Como Descobri que Estou Ficando Velho – Carnaval 2008

14/Agosto, 2008

Parte 10 (de 10)

A conclusão

 

A chuva não pára de cair, já é bem de madrugada no sábado e eu ainda não consegui um beijinho sequer nesse carnaval. Sábado de carnaval zerado! Pra não dizer que estou completamente zerado, tem um selinho na bagagem. Isso é inadmissível. Realmente estou velho demais pra isso. Já foi-se longe o tempo em que eu era bom, passava o rodo. Agora não passo de um trintão acabado e gordo. Melhor mesmo é eu parar de achar que a farra ainda é coisa pra mim, arrumar namorada e me endireitar. Tudo na vida passa, minha fase desair-na-noite-e-beber-tudo-ebeijar-todas também já era. Era exatamente isso que eu pensava enquanto procurava com meu amigo uma barraca para tomar whisky. Afinal, sem mulher, a única forma de me aquecer era na base do whisky. Eu não conseguia me animar nem com o meu amigo repetindo uma máxima que eu ensinei para ele:”Na chuva só ficam as loucas”. Eu quero que as loucas se explodam, o carnaval se exploda, Caxambu se exploda. Estou velho demais pra essa merda toda. Cheguei numa barraquinha e pedi um Red Label. O carinha da barraca me deu uma olhada tipo “coitado, ele pensa que ta onde?” e falou

- Red Label não tem não, só tem esse aqui, ó.- e apontou pra uma garrafa de Old Eight, claramente paraguaia, e claramente é a palavra exata, parecia com um envelope de Clight Tea diluído em 3 litros d´água. Bom, se não tem tu, vai tu mesmo, e já tá tudo fodido manda uma dose disso aí mesmo, há de servir . E, ainda por cima, quem sabe se eu não beber meia garrafa desse Old Eight paraguaio, não conseguia me matar, e acabar com esse carnaval patético? .É, eu tava velho demais pra isso.

Enquanto bebia e bufafa e praguejava e amaldiçoava e ranzinzava, vieram parar do meu lado duas meninas, encharcadas, para sair da chuva. Pediram pinga com mel pro cara da barraca e, enquanto tomavam, começaram a conversar. Como estavam bem coladas a mim, não deu para não ouvir.

- Nósinhora, que frio né?

- É, demais. A gente precisa se esquentar.

- É, mas só a pinga num ta adiantando. Seria bom um abraço.

- Pede pro minino aí do teu lado.

- Até que ele é bonitinho… podia me dar um abraço né?

Elas tavam falando de mim ou era impressão minha? Bom, mesmo que fosse de mim, estava puto demais para dar bola, estava bem escolado com mulheres que eu vou agarrar e desviam como se estivessem em Matrix desviando de balas, ou que pegam meu ouvido pra pinico e na hora de retribuir a atenção falam que não é bem assim.

- Mas ele nem olha pra cá. Assim fica difícil.

É, elas tavam realmente falando de mim. A curiosidade foi maior do que o mau-humor e eu virei pra encarar as duas. Com cara de bravo, claro, pois eu realmente estava irritado e não sou de dar mole assim e rir pra primeira doida-que-bebe-pinga que aparece, tá pensando o que? Encarei e virei rapidamente, como se eu não tivesse nem aí para as duas. Mas até que eram ajeitadinhas, não seria nada mal fazer uma permuta de bebidas e calor corporal, não necessariamente nessa ordem, claro. Mas eu ainda estava bravo, ainda chovia, ainda estava frio, eu ainda achava aquilo tudo uma merda.

- Mas ele tá bravo, olha só a cara dele – disse uma

- Ai que eu adoro um homem brabo! – respondeu a outra de bate-pronto.

A rapidez e o conteúdo da resposta me surpreenderam e desarmaram meu mau-humor. Eu ri e tive que puxar conversa. Meu amigo que não é bobo nem nada juntou-se a nós e, dali a minutos, estávamos eu e a que “gostava de homem brabo” nos aquecendo, afinal só o whisky e a pinga com mel não tavam dando conta. Não senti mais a chuva e o frio deixou de ser um problema.

- Eu adoro isso aqui. E ainda temos vários dias pela frente – comentei com meu amigo, entre uma pausa e outra no aquecimento.

- Ué, mas você não disse que estava velho demais? Não estava xingando a tudo e a todos? Não disse que iria embora amanhã?

