Parte 12 – Noite de Vitória
“Podia ser pior. Você poderia estar pegando seus móveis na enchente” é uma frase recorrente minha, sempre que alguém vem se lamuriar sobre como trabalha demais, como está sem dinheiro, como o relacionamento não vai bem, ou qualquer uma dessas mazelas do nosso dia a dia. É, creio, um jeito mais simpático de eu dizer pra pessoa parar de reclamar de coisa besta e que, na boa?, tô que nem rádio velho, meu amigo, tô nem ligando. E foi exatamente isso que eu disse quando alguém no quarto reclamou da chuva que caía insistentemente lá fora. Dessa vez, entretanto, era a mais pura verdade. Estávamos os quatro deitados na cama (cada um na sua, que fique bem explicado) do hotel no centro da cidade de Vitória vendo o Jornal Nacional que mostrava diversas cidades do Espírito Santo debaixo d´água, com gente pegando seus móveis na enchente. Fiz esse comentário não em tom de gozação dos pobres coitados que tinham perdido tudo, mas para falar “Ei, pessoal, não é só porque estamos viajando há quatro dias e não pegamos ninguém, e Vitória que era nossa esperança está debaixo dessa chuva torrencial o dia inteiro que nós vamos ficar com essa cara de merda, né? “ Não adiantou muito, só me responderam algo com “tifudê” entre os dentes e continuaram com caras de merda. Voltei, resignado, a ver a tevê. Só virei o jogo algum tempo depois quando, preparando uma pinga com mel para mim (com eles de mau humor corria o risco de não sairmos, então comecei a cogitar a hipótese de descer pro forró no bar perto do hotel e precisava me alcoolizar pra encarar tal hipótese), notei que a chuva tinha diminuido. “Pessoal, a chuva tá que nem vocês, quase parando!” Dessa vez ninguém me xingou, foi um surto de alegria quando foram pra janela e constataram que realmente quase não chovia mais. Minha dose de pinga com mel virou quatro doses, que viraram oito, pra comemorar e aquecer pra noite. Corremos nós quatro e tomamos banho (sozinhos, um de cada vez, que fique bem claro) e em minutos estávamos prontos, lindos e perfumados para conhecer “caprichadas”. (Nota: é com o sentido de reafirmar a beleza das capixabas, e jamais desrespeitar, que a partir de agora só irei me referir a elas como caprichadas).
Todos de banho tomado, partimos para a noite. No boteco porcão próximo ao hotel o forró rolava solto, animado, num estilo “gente suada e clima de Itaquera”. Se tudo na noite desse errado, já tínhamos onde apelar. Pegamos o carro (que em claro contraste com nossa aura perfumada pós-banho cheirava a cachorro molhado, resultado da chuvarada incessante dosúltimos dias) e fomos direto para o “Triângulo das Bermudas”. Era ali que estavam os principais bares e as melhores casas noturnas na cidade. Mas antes de chegar até lá, uma pausa estratégica para reabastecer nosso cooler com cervejas: a ideia era ficar parado um tempo em algum lugar ali do Triângulo das Bermudas, vendo o movimento e o trânsito de pessoas para ter certeza de que a) estávamos no lugar certo, onde as pessoas eram bonitas e b) escolheríamos o lugar mais cheio para entrar, entre tantas opções. Claro que foi só parar num posto BR e encher o cooler de cerveja e gelo, a chuva tornou a cair, inclemente, acabando com nossos planos de ficar na rua olhando o movimento. Já que a cerveja estava ali e estava gelada, resolvemos tomar algumas no posto mesmo, esperando a chuva voltar a ceder. E ali, naquele posto, quase começamos a noite com o pé direito. Quase. Luciano estava de frente para nós três, e de costas para o posto, quando reclamou:
- Porra, era só o que faltava, chover a noite inteira. Não estamos com sorte mesmo. Bem que podia aparecer, agora, aqui nesse posto, no meio da chuva, uma mulher, bonita claro, do nada e vir conversar com a gente, né?
