesquisamos preço, limpeza e variedade do cardápio em alguns lugares e acabamos por decidir por um que não prezava por nada disso, mas tinha uma atendente que era linda de morrer, uma moreninha de olhos verdes com cara de quem tinha acabado de ultrapassar seus vintes anos. Não bastasse isso, ela estava de shortinho branco, top e umbigo de fora com piercing, combinação que é o Super Trunfo da moda praia. Não preciso nem dizer que a janta virou um “qualquer coisa boa que você indique aí pra gente serve” e acabou se tornando mesmo uma ode ao álcool, com cerveja, caipirinha, vodca e whisky com energético e tudo o mais que ela oferecia do bar. Eu simplesmente não conseguia dizer não àquele sorriso e, principalmente, àquele umbigo desfilando na minha frente cada vez que ela vinha nos servir algo. Dou graças aos céus o fato de não estar passando ali um padre, caso contrário casaria no ato e passaria meus dias feliz, ao lado dela, curtindo tudo o que Piúma poderia oferecer. Mas era noite de reveillón, não dava pra se apaixonar, havia muito trabalho a ser feito, muito feliz ano novo sorrindo a ser desejado, muito abraço festejando a união dos povos a ser dado, muito beijo pra garantir boa sorte em 2011 a ser oferecido. Só me certifiquei de que o bar fecharia e ela estaria mais tarde pela rua, se o ano fosse bom mesmo eu a encontraria bêbada e fácil e sozinha e me querendo loucamente lá pelas 4 da manhã. Até lá, todas as outras mulheres ali presentes mereciam um pouco da minha atenção.

Todo o otimismo por uma noite inesquecível e cheia de aventuras amorosas e histórias pra contar se acentuou com o fato da chuva, personagem constante na nossa viagem, não ter dado as caras, e o clima não poderia ser melhor. Os dois trios elétricos que estavam estacionados na rua da praia começaram a tocar, e as bandas começaram a agitar a multidão, que chegava sem parar e enchia a areia, as calçadas, a rua. E multidão significava, obviamente, muita mulher. A noite prometia. E essa promessa foi exatamente isso: uma promessa. Não demorou muito para notarmos, não importava quanto álcool tínhamos bebido, a quantidade de gente feia, ambos os sexos, que tinha ali. Tínhamos a nítida sensação de estarmos bem no meio da figuração de Thriller, do Michael Jackson, com seres das profundezas por todos os lados.  Se bem que encarar mulher feia nunca foi necessariamente um problema, mas todo mundo há de concordar que é meio desesperador estar em um lugar onde só tem gente horrenda, em que pegar mulher feia não é uma opção exclusivamente sua, é a única opção. Aqueles filhos da puta que encontramos em Vitória e que indicaram Piúma deviam estar naquela hora rindo da nossa cara. Onde eu estava com a cabeça quando não fiquei por Guarapari mesmo, onde eu já tinha visto que mulher bonita era o que não faltava? Não, eu tinha que conhecer Piúma! É mais ou menos o que acontece quando eu vejo num cardápio algum prato que eu não conheço: eu preciso pedir para experimentar, ao invés de pedir aquilo que eu já comi e sei que gostei. Claro que, via de regra, eu me fodo. Bom, não adiantava reclamar, já estávamos ali, o jeito era lembrar dos ensinamentos das antigas escrituras: “mulher é conseqüência de cachaça bem tomada”. O problema é que eu não estava ébrio o suficiente pra atacar tudo o que se movia, e as poucas que eu arriscava chegar perto fugiam assustadas. Putaqueopariu, tá certo que não sou assim tão bonito nem nada, mas mulher feia fugindo de mim, horrorizada, era o fim. Não sei se servia de consolo ou não, mas não era só de mim que elas fugiam. Luciano, Thiago e Fábio, meus polivalentes paladinos de peregrinação, também padeciam do mesmo mal.

Chegou a hora da virada, meia noite, fogos, alegria, abraços e… nada. Nenhum mísero beijinho de sorte do ano novo, nada. Malemá conseguíamos conversar com qualquer mulher. Cara, como era possível isso? Gente feia, horrorosa mesmo, não dava a menor atenção! Isso era demais para a nossa autoestima, era algo que eu não podia aceitar. Tive que recorrer às minhas armas secretas, aquilo que ia me deixar bêbado o suficiente para não ligar de tomar “não” de horrorosa e continuar tentando: as duas garrafinhas de vodca que estavam na minha mala, esperando para serem tomadas.

