Atratores estranhos – último ato

12/setembro, 2010

Ansioso, atravessou com dificuldade aquele mar de gente que são as calçadas da Paulisa e da Augusta no fim de tarde, esbarrando em pessoas, batendo seu estojo de sax, pedindo mil desculpas, até que enfim a viu ali entre a barraca de acessórios de celular e a outra de filmes piratas.  Ela estava oferecendo suas trufas aos que passavam e parou quando cruzou o seu olhar com o dele. Ambos pemaneceram imóveis alguns segundos, se encarando, e pareceu que o próprio tempo parou. Por um momento que pareceu uma eternidade, a multidão sumiu, era só ele e ela, ela e ele. De repente, ambos piscaram, e o mundo ao redor tornou a tr vida e movimento, as pessoas voltaram a seguir seu caminho apressadas e indiferentes. Ele respirou fundo, tomou coragem e foi falar com ela:

- Oi – começou ele, tímido.

- Oi – respondeu ela, desviando o olhar para o chão.

- Eu vim agradecer suas trufas.

- Ai, moço, desculpa se eu pareci oferecida assim, mas é que…

- Que é isso, não pareceu nada não. Quero é dizer obrigado e que estou feliz por ver a senhora de novo. Senti sua falta nesses dias. Com todo o respeito, claro.

Ela deu um sorriso tímido.

-  Não te vi mais e me perguntei se não tinha gostado da música que fiz para a senhora.i, e gostei muito, moço. É que minha filha ficou doente e precisei cuidar dela. Não tenho onde deixá-la, sabe?

- É aquela ali né? Ela melhorou? Parece muito bem.

- Ah, sim. Já não era sem tempo, eu precisava vir trabalhar.

- Uma graça ela. Se me permite dizer, é muito parecida com a senhora. Como ela chama?

- Sofia.

- Bonito nome. Sabia que significa sabedoria? Sei porque era o nome da minha mãe.

- Sabia não. Na verdade, eu sempre sonhei em botar outro nome, mas o moço do cartório não deixou. E ele me sugeriu esse. Mas o outro eu achava tão bonito…

- E qual era?

- O senhor promete não rir? Eu li uma vez em algum lugar e nunca mais esqueci.

- Prometo – e fez um sinal de figa, beijando os dedos.

- Era Varsóvia. Não sei o que é, mas ouvi e fiquei com ele na cabeça. Varsóvia. Não é bonito?

- Varsóvia? – seus olhos brilharam. Sempre pensei em Varsóva. É a capital de um país lá da Europa.

E a conversa seguiu assim por horas, dias, semanas, meses. Cada vez mais eles deoram feitos um para o outro, afianl. Hoje em dia, ficam lado a lado na calçada da Paulista. Ele, tocando sua música. Ela, vendendo suas trufas, com a pequena Sofia sempre por perto. E a multidão continua a passar apressada e indiferente.


Atratores Estranhos – sexto ato

10/setembro, 2010

Nos dias seguintes ele  ainda não conseguia parar de pensar na mulher das trufas, no olhar melancólico da mulher das trufas,  nas trufas da mulher das trufas, na filha da mulher das trufas, era um inferno. Pior ainda era o fato de nunca mais tê-la visto, ela simplesmente desapareceu. Decobriu que ela vendia seus bombons ali na Augusta, entre uma barraquinha de acessórios para celular e outra de filmes piratas, mas ela não vinha aparecendo ali já há algum tempo, disseram. Todo dia ele sonhava com ela e, antes e depois de tocar seu saxofone, ele ia procurá-la e todo dia ele ouvia que ela não havia aparecido. Assim foi durante uma semana, e durante essa semana suas músicas foram tristes, chorosas, cheias de lamento. Já estava resignado, sem ver qualquer traço da mulher das trufas durante todo esse tempo, quando surpreendeu-se com quem saiu da multidão e parou à sua frente: a filha da mulher das trufas. Ele abriu um enorme sorriso e imediatamente começou a tocar a mesma musica que tinha tocado para a menina uma semana antes. Mas ela só fez que não com o dedo e esticou um bilhete e um outro embrulho. Tão logo ele pegou o embrulho, ela disparou de volta de onde veio e sumiu na multidão. Ele leu o bilhete: “receba esas trufas, são de coração. Desculpa se parece oferecimento da minha pessoa, mas é que não consegui parar de pensar no senhor e na sua música, tão linda. Não sei por que, mas lembrava do senhor toda hora, mesmo longe. Acho que essas coisas não têm explicação mesmo. Fiz essas trufas especialmente, espero que goste.” Ele demorou um pouco até entender aquele bilhete, mas enfim atinou, ela gostava dele. E ele, pela falta que sentiu dela todos esses dias e pela alegria que agora estava sentindo, também gostava dela. Não havia, então, outra coisa a fazer a não ser falar com ela. Pediu desculpa às pessoas que se amontoavam À sua volta esperando-o tocar a próxima música, guardou o sax no estojo e se foi.