Ele não entendeu a nossa cara de espanto e incredulidade quando, no exato mmento em que ele dizia “Bem que podia aparecer, agora, aqui nesse posto, no meio da chuva, aparecer uma mulher, bonita claro, do nada e vir conversar com a gente, né?” e em perfeita sincronia com as suas palavras, apareceu, naquela hora exata, naquele posto, no meio da chuva, um carro, de onde saiu uma mulher bonita, e veio andando em nossa direção. Podem dizer o que quiserem, mas pra mim esse tipo de acntecimento prova não só que Deus existe, mas como Ele também tem um timming sensacional. Luciano fez uma cara de “Que?” que eu só pude responder com “Olha pra trás”. Quando se virou, entendeu. Ela estava vindo sorrindo em nossa direção. Não andava, desfilava em câmera lenta, e apesar de não estar ventando, posso jurar que seus cabelos balançavam para trás, também em câmera lenta, tal qual num comercial de shampoo. Pude ouvir até uma música de fundo, daquelas em que o impossível acontece.
-Não acredito… – Luciano soltou, embasbacado. E foi essa falta de fé, creio, que acabou com tudo. O disco riscou e a música parou abruptamente, e a velocidade do andar dela voltou ao normal e os cabelospararam de chacoalhar ao vento e toda a magia do momento esvaiu-se. O namorado dela saiu do carro logo em seguida, chamou por ela, abraçou-a e passou por nós para entrar na loja de conveniência. Nos olhamos com cara de “Putz, era bom demais pra ser verdade”. Quando os dois saíram da loja, perguntamos pela enésima vez onde era bom para sair em Vitória e o csal respondeu “Triângulo das Bermudas. Nós estamos indo para lá, inclusive. Se quiserem, podem seguir a gente.” E foi o que fizemos, para chegar sem erro ao local.
Chegamos, paramos os carros e o namorado, muito gente boa, falou “São essas três ruas aqui. Os melhores bares pra conhecer gente bonita são esse, esse e esse” – e, baixando um pouco o tom de voz “mas, se vocês querem pegar mulher mais facilmente, eu indico a Rua da Lama. Aqui vocês vão ter que ficar de conversa a noite inteira e ter um bom xaveco. Lá coisa é mais pá pum”. Conselho anotado, agradecemos, mas já que estávamos ali, por que não conhecer, não é mesmo? Paramos num bar chamado Quintalzinho, com uma grande área aberta para a calçada e que estava deveras cheio e animado. Uma boa surpresa foi a parede no alto, forrada de garrafas, de repente se abrir e aparecer um grupo tocando uma mpb bacana.

Para melhorar ainda mais o panorama, nossa garçonete era linda, simpáticíssima e sorridente e, depois de dois ou três pedidos já conversava como se fôssemos velhos amigos. Ou seja, tinha tudo que eu precisava para me encantar, então me encantei.
Parecia tudo perfeito, chopp garotinho a um real, as mesas cheias de gente bonita, clima de paquera e uma garçonete solícita. Entretanto, tínha um problema sério, uma bendita frase não saía da cabeça “na Rua da Lama a coisa é mais pá pum”. Poxa, o nome do lugar era por si só atrativo, e o conselho do cara ratificava a impressão de que lá seria mais farra. Mesmo que no Quintalzinho as oisas fossem prmissoras, eu não ia ficar plenamente satisfeito e sossegado se perdesse a chance de conhecer a Rua da Lama. Me certifiquei de que qualquer coisa que eu pudesse ter de esperança com a garçonete linda só aconteceria quando o bar fechasse e ela saísse, o que pelo movimento ia demorar bastante e, para não dizer que não falei das flores e ter um plano B caso tudo o mais desse errado, ao me despedir peguei o msn dela e falei que voltaria para vê-la. Podia ser a maior burrice do mundo, trocar o quase certo pelo duvidoso, mas é daquelas coisas inexplicáveis que eu tinha que fazer, aquela força que te puxa. E, mesmo com chuva, fomos para a Rua da Lama.