Corri para a pousada que estávamos, peguei as duas e voltei para a rua da praia o mais rápido que consegui. Virei-as num só gole, uma após a outra, e imediatamente me lembrei dos Ursinhos Gummy, que bebiam seu suco de frutas e ficavam todos ágeis e serelepes.  Psicologicamente, essa imagem de ursinhos Gummy funcionou às mil maravilhas e eu fiquei exatamente assim, pulando pra todo lado, mexendo com todo mundo. Depois de inúmeros “oi” meus e inúmeros “tchau” delas, enfim eu consegui convencer uma negrinha feia que doía que um beijo meu na virada dava sorte no ano que ia se iniciar. Era feia pra dedéu, mas e daí?, me agarrava  com força a três argumentos: a) depois de tantas tentativas frustradas enfim eu tinha conseguido sair do zero; b) puxando pela memória, teve um ano novo em Caldas Novas que eu fiz exatamente isso, do primeiro beijo do ano ser numa horrorosa e, em piedade, o Senhor me recompensou com a menina mais bonita da excursão (na crônica Curtas de Caldas) e c) quando nada, quando nada, tirava a uruca. Tava no inferno, abracei o capeta e, pior, passei a noite inteira com o capeta. Afinal, era uma mulata feia mas gostosa, e não bastava só beijar, eu tinha que tentar levar para a pousada. E aí conversa vai, conversa vem, foi um tal de “vamo vai?”, “não”, “Deixa vai”, “Não”  a noite inteira. O pior é que o efeito das vodcas mágicas foi passando na mesma proporção em que o dia foi clareando. O combo “mais luz menos álcool” me fez ver o quão feia era a menina, e um choque de realidade desses era mais do que qualquer ser vivo é capaz de aguentar. Eu sabia que era feia, mas nem tanto. Imediatamente me despedi e voltei para a pousada, rezando para dormir e não sonhar com ela.

(continua)


A acompanhante inesperada (ou “O Ano Novo de 2011”) – Parte 16

24/maio, 2011

Parte 16 – Últimos reflexos de 2010

Acordar de ressaca eu já estou acostumado. Por si só é ruim e serve como justa punição pelo excesso ou pela qualidade duvidosa da bebida que você consumiu na noite anterior (em alguns casos, pelas duas coisas). Mas nunca imaginei que poderia ser pior ainda até eu acordar de manhã depois da micareta em Guarapari. Além da dor de cabeça lancinante usual e da vontade absurda de beber água, junte-se o fato de que eu dormi pouco, molhado, dentro de um carro, com mais três pessoas tão (ou mais) “fortes” do que eu. O carro, inclusive, não bastasse cheirar a cachorro molhado devido aos dias de chuva ininterruptos, agora estava completamente tomado de lama. Um dos quatro bêbados, ou os quatro, voltando do lamaçal que se tornou o lugar do show, fez daquilas coisas inexplicáveis que só os bêbados conseguem e tinha barro até no teto. Mas, mesmo com isso tudo, quem estava ligando? Apesar das lembranças da micareta serem basicamente flashes e teleportes, o fato é que enfim tínhamos conhecido mulher. E, amigo, beijar na boca é bom e faz uma falta danada, vô te contar. Então mesmo com a torcida do Flamengo comemorando campeonato dentro da minha cabeça, meu humor estava lá nas alturas. E só assim para nem ligar para o fato de que  luzinha do teto do carro passou a madrugada toda acesa e, adivinha?, a bateria arriou. Sorte que pertinho dali ainda tinha uma kombi estacionada, cujo motorista foi bom o suficiente para vir, parar na frente do carro e fazer uma chupeta. E não aceitou qualquer tipo de pagamento: “Hoje vocês precisam. Algum dia, encontrarão alguém que precisará. Só peço que devolvam o favor.” Uma atitude nobre, que faria muito mais efeito se a bateria da mocidade alegre não estivesse fazendo ensaio na minha cabeça. Voltamos para o hotel, todo mundo tomou um banho rápido e caímos na estrada. Ressacados ou não, era dia 31 e ainda tínhamos o ano novo pela frente.

Pouco mais de duas horas depois de sair de Guarapari, chegamos a Piúma, um balneário na divisa do Espírito Santo com o Rio de Janeiro. Mau sinal, de cara percebemos que dava pra comparar à Praia Grande no quesito “beleza da praia e da população local”, com a diferença que para ir pra Praia Grande bastava umas horinhas de trânsito na Imigrantes, e não atravessar dois estados. Mas a cidade havia sido muito bem recomendada por diversos frquentadores da Rua da Lama, e todos eles não podiam estar errados, o que era um bom sinal. Outro bom sinal foi o trânsito absurdo (!) que pegamos para entrar na cidade. Um fluxo desse de pessoas prenunciava um número grande de pessoas na praia logo mais, o que era sempre etimulante. Mau sinal foi o retorno da minha ressaca, com tudo, mesmo eu tendo tomado um comprimido para a dor de cabeça e café da manhã pra forrar o estômago, sem aviso apareceu um enjoo e ânsia de vômito que me lembraram que eu estava velho demais pra beber tanto. As ruas de terra eram repletas de pequenos buracos, o que não ajudava nada no meu enjoo, e passei momentos terríveis dentro do carro, salivando e doido para botar tudo para fora, até acharmos uma pousada (que de pousada só tinha o nome na placa) para ficar. Foi de longe um dos lugares mais “caverna do batman style” que eu já dormi. Mas tinha um banheiro e isso foi mais que suficiente para que eu saísse correndo, me abraçasse À privada e passasse um bom par de horas chamando o Hugo e encarando meu reflexo fazendo caretas na água. No quarto estavam todos cansados demais pra ligar para minha condição crítica e dormiram rapidinho. Quando eu não tinha nada mais para botar pra fora, me juntei a eles. 2010 ainda tinha horas suficientes para dormirmos, acordarmos e esperarmos por 2011.