Atratores Estranhos – quinto ato

8/setembro, 2010

Antes de dormir, depois de jantar uma sopa de repolho especialmente insossa, ele se sentou na beira da cama e abriu o pacote deixado pela menina. Eram trufas cuidadosamente embrulhadas. Engraçado, desde que viu a mãe daquela menina, e tocou uma música para ela, não conseguia tirá-la da cabeça. Ela não era bonita, mas não era feia, era diferente. Tinha alguma coisa especial nela, não sabia o que. Talvez o olhar, algo melancólico, indecifrável. Não sabia por que, mas aquela imagem dela olhando para o horizonte não se apagava da memória. As trufas estavam maravilhosas, não eram parecidas com nada que ele já tinha experimentado na vida. E a cada mordida aquele olhar melancólico voltava à lembrança. Se convenceu que devia ter achado as trufas tão excepcionalmente boas devido ao enorme contraste com o sabor da sua janta e deitou-se para dormir. Tão logo deitou, caiu num sono profundo. E tão logo dormiu, sonhou. Sonhou com ela, e com aqueles olhos melancólicos, e com trufas. Durante a noite inteira seu sonho não teve outro tema. A mulher das trufas. A caminho da Paulista no dia seguinte não conseguia parar de pensar no sonho e na mulher, uma lembrança insistente, causada provavelmente pela overdose de chocolate, concluiu ele. O fato é que passou o dia inteiro pensando nela. E aquele dia tocou como nunca, com uma emoção fora do comum. Mais e mais pessoas pararam à sua frente para vê-lo tocar, as gorjetas foram generosas, o estojo do saxofone estava cheio. Mas nada de embrulho, nem de trufas, nem daquela enigmática mulher e nem de sua filha. Não as vira durante todo o dia. Ainda procurou por cima da multidão algum sinal, mas não as viu. Surpreendeu-se com a intensidade com que tinha pensado na mulher durante o dia. E surpreendeu-se mais ainda quando se deu conta de que tinha sentido falta dela, muita falta. Pegou suas coisas e foi para casa intrigado.

(continua)


Atratores Estranhos – quarto ato

7/setembro, 2010

Viu um homem alto, magro, de óculos, seus olhos grandes e pretos como duas jaboticabas, tocando um saxofone  na saída do metrô. Se apresentou como mãe da menina que estivera ali à pouco e pediu que repetisse a música que tocou para a menina. “Aquela foi uma composição especial para ela. Vou fazer uma só para você”, respondeu o homem, olhando-a como se  estudasse de cima a baixo. E começou a tocar uma melodia linda, meio triste, lindamente triste para ser exato, e um monte de lembranças invadiu-a como uma torrente. Quando ele terminou ela ainda continuava olhando para algum ponto do horizonte, perdida em pensamentos. Ela voltou a si num susto, com ele perguntando “Gostou?” com um simpático sorriso. “Sim, sim, demais” foi o que ela balbuciou visivelmente abalada. E sem dizer mais nada, sem nem se despedir, sumiu na multidão. Poucos minutos depois, do meio daquela massa de pessoas, surgiu a filha da mulher para a qual ele havia acabado de dedicar uma música e colocou um embrulho no estojo de sax aberto à sua frente. Nem deu tempo dele fazer qualquer pergunta, a menina tornara a sumir por onde veio. Ele conferiu o conteúdo do sax, várias notas e moedas e o embrulho que a menina havia deixado, concluiu que a féria estava boa para o dia, guardou tudo e voltou para a sua casa.