- Eu? Ta maluco? Deve ter me confundido com alguém. Que papo de velho.

fim


Como Descobri que Estou Ficando Velho – Carnaval 2008

8/Agosto, 2008

Parte 9 (de 10)

O longo caminho de volta

 

Saí das ruas onde o carnaval estava a todo vapor e fui seguindo minha nova amiga até a casa dela. As amigas, que não são bobas nem nada, já trataram de acelerar o passo e ir mais na frente, deixando só nós dois pra trás.Agora sim, tudo parecia dar certo pra mim, a conversa fluía numa boa, com piadas e comentários de ambas as partes, e não um monólogo, como havia sido com a outra menina minutos atrás. Enfim agora o carnaval começou a ficar realmente interessante. Não é que na maioria das vezes eu acabo sempre sendo salvo pelo imprevisto? Quem é que diria que um dedo no olho seria o responsável por eu conhecer uma menina tão legal?

Bom, conversa boa ou não, é melhor me certificar de que nenhum imprevisto vai acontecer e, maravilha, ela não tem namorado,não é contra beijo na boca antes do casamento. Depois das milhares de negativas e dos trocentos infortúnios da noite, minha paciência já tinha acabado, a sutileza que se exploda, quando ela concordou comigo que beijar é bom e está na moda eu já sugeri de bate-pronto fazermos o maior evento de moda do Brasil ali mesmo, pra bater São Paulo Fashion Week, ela me disse te acalma, agora não, vamos andando que eu não quero me perder das meninas, que já iam longe lá na frente, vamos ter muito tempo quando chegarmos na minha casa. Oquei, beleza, gostei especialmente da parte do “vamos ter muito tempo”, quem sabe ela não me convida pra, sei lá, entrar e tomar um café. A menina pareceu que leu meu pensamento, porque respondeu imediatamente “Mas não vou poder te convidar pra entrar em casa, porque meus pais já estão dormindo.” Merda! Se bem que a minha experiência adquirida mostra que isso nada quer dizer, basta ser discreto que pra tudo se dá um jeito. Minha consciência me dá uma bronca e me traz de volta à razão: Porra, pára de viajar, você sequer beijou a menina. Foco no beijo. Se você conseguir isso já vai ser lucro. A conversa continuou em outro rumo, o problema é que agora eu não conseguia me concentrar em qualquer coisa que ela falasse, não parava de pensar se ia demorar muito pra chegar a casa dela, ô caminho longo esse. Nesse exato momento eu sinto um pingo. Não. Brincadeira comigo. Isso não é chuva. Sinto outro. E outros. Ela vira pra mim e “Putz, tá começando a chover. Vou correr, tá pertinho. Obrigado, viu?” Me deu um selinho e correu. Eu definitivamente estou ficando velho. Era a segunda da noite que me escapava numa boa. Nos bons tempos, nem que fosse na base da rasteira, com chuva ou sem chuva, essa não fugia. Mas fugiu. E a chuva caiu. Não vou nem entrar em detalhes o quão feliz eu fiquei. Desistyi de correr e me proteger, dei meia volta e rumei em direção à festa, a chuva me ensopando, eu realmente merecia isso, não tenho mais idade pra carnaval, quem eu penso que sou? Um garotão ainda? Pra ficar enchendo a cara e correndo atrás de mulher no carnaval? Já era meu filho, agora o negócio é largar essa vida, arrumar uma namorada, constituir família, parar de farra e estripulia, deixar isso pra nova geração que está aí. E a chuva caía, o vento noroeste batia gelando até pensamento, e pensar que antigamente o que tinha esse efeito sobre mim era cerveja. Definitivamente isso não é mais vida pra mim, e o pior é que ainda faltam domingo, segunda e terça de carnaval, que que eu vou ficar fazendo? O negócio é encontrar o carro agora, arrastar meus amigos, voltar pra São Lourenço, trocar de roupa, dormir e, quando acordar, eu pego um ônibus pra São Paulo. Juro. Não quero mais isso, não agüento. Essa merda de caminho parece agora ainda mais longo para voltar do que foi pra ir. E essa chuva que não pára, tô molhado até em lugares quem não sabia ser possível.

Enfim chego no mesmo lugar da festa onde tinha deixado meu amigo, o carro ainda não está no lugar. Só encontro meu amigo sentado num degrau, debaixo de um abrigo, tão molhado quanto eu e todo encolhido.

- O que você está fazendo aí, todo encolhidinho?

- Tô-tô-to-tô  mo-mo-mo-rrendo de-de-de fri-fri-frio! E-e-e-e o ca-ca-carro não che-che-che-ga.

- Bom, não temos muito o que fazer, não vou ficar aí do seu lado pra te esquentar. Vem que eu te pago um whisky. Nada melhor pra esquentar. E é bom que assim eu encho a cara e esqueço dessa bosta de carnaval.

E fomos tomar o whisky.