(continua)


A acompanhante inesperada (ou “O Ano Novo de 2011”) – Parte 15

24/maio, 2011

Parte 15 – Lembranças da micareta

Tão logo entrei na micareta, fui buscar cerveja e me perdi de todo mundo. Asa de Águia começava a tocar sua primeira música.

Tempo indeterminado

Estou assistindo o show de Maria Cecília e Rodolfo abraçado a uma desconhecida e estamos encostados numa grade. Aviso que preciso ir ao banheiro e que volto em seguida. Ao largar dela, percebo que todos os demais estão com abadá preto e só eu com abadá azul claro.  Tão logo eu percebo isso, um dois seguranças também percebem, me erguem pelos ombros e me colocam para fora da área vip. Vou ao banheiro e depois, em busca de mais cerveja.

Tempo indeterminado

Estou na parte de fora do carro, batendo no vidro e pedindo para entar, pois a chuva apertou. Entro no carro e fico sabendo que vamos dormir ali porque a bateria arriou.  Apago quase  que imediatamente.

(continua)


A acompanhante inesperada (ou “O Ano Novo de 2011”) – Parte 14

2/maio, 2011

Parte 14 – Enfim, mulheres na história

Apesar de dormir apenas umas cinco horas, acordamos cedo para chegar o mais rápido possível a Guarapari. Apesar de ter inúmeras praias bem bonitas para se visitar, concordamos que dessa vez não iríamos conhecer nenhuma delas, sinto muito, fica paa uma próxima. Nosso périplo de ano novo já tinha deixado há tempos de ser uma viagem meramente turística, com visitação às belezas naturais, artísticas e arquitetônicas, para nos transformar-se em uma caça sem tréguas tão e unicamente às belezas femininas.E a coisa não estava boa pro nosso lado, com todos os quatro zerados até então. Mas esse quadro estava prestes a mudar pois tínhamos uma chance de ouro, um mezzo show mezzo micareta com Asa de Águia e Maria Cecília e Rodolfo. Preferências musicais à parte, éramos obrigados a concordar que o volume esperado de mulheres no evento desses tornava imperativa a nossa presença.

Com a chuva como presença constante desde o início da viagem, foi uma agradável surpresa ver que o dia amanheceu com sol, o que só serviu para dar um ânimo extra. Ouvindo uma coletânea de sambas enredo, que era o que mais próximo tínhamos de axé, rapidinho chegamos na cidade. E aí, o que fazer? Procurar onde ficar ou procurar ingressos para o show? Por ordem de importância, claro que era o ingresso. Mas convenhamos que não era nenhum show do Paul MacCartney, então não havia motivo para muito pânico. Então fomos procurar um cafofo qualquer para chamar de nosso e, seguindo o método já experimentado e consagrado nas outras cidades, paramos num boteco. Ratificando a infabilidade do método, antes da terceira cerveja já tínhamos um endereço com indicação de onde ficar. O único risco desse método era que às vezes a indicação não é lá das melhores. Foi o caso. Fomos parar num prédio no centro da cidade, que outrora foi uma pensão, agora transformada em pousada de baixo custo, o típico cenário de filmes de terror da década de 80 que costumavam passar no Super Cine, com corredores longos e mal iluminados. Mas isso era o de menos, se conseguíssemos o ingresso pro show que era garantia de altíssima concentração de mulheres, poderíamos encarar numa boa qualquer serial killer que pudesse aparecer no fim da noite, quando voltaríamos para dormir.

Uma passada rápida no supermercado e, um cooler cheio de cervejas, uma garrafa de pinga e um pote de mel depois, estávamos na frente do Parque Aquático onde aconteceria o show. Constatamos que, como eu havia previsto, não seria nada difícil comprar os ingressos, era só esperar a bilheteria abrir. Com isso, tivemos tempo e sobra para voltar para a cidade e comer algo. Nada melhor do que retomar o espírito de desbravar a culinária local, tão enfatica e glutonicamente exercido na nossa primeira parada em Minas. A escolha ago ra, no Espírito Santo, não poderia ser outra que não a moqueca capixaba. É uma questão de gosto, alguns preferem a baiana e dizem que a capixaba tem muito coentro, mas pra mim estava ótima e na dúvida, entre baiana e capixaba, eu fico com as duas.

