Ansioso, atravessou com dificuldade aquele mar de gente que são as calçadas da Paulisa e da Augusta no fim de tarde, esbarrando em pessoas, batendo seu estojo de sax, pedindo mil desculpas, até que enfim a viu ali entre a barraca de acessórios de celular e a outra de filmes piratas. Ela estava oferecendo suas trufas aos que passavam e parou quando cruzou o seu olhar com o dele. Ambos pemaneceram imóveis alguns segundos, se encarando, e pareceu que o próprio tempo parou. Por um momento que pareceu uma eternidade, a multidão sumiu, era só ele e ela, ela e ele. De repente, ambos piscaram, e o mundo ao redor tornou a tr vida e movimento, as pessoas voltaram a seguir seu caminho apressadas e indiferentes. Ele respirou fundo, tomou coragem e foi falar com ela:
- Oi – começou ele, tímido.
- Oi – respondeu ela, desviando o olhar para o chão.
- Eu vim agradecer suas trufas.
- Ai, moço, desculpa se eu pareci oferecida assim, mas é que…
- Que é isso, não pareceu nada não. Quero é dizer obrigado e que estou feliz por ver a senhora de novo. Senti sua falta nesses dias. Com todo o respeito, claro.
Ela deu um sorriso tímido.
- Não te vi mais e me perguntei se não tinha gostado da música que fiz para a senhora.i, e gostei muito, moço. É que minha filha ficou doente e precisei cuidar dela. Não tenho onde deixá-la, sabe?
- É aquela ali né? Ela melhorou? Parece muito bem.
- Ah, sim. Já não era sem tempo, eu precisava vir trabalhar.
- Uma graça ela. Se me permite dizer, é muito parecida com a senhora. Como ela chama?
- Sofia.
- Bonito nome. Sabia que significa sabedoria? Sei porque era o nome da minha mãe.
- Sabia não. Na verdade, eu sempre sonhei em botar outro nome, mas o moço do cartório não deixou. E ele me sugeriu esse. Mas o outro eu achava tão bonito…
- E qual era?
- O senhor promete não rir? Eu li uma vez em algum lugar e nunca mais esqueci.
- Prometo – e fez um sinal de figa, beijando os dedos.
- Era Varsóvia. Não sei o que é, mas ouvi e fiquei com ele na cabeça. Varsóvia. Não é bonito?
- Varsóvia? – seus olhos brilharam. Sempre pensei em Varsóva. É a capital de um país lá da Europa.
E a conversa seguiu assim por horas, dias, semanas, meses. Cada vez mais eles deoram feitos um para o outro, afianl. Hoje em dia, ficam lado a lado na calçada da Paulista. Ele, tocando sua música. Ela, vendendo suas trufas, com a pequena Sofia sempre por perto. E a multidão continua a passar apressada e indiferente.
Escrito por Gorniak