(continua)


Como Descobri que Estou Ficando Velho – Carnaval 2008

6/Agosto, 2008

Parte 8 (de 10)

Muita conversa, pouca ação

 

Pouco mais de dez minutos. É esse tempo que eu já estou conversando com a  morena que eu conheci na barraca das batidas. Cá entre nós, um recorde, em se tratando de carnaval. Caxambu está cheia de gente, o pessoal tá animado, mas até agora não consegui beijar ninguém. Sim, o intuito principal é beijar na boca. Se fosse pra ouvir música ou assistir carnaval eu ficava em casa vendo o desfile pela tevê (apesar de que às vezes me passa pela cabeça se não era melhor estar em casa mesmo e eu me pergunto que que eu tô fazendo aqui, se já não estou velho demais pra esse tipo de coisa). O sorriso da morena na minha frente, animadamente contanto de onde veio e bebendo sua batida multicolorida me dizem que não, não estou velho demais pra isso. Confesso que nem preciso me esforçar muito pra manter a menina ali, é só ficar ouvindo o que ela fala, e não é pouco, fazendo um comentário engraçadinho aqui e acolá. Simpático assim, claro que é só questão de tempo até ela ter certeza de que eu sou um fofo, coisinha mais linda e pimba, lasco o beijo. O problema é que a menina disparou a falar e não pára nem pra respirar, calcula dar uma brecha pra eu dar entrada pra um beijinho. Nem pensar. Ela discorre sobre o curso que ela faz, sobre as amigas que vieram com ela, sobre as peripécias da viagem e infinitos outros assuntos. Tudo muito interessante, continuo olhando e sorrindo e ouvindo tudo pacientemente, minha hora há de chegar. Em algum momento ela tem que parar pra tomar fôlego ou pra dar outro gole na sua bebida parecida com um arco-íris. Aí é o bote fatal. Mas nada dela parar de contar história, tem mais causos que eu, vamo minha filha, pára de falar tanto e vamos beijar, que é isso que interessa, mas nada. Até que eu comecei a encarar a boca dela. Parei de olhar pra ela, pra barraca, pra quem passava por perto e só via a boca, os lábios com um batom clarinho. Eu parei de ouvir o que ela falava e parei de ouvir a música, só pensava em beijar aquela boca. Eu acho que pela minha cara de maníaco ela percebeu o que eu queria e parou de falar. Enfim! Falei alguma gracinha do tipo “muito legal suas histórias, adorei conhecer você” e fui chegando perto, chegando perto… e em cima da hora ela vira o rosto, meu beijo pega na bochecha, ela responde “também adorei conversar com você, mas agora preciso ir” e vai embora. Eu realmente não esperava aquilo, fiquei sem ação até para protestar; Quer dizer que ela queria realmente conversar no carnaval? E o besta ali, ouvindo tudinho? E ela só queria CONVERSAR? Aí já era demais, fiquei puto ao quadrado, novamente me perguntei que que eu tô fazendo aqui, cheguei à conclusão de que era melhor ir para o carro, aquela não era a minha noite e pronto. Segui em direção ao carro esbravejando, é melhor eu ir dormir mesmo, uns ganham, outros perdem, hoje eu só perdi, melhor desistir.

No caminho, encontro meu amigo vindo do lugar onde estava estacionado o carro. Ele me informa que o motorista arrumou uma menina, entrou com ela no carro e sumiu. “Maravilha! Era tudo o que eu precisava!” digo eu e, nesse momento, quando abro os braços, acerto em cheio o olho de uma menina que passava ao meu lado. Ela fala “Ai” e eu respondo com um “Puta merda, desculpa!” Ela diz que não foi nada, eu insisto, deixa eu ver, machucou?, ela diz que não, eu me desculpo de novo e culpo meus parentes italianos por parte de mãe por essa mania de falar com as mãos. Ela ri, diz que também é descendente de italianos e continuamos a conversa. Ela realmente não precisa saber que eu não tenho nada de italiano, pra que estragar esse laço que nos une? Ela está indo embora com as amigas, eu me ofereço para acompanhá-la, ela diz que não precisa e eu replico que é o mínimo que posso fazer, depois de quase deixá-la caolha. Ela ri de novo (segunda vez!) e fala que tudo bem. A minha sorte começou a melhorar.