Gula satiseita, passamos um bom tempo praticando o nadismo, para satisfazer também à preguiça (cá entre nós, dois dos três mais nobres pecados capitais). Era pouco ais de cinco da tarde, de um show previsto pra começar 8 da noite, quando voltamos para a frente do Parque Aquático. Naquela hora, só nós e os ambulantes com cerveja estavam ali por perto. Correção: nós, os ambulantes com cerveja e uma dupla de meninas, que estavam paradas bem junto à bilheteria. Quando fomos comprar nossos ingressos, descobrimos que eles ganharam várias cortesias e tinham algumas ali pra vender, e perguntaram se não queríamso comprar delas. É difícil eu falar “não” a um para aquele par de olhos castanhos daquele rostinho de anjo que me oferecia as entradas. E, além do mais, não era nenhum show do Paul MacCartney para ter ingreso falsificado, acabei comprando.

- Mas, só por garantia, vocês vão entrar com a gente, né? – me certifiquei, antes de entregar o dinheiro a elas. Eu sou assim, duro, impiedoso, insensível. Não é só porque ela tinha lindos olhos castanhos e uma carinha de anjo que eu me deixaria levar pelo impulso. Ela assentiu e, para ajudar o tempo passar, convidamos as duas para ficar tomando cerveja conosco do lado do nosso carro (bendito seja o cooler). Vendo em sua frente tão belos e simpáticos garotos, é óbvio que elas aceitaram. E foi aí que a magia de uma micareta mostrou o seu valor. O tempo ia passando, o pessoal ia chaegando e nós ali, bate papo, cerveja, piadas, pinga com mel, gracejos, mais cervejas, uando me dei conta já tinha escurecido e eu estava encostado na parte traseira do carro, beijando a minha anja dos olhos castanhos. E isso porque o show nwm tinha começado, não tinhamos sequer entrado no Parque Aquático ainda. Obrigado, Guarapari. Obrigado Assa de Águia e Maria Cecília & Rodolfo: lhes serei eternamente grato por beijar a minha primeira caprichada.

Descobrimos que as cortesias que minha angelical carpichada de olhos castanhos tinha em mãos precisava ser trocada pelo abadá no guichê, e lá fomos nós fazer a troca. Uma fila imensa de pessoas que aguardavam para pegar seu abadá andava a passos de tartaruga quando um desconhecido me chama:

- Posso entrar com você nessa fila? Preciso pegar o abadá pra todo mundo da turma e eu, como único homem, fui escalado pra fazer isso. E essa fila tá foda.

Nessa hora, mesmo tendo uma caprichada angelical de olhos castanhos para chamar de sua, é impossível não prestar atenção a certas palavras, como  “turma” e “único homem”. Na hora fiz um teatrinho de “Nossa, você! Quanto tempo hein?” e prontamente trouxe para junto de nós na fila. Na conversa que se seguiu ele confirmou que estava com um grupo de seis amigas e só ele de homem. O fiz prometer que, em retribuição à minha gratidão na fila, ele levaria todo o comboio de mulheres para beber uma cerveja lá no nosso carro. Fizemos a troca, saímos da muvuca e eu apontei para ele a direção do carro. Ele se despediu agradecendo e prometendo que apareceria para tomar a cerveja.

Tão logo estávamos todos com abadás na mão, garantia de que entraríamos, minha caprichada angelical de olhos castanhos sugeriu que entrássemos. Como havia ainda uma parte do cooler de cerveja a ser terminada, com lágrimas nos olhos eu dise que ainda não podia, nos despedimos e eu voltei para o carro. Qual não foi minha surpresa ao chegar lá e constatar que nosso arsenal etílico, além da pinga com mel e das cervejas, tinha sido reforçado por uma garrafa de Red Label e alguns energéticos. Radiante, Thiago eplicou que trombou com um ambulante que ofereceu a garrafa e mais quatro energéticos por cinquenta reais. Nem entrei no mérito de que só a garrafa original custava mais que isso. Era promoção de ocasião e tpinhamos que aproveitar. Mais espantoso ainda do que uma garrafa supostamente original de Red Label e quatro energéticos a cinquenta reais foi o súbito aparecimento do meu amigo desconhecido da fila. Cumprindo a sua promessa, ele chegou com toda a sua trupe de amigas, que foram recebidas calorosamente por nós, cervejas, pinga com mel e whisky. Claro que não precisou de muito tempo e papo para todo mundo estar enroscado  com uma e, o fato de ter beijado duas antes sequer de entrar para o show, me deixava especialmente animado para o que poderia acontecer no restante da noite. Só resolvemos entrar quando acabou toda a bebida lá fora.

(continua)


A acompanhante inesperada (ou “O Ano Novo de 2011”) – Parte 13

26/abril, 2011

Parte 13 – E quem não ama a lama?