(continua)


Atratores Estranhos – Terceiro ato

1/setembro, 2010

Final da tarde, hora de maior movimento, quando todo mundo sai dos escritórios. Calçadas lotadas, gente passando para lá e para cá e entre um rapaz que vende capinhas, carregadores e outros acessórios para celular e um senhor que tem mais de cem títulos de filmes “uase originais”, como ele dizia, ela oferecia aos passantes suas trufas, ressaltando a qualidade do chocolate, o sabor sem igual da sua receita especial e os diversos recheios disponíveis, um melhor do que o outro. Com o frenético oferece daqui, entrega dali, recebe  dinheiro, devolve o troco, embala meia dúzia para viagem, acabou perdendo a sua filha de vista, que provavelmente foi dar uma volta, logo agora que daus mãozinhas iam ser de grande ajuda. Pescoçando por entre os fregueses e a multidão de transeuntes, enfim divisou a sua filha sentada na mureta do canteiro, bem na esquina da Augusta com a Paulista, entretida sabe-se lá com o que. Um bom tempo depois, já era tarde e o movimento já tinha diminuido consideravelmente, as trufas já tinham sido quase todas vendidas, era chegado o momento de ir embora. Chamou sua filha, que ainda estava parada na esquina. A menina veio prontamente e foi indagada sobre o que tanto fez ali na esquina esse tempo todo. “Estava ouvindo o homem tocar música, mão. Ele toca tõ bonito! Até tocou uma música especial para mim.” A mãe ficou intrigada e foi ver quem era esse homem que tocava músicas especiais para sua filha, nunca se sabe o tipo de louco que tem por aí, melhor tomar cuidado com esse monte de ladrão de criança.

(continua)


Atratores Estranhos – segundo ato

26/agosto, 2010

Ela embrulhava meticulosamente suas trufas, uma a uma, afinal elas teriam que estar visualmente impecáveis, ajudava a vender. Não precisou de nenhuma aula de marketing para entender que na insistência do seu discurso e no apelo visual dos seus bombons convencia novos fregueses a experimentá-los, e daí o sabor delicado e diferente de cada um deles fazia o resto, o cliente voltaria para pedir mais no dia seguinte. E no outro. E no outro.  Culinária: disso ela podia se gabar de realmente entender. Todos seus pratos e quitutes. Se tivesse tido a oportunidade de estudar, de se aprofundar mais em sabores e receitas e ingredientes, tinha certeza de que não ficaria a dever para nenhum desses chefs famosos e estrelados que vê na tevê.Mas que nada, nunca teve a mais remota chance de estudar, sua família sempre foi extremamente pobre e desde cedo ela teve que trabalhar para complementar o orçamento de casa. Como se não bastasse isso, uma escolha infeliz redundou em um casamento desastroso, uma união com um inútil bêbado e violento. Enfim livre desse verdadeiro atraso de vida, sua única procupação passou a ser sua filha, a coisa mais linda do mundo, uma verdadeira flor que nsaceu nesse pântano sombrio que sempre foi sua vida. E era para dar educação, para garantir o futuro da sua pequena érola que ela fazia cada trufa, e ia todo dia vendê-las na sua banquinha improvisada na calçada da Rua Augusta, em frente ao Conjunto Nacional, ali bem pertinho da Avenida Paulista. Aliás, já estava na hora de sair, ela arrumou todas as trufas dentro da sacola, chamou a filha e par tiram para mais um dia de trabalho.


Atratores Estranhos – primeiro ato

26/agosto, 2010

O sonho dele era  vencer na cidade grande com a sua música. Ganhar dinheiro e conquistar fama tocando o seu saxofone, para qualquer plateia e em qualquer lugar. Mas a coisa não estava fácil, não arrumava um bar sequer onde pudesse tocar, parecia que ninguém mais se interessava por música instrumental, só queriam saber de música eletrônica e mixagens e sintetizadores e afins. Para ser ouvido o jeito era ir onde o povo está. Alguém algum dia dissera que na Europa um batalhão de artistas toca, e ganha dinheiro, e se sustenta, nas ruas das cidades. Na Europa com certeza as coisas deviam ser muito melhores, pensou, e ele ainda haveria de conhecê-la, especialmente Varsóvia. Não, não sabia onde ficava Varsóvia, lembrava que era uma capital, mas não de que país, só sabia que era na Europa e achara aquele nome extremamente bonito desde a primeira vez que ouviu. Varsóvia. Haveria de algum dia apresentar-se em turnê pela Europa, lotando casas de show e teatros, sendo plaudido de pé, e faria questão de passar por Varsóvia. Mas isso era um sonho para depois, agora o que ele precisava mesmo era de dinheiro, o aluguel da pensão e principalmente a fome não esperavam, então ele precisava era tocar. Pegou o metrô e desceu na estação Consolação. Em  em frente à agência do Banco do Basil e à saída do metrô, bem perto da esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta, botou no chão seu estojo de saxofone aberto, para receber eventuais trocados, e começou a tocar.

(continua)


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