Fazia exatamente três dias, dezesseis horas e oito minutos que tinha saído com Luciano, Thiago e Fábio de São Paulo para uma viagem pé na estrada, pingando de cidade em cidade pelos estados da Região Sudeste, durante o exíguo período que posso chamar de férias conseguido entre o Natal e o Ano Novo. Passamos por São João Del Rei, Tiradentes, Ouro Preto e Cachoeiro do Itapemirim e, só em Vitória é que eu estava frente a frente com uma menina, naquele momento em que você sente que”já ganhou”, que a princesa está convencida a beijar o sapo e vocês dois serão felizes para sempre (pelo menos até o dia seguinte). Três dias, dezesseis horas e nove minutos e eu sorrio por dentro. Já não era sem tempo.

Mas estou me adiantando. Voltemos a narrativa um pouco, mais precisamente centro e trinta e um minutos, quando chegamos à Rua da Lama. A Rua da Lama na verdade não chama Rua da Lama, tampouco tem lama, é um apelido carinhoso do pessoal que frequenta seus inúmeros barzinhos. Diferentemente do Tirângulo das Bermudas,onde os bares são “botecos chiques” mais arrumadinhos, na Rua da Lama, com certeza devido à proximidade com a Universidade Federal do Espírito Santo, a coisa é mais despojada, mesas de plástico na calçada, copos americanos de limpeza meio duvidosa, alguém com um violão emendando um forró num funk e depois num samba e uma balbúrdia generalizada de pessoas andando pra lá e pra cá, pessoas dançando, pessoas se beijando e garçons fazendo malabarismos para atnder todo mundo. Em resumo, no Triângulo das Bermudas você leva a menina no primeiro encontro pra impressionar. Na Rua da Lama você a leva todos os outros que acontecerem, pra deixar claro que aquilo ali é a sua realidade, é nesse ambiente que você se sente em casa. Se gostou, ótimo, se não gostou, que pena, foi bom enquanto durou.

Apesar da maioria dos bares estarem fechados, era período de férias na universidade, alguns poucos estavam firmes e fortes de portas abertas, e com uma ótima quantidade de pessoas bebendo e conversando e cantando e dançando e beijando. Dois tocavam música ao vivo: um, rock clássico, daqueles sempre bons de se ouvir, mas que infelizmente não foi páreo para o outro, que mandava ver num sambão e onde o pessoal estava mais animado. Claro que era também o bar mais cheio e disputado, o que tornava a busca por uma messa uma tarefa árdua, porém obrigatória: eles não serviam pessoas que não estivessem numa mesa. Fomos cada um para um lado e roda e procura e conversa com garçom, e pede licença aqui, “vocês estão usando essa mesa?”, e conversa com outro garçom, e teima e lima e sofre e sua, enfim uma menina se dispôs a doar uma das mesas de plástico que o grupo dela estava usando. “Fica com essa mesa aqui do lado ó, que a gente se acomoda nessas duas outras. Tá todo mundo de pé e dançando mesmo, não vai ser problema.” Claro que teve gente no gupo dela que tentou reclamar, mas eu já agradecia efusivamente enquanto puxava a mesa um pouquinho de lado e sentava numa cadeira, oficializando a posse. Chamei todo mundo, nos acomodamos e as cervejas começaram a vir em profusão. Era hora de começar a atirar para todo lado. Eu me concentrei no óbvio: a menina que tinha me oferecido a mesa. A Etapa 1 do Manual de como se Aproximar de Mulheres Desonhecidas em Botecos Desconhecidos exige observação. Eu precisava ter certeza de que ela não estava acompanhada, para não arrumar confusão à toa. Nesse sentido, em alguns minutos já tinha minha resposta. Um dos caras que estava no grupo abordava-a insistentemente, tentando conseguir um beijo.Para minha satisfação, em aproximadamente dez minutos ele tomou uma meia dúzia de nãos e chega pra lá. Beleza, se ele pode, por que não eu? Na primeira oportunidade que o insistente pretendente saiu de perto, cheguei como quem não quer nada, com uma cerveja cheia em agradecimento à boa vontade de ceder uma mesa. É uma verdade universalmente aceita que pagar cerveja é uma excelente forma de comprar a simpatia de um grupo que está num boteco, e rapidinho fiz amizade com todo mundo. Para meu júbilo e regozijo, inclusive a menina se mostrou simpática e receptiva e o bate-papo engatou que foi uma beleza, a ponto de sentarmos só nós dois na mesa, deixando todo o resto do grupo para lá, de tão boa que estava nossa conversa. E foi aí,  exatamente três dias, dezesseis horas e nove minutos depois de iniciada a viagem, que eu tive certeza que a maré ia virar e eu ia me dar bem, mulheiristicamente falando.

Acontece que a vida é uma caixinha de surpresas, e de Don Juan eu rapidamente me senti o próprio Joseph Klimber, a quem o destino não cansa de pregar peças. Tinha esquecido completamente do pretendente insistente, mas ele é claro não tinha esquecido dela, muito menos desistido. Ao ver que poderia perder o objeto de sua afeição para um turista gordinho qualquer, e já com uma taxa de álcool bem elevada no sangue, ensaiou arrumar uma confusão. Uma parte da turma chegou no deixa disso e a menina, constrangida, pediu desculpa e disse que era melhor levá-lo para casa, ele tinha vindo com ela, era responsabilidade dela, etc etc etc. Antes de sumir na noite com o pretendente insistente, me deu o msn e prometeu que tentaria voltar ao bar. Não voltou, claro, quem voltou foi a chuva, e o msn foi o máximo que consegui no final das contas. Meu humor só não ficou péssimo por dois motivos: Thiago e Luciano, conversando com sei lá quem no meio do povo descobriram que a) no dia seguinte haveria uma micareta com Asa de Águia em Guarapari e b) mais de um cara havia garantido, afimado e jurado que o ano novo na cidade de Piúma, na divisa do Espírito Santo com o Rio de Janeiro, era uma farra desmedida, com trios elétricos na ruae muita pegação no estilo “vamos beijar e comemorar o novo ano”. Com isso, já tínhamos destino para os próximos dias e voltamos para o hotel para dormir.

(continua)


A acompanhante inesperada (ou “O Ano Novo de 2011”) – Parte 12

23/abril, 2011

Parte 12 – Noite de Vitória

“Podia ser pior. Você poderia estar pegando seus móveis na enchente” é uma frase recorrente minha, sempre que alguém vem se lamuriar sobre como trabalha demais, como está sem dinheiro, como o relacionamento não vai bem, ou qualquer uma dessas mazelas do nosso dia a dia. É, creio, um jeito mais simpático de eu dizer pra pessoa parar de reclamar de coisa besta e que, na boa?, tô que nem rádio velho, meu amigo, tô nem ligando. E foi exatamente isso que eu disse quando alguém no quarto reclamou da chuva que caía insistentemente lá fora. Dessa vez, entretanto, era a mais pura verdade. Estávamos os quatro deitados na cama (cada um na sua, que fique bem explicado) do hotel no centro da cidade de Vitória vendo o Jornal Nacional que mostrava diversas cidades do Espírito Santo debaixo d´água, com gente pegando seus móveis na enchente. Fiz esse comentário não em tom de gozação dos pobres coitados que tinham perdido tudo, mas para falar “Ei, pessoal, não é só porque estamos viajando há quatro dias e não pegamos ninguém, e Vitória que era nossa esperança está debaixo dessa chuva torrencial o dia inteiro que nós vamos ficar com essa cara de merda, né? “ Não adiantou muito, só me responderam algo com “tifudê” entre os dentes e continuaram com caras de merda. Voltei, resignado, a ver a tevê. Só virei o jogo algum tempo depois quando, preparando uma pinga com mel para mim (com eles de mau humor corria o risco de não sairmos, então comecei a cogitar a hipótese de descer pro forró no bar  perto do hotel e precisava me alcoolizar pra encarar tal hipótese), notei que a chuva tinha diminuido. “Pessoal, a chuva tá que nem vocês, quase parando!” Dessa vez ninguém me xingou, foi um surto de alegria quando foram pra janela e constataram que realmente quase não chovia mais. Minha dose de pinga com mel virou quatro doses, que viraram oito, pra comemorar e aquecer pra noite. Corremos nós quatro e tomamos banho (sozinhos, um de cada vez, que fique bem claro) e em minutos estávamos prontos, lindos e perfumados para conhecer “caprichadas”. (Nota: é com o sentido de reafirmar a beleza das capixabas, e jamais desrespeitar, que a partir de agora  só irei me referir a elas como caprichadas).

Todos de banho tomado, partimos para a noite. No boteco porcão próximo ao hotel o forró rolava solto, animado, num estilo “gente suada e clima de Itaquera”. Se tudo na noite desse errado, já tínhamos onde apelar. Pegamos o carro (que em claro contraste com nossa aura perfumada pós-banho cheirava a cachorro molhado, resultado da chuvarada incessante dosúltimos dias) e fomos direto para o “Triângulo das Bermudas”. Era ali que estavam os principais bares e as melhores casas noturnas na cidade. Mas antes de chegar até lá, uma pausa estratégica para reabastecer nosso cooler com cervejas: a ideia era ficar parado um tempo em algum lugar ali do Triângulo das Bermudas, vendo o movimento e o trânsito de pessoas para ter certeza de que a) estávamos no lugar certo, onde as pessoas eram bonitas e b) escolheríamos o lugar mais cheio para entrar, entre tantas opções. Claro que foi só parar num posto BR e encher o cooler de cerveja e gelo, a chuva tornou a cair, inclemente, acabando com nossos planos de ficar na rua olhando o movimento. Já que a cerveja estava ali e estava gelada, resolvemos tomar algumas no posto mesmo, esperando a chuva voltar a ceder. E ali, naquele posto, quase começamos a noite com o pé direito. Quase. Luciano estava de frente para nós três, e de costas para o posto, quando reclamou:

- Porra, era só o que faltava, chover a noite inteira. Não estamos com sorte mesmo. Bem que podia aparecer, agora, aqui nesse posto, no meio da chuva, uma mulher, bonita claro, do nada e vir conversar com a gente, né?

Ele não entendeu a nossa cara de espanto e incredulidade quando, no exato mmento em que ele dizia “Bem que podia aparecer, agora, aqui nesse posto, no meio da chuva, aparecer uma mulher, bonita claro, do nada e vir conversar com a gente, né?” e em perfeita sincronia com as suas palavras, apareceu, naquela hora exata, naquele posto, no meio da chuva, um carro, de onde saiu uma mulher bonita, e veio andando em nossa direção. Podem dizer o que quiserem, mas pra mim esse tipo de acntecimento prova não só que Deus existe, mas como Ele também tem um timming sensacional. Luciano fez uma cara  de “Que?” que eu só pude responder com “Olha pra trás”. Quando se virou, entendeu. Ela estava  vindo sorrindo em nossa direção. Não andava, desfilava em câmera lenta, e apesar de não estar ventando, posso jurar que seus cabelos balançavam para trás, também em câmera lenta, tal qual num comercial de shampoo. Pude ouvir até uma música de fundo, daquelas em que o impossível acontece.

-Não acredito… – Luciano soltou, embasbacado. E foi essa falta de fé, creio, que acabou com tudo. O disco riscou e a música parou abruptamente, e a velocidade do andar dela voltou ao normal e os cabelospararam de chacoalhar ao vento e toda a magia do momento esvaiu-se. O namorado dela saiu do carro logo em seguida, chamou por ela, abraçou-a e passou por nós para entrar na loja de conveniência. Nos olhamos com cara de “Putz, era bom demais pra ser verdade”. Quando os dois saíram da loja, perguntamos pela enésima vez onde era bom para sair em Vitória e o csal respondeu “Triângulo das Bermudas. Nós estamos indo para lá, inclusive. Se quiserem, podem seguir a gente.” E foi o que fizemos, para chegar sem erro ao local.

Chegamos, paramos os carros e o namorado, muito gente boa, falou “São essas três ruas aqui. Os melhores bares pra conhecer gente bonita são esse, esse e esse” – e, baixando um pouco o tom de voz “mas, se vocês querem pegar mulher mais facilmente, eu indico a Rua da Lama. Aqui vocês vão ter que ficar de conversa a noite inteira e ter um bom xaveco. Lá coisa é mais pá pum”. Conselho anotado, agradecemos, mas já que estávamos ali, por que não conhecer, não é mesmo? Paramos num bar chamado Quintalzinho, com uma grande área aberta para a calçada e que estava deveras cheio e animado. Uma boa surpresa foi a parede no alto, forrada de garrafas, de repente se abrir e aparecer um grupo tocando uma mpb bacana.

Para melhorar ainda mais o panorama, nossa garçonete era linda, simpáticíssima e sorridente e, depois de dois ou três pedidos já conversava como se fôssemos velhos amigos. Ou seja, tinha tudo que eu precisava para me encantar, então me encantei.

Parecia tudo perfeito, chopp garotinho a um real, as mesas cheias de gente bonita, clima de paquera e uma garçonete solícita. Entretanto, tínha um problema sério, uma bendita frase não saía da cabeça “na Rua da Lama a coisa é mais pá pum”. Poxa, o nome do lugar era por si só atrativo, e o conselho do cara ratificava a impressão de que lá seria mais farra. Mesmo que no Quintalzinho as oisas fossem prmissoras, eu não ia ficar plenamente satisfeito e sossegado se perdesse a chance de conhecer a Rua da Lama. Me certifiquei de que qualquer coisa que eu pudesse ter de esperança com a garçonete linda só aconteceria quando o bar fechasse e ela saísse, o que pelo movimento ia demorar bastante e, para não dizer que não falei das flores e ter um plano B caso tudo o mais desse errado, ao me despedir peguei o msn dela e falei que voltaria para vê-la. Podia ser a maior burrice do mundo, trocar o quase certo pelo duvidoso, mas é daquelas coisas inexplicáveis que eu tinha que fazer, aquela força que te puxa. E, mesmo com chuva, fomos para a Rua da Lama.


A acompanhante inesperada (ou “O Ano Novo de 2011”) – Parte 11

5/abril, 2011

Parte 11 – Dia de Vitória

29 de dezembro, quarto dia de viagem. Era dia de Vitória, capital do Espírito Santo. Incluí no roteiro pelo simples fato de que, apesar de estar pertinho de São Paulo, eu ainda não conhecia (viagem aos 8 anos de idade com os pais e como ponto de parada no caminho de Arraial D´ Ajuda não contam). Claro que um dia só não dá nem pro começo, mas é um bom termômetro pra “sentir” a cidade e ver se valia a pena voltar lá futuramente. A esse motivo agora havíamos adicionado um outro: precisávamos de Vitória para saciar nossa necessidade básica por mulher. Tá certo que estávamos viajando entre amigos, conhecendo gente e lugares bacanérrimos, mas carinho e beijo na boca fazem uma falta tremenda. Em todas as cidades que passamos a oferta de solteiras era escassa, todas elas tinham aproveitado o final do ano para viajar. Mas Vitória, tínhamos certeza, seria o momento da virada. Nas suas praias encontraríamos as mineiras sumidas, acompanhadas (por que não?) de capixabas, cariocas, paulistas e tantas mais. Só não contávamos com a chuva, que caía quando atravessamos a ponte para entrar na ilha (ah, sim, eu não sabia, ou tinha esquecido, mas Vitória é uma ilha).

Para não dizer que não falamos das flores resolvemos passar pela Avenida Beira Mar buscando qualquer indício de aglomeração. E aqui vem a primeira coisa curiosa de Vitória: os frentistas. É normal, pelo menos pra mim, quando quero chegar a algum endereço, perguntar a direção para, nessa ordem: 1) taxista; 2) frentista; e 3) qualquer alma que esteja passando na rua. Mas se você for a Vitória, esqueça os frentistas. Das quatro vezes que precisamos achar uma rua e perguntamos em um posto de gasolina, nenhuma delas tivemos uma indicação precisa. Ao atravessarmos a ponte, um série de avenidas abriram-se à nossa frente. Como queríamos a Beira Mar, resolvemos pelo o óbvio de ir seguindo o mar. Mas eis que aparece uma placa indicando “Avenida Beira Mar” numa outra direção. O que fazer? Seguir o óbvio ou a placa? Optamos por nenhuma das duas e paramos em um posto para perguntar. Transcrevo agora o diálogo ipsis literis:

- Oi amigo, bom dia. Por favor, qual é a Avenida Beira Mar?

- É a avenida que beira o mar – respondeu, sério, o frentista. Cheguei a pensar que ele via muito Zorra Total e fosse cair na risada pela sacada genial, mas não, permaneceu impassível. De modo que eu respirei fundo e reformulei a pergunta:

- Sim, sim, isso eu sei. Quero saber qual delas eu pego para chegar na Avenida Beira Mar.

- Ah tá. Pega essa aqui e vai embora.

Ele apontou uma outra avenida, que não era a óbvia e nem a que a placa indicava. Mas o fez com tanta sgurança que seguimos a indicação dele. Claro que fomos parar em um lugar nem próximo da Beira Mar, quase caímos em Vila Velha. Resolvemos voltar e seguir o óbvio, beirando o mar, até chegar na Avenida Beira Mar, onde estariam os quiosques e, se Deus fosse bom, alguma agitação. Quando achamos, constatamos que Deus tinha mais o que fazer no momento. A praia estava completamente vazia, sem viv´alma. Contando com um otimismo irracional de que “vai ver estamos no lugar errado”, paramos num quiosque para pedir informação. “Hoje o negócio tá tão feio que nem os mineiros, que são os únicos que frequentam praia com chuva, vieram”, foi o comentário nada animador da dona do quiosque. Seguiu dizendo que sem praia não tinha mais o que fazer, o jeito era esperar a noite. Aí fomos então procurar onde ficar. Acontece que em capitais não funciona o recomendado pelo Guia Gorniak de Viagens, capítulo II, parágrafo 3, de “sentar no primeiro bar que encontrar, pedir cerveja e perguntar”. Tivemos que seguir o disposto no capítulo IV, parágrafo 2, alínea a: ”em qualquer capital o centro da cidade é deteriorado. No seu entorno dá pra ão era nenhum dos hotéis de frente para o mar, mas a diária dos quatro era mais barata que a diária de um nos hotéis que vimos na Beira Mar.

Acontece que a noite ainda ia demorar para chegar e ninguém queria ficar mofando no quarto, de modo que, mesmo chovendo, decidimos procurar o que fazer. Fizemos uma pesquisa informal em diversos botecos porcos da redondeza do hotel e, com exceção de um que indicou o forró que começaria ali no bar em algumas horas, todos falaram basicamente a mesma coisa: “com chuva, todo mundo vai pro shopping.” Meio a contragosto, porque é o cúmulo paulista viajar pra acabar em shopping em outro estado, fomos até lá, afinal quando nada, dava pra ter uma ideia dos tipos de mulher que nos esperariam a noite. No final das contas foi um ótimo paseio, uma alegria aos olhos ver tanta mulher bonita, e passamos a nos referir às capixabas por “caprichadas” tal a quantidade e qualidade do público feminino. De quebraacabamos com uma torre de chopp Heineken e confirmamos com várias pessoas onde a noite, sem erro, seria boa. Tivemos duas respostas: Triângulo da Bermudas e Rua da Lama. Sempre acreditei que o apelido de um lugar fala muito sobre ele, e os das dusa indicações noturnas não popderiam ter me deixado mais animado.

(continua)


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