(continua)


Como Descobri que Estou Ficando Velho – Carnaval 2008

30/Julho, 2008

Parte 7 (de 10)

Lado A e lado B

 

Chegamos em Caxambu. Agora sim achamos o carnaval como deve ser um carnaval: muita gente, música, bebida e pegação. A aglomeração ficava restrita a duas ruas, interditadas, que se cruzavam e, no centro do cruzamento, um palco tocava axé, samba. marchinhas e “sucessos” do funk. Não tínhamos tempo a perder, afinal já era madrugada de sábado do carnaval e ninguém tinha sequer um beijo na bochecha no currículo. Passa uma menina do meu lado e ela é imediatamente abalroada (sim, esse é o termo exato: abalroada). Com aquela agilidade absurda que Deus concedeu às mulheres para que escapassem de abalroamentos inconvenientes como o meu, ela se desvencilha e se perde na multidão. Mantenho meu otimismo pensando que foi só a primeira tentativa. Pelo menos em Caxambu tinha mulher para tentarmos, né? O problema é que depois do primeiro “não” (que nem “não” teve, foi mais uma fuga mesmo), muitos outros “nãos” se seguiram. Parei de contar no décimo quarto. Importante frisar que eu parei de contar, não de tomar. Eu estava realmente empenhado e não deixava passar uma mulher perto sem abordar. Parecia mesmo um presidiário que esteve na solitária nos últimos oito anos e recebeu um indulto de carnaval. Para a minha tristeza, nenhuma mulher parecia estar muito a fim de conhecer um pseudo-presidiário A certa altura eu me irritei, comecei a amaldiçoar a cidade, as mulheres da cidade e principalmente a mim mesmo. ”Que que eu tô fazendo aqui?” não saía da minha cabeça; Mas tudo bem, respirei fundo, recompus minhas forças, esfriei minha cabeça com uma cerveja geladinha e me pus a pensar: “a abordagem aqui não está surtindo o efeito desejado, vamos mudar de tática”. Olhei para perto do palco e uma multidão pulava animada ao ritmo de marchinhas de carnaval. Essa era a saída: ir para perto do show e tentar arrumar mulher lá, onde a muvuca é maior e a fuga, muito mais difícil. Quem sabe se na empolgação de “a-lá-lá-ô” eu não me dou bem? Segui em direção do palco com a fé renovada, mas quanto mais eu me aproximava, mais minha alegria diminuía e, ao chegar bem perto meus piores temores se concretizaram: ali só tinha homem. Era homem que não acabava mais, homem até onde a vista alcançava. Nenhuma mulher, umazinha que seja. Acho que nem na final do Mundial Feminino de Luta no Gel teria tanto homem assim. Saí dali correndo e fui parar na rua que ficava atrás do palco. Agora sim, mulheres apareciam na paisagem. Não que isso quisesse dizer muito, pois todas as mulheres que eu via eram surpreendentemente feias. E olha que eu já tinha uma quantidade considerável de álcool no sangue e estava desesperado por uma companhia, não era para estar tão seletivo assim. Mas olhando bem, sinceramente ali eu não ia achar nada minimamente encarável, era um pessoalzinho feio de doer. E não me refiro só às mulheres: olhando para os homens, eu estava me sentindo o galã. Era praticamente o lado B do carnaval de Caxambu. Parecia que, antes de chegarmos, o responsável pela realização do carnaval subiu no palco e determinou: “as pessoas bonitas desse lado do palco e as feias, aqui para trás. Não queremos assustar os turistas, né?” E assim foi. Eu voltei correndo para o lado A, com medo de que acabasse fazendo alguma bobagem num momento de insanidade temporária. Estava sozinho, mas nem por isso eu precisava (ainda) rebocar um dragão a tiracolo.

No lado A continuou a mesma profusão de cortes e “nãos” e foras. Definitivamente, a abordagem do “Oi e me beija” não estava funcionando. Teria que mudar a estratégia. Vamos então conversar, mostrar que eu sou um cara simpático e inteligente e legal, para só depois beijar. Demora mais, mas fazer o que? É o jeito. Eu sinceramente não imagino como alguma mulher se arruma toda para curtir um carnaval e pensa: hoje, naquela muvuca do carnaval, só vou beijar alguém que converse e seja inteligente. Mas se é assim que funciona, assim será.

Paro em uma das barraquinhas para pegar mais uma cerveja (ninguém é de ferro) e uma menina espera ansiosa uma batida multicolorida que o cara prepara. É o alvo ideal, então eu parto pra cima.

(continua)


Como Descobri que Estou Ficando Velho – Carnaval 2008

28/Julho, 2008

Parte 6 (de 10)

A condição

 

Eu viro meu copo de conhaque com cacau e encaro minha interlocutora. Ela sorri e eu penso com os meus botões que seria melhor se ela não tivesse sorrido. Eu tenho como princípio pessoal fundamental que mulher sorrindo é uma das coisas mais bonitas que existem. Mas, como ela acaba de provar, sempre tem as exceções, claro. Ponho o copo vazio na mesa e emendo “Bigode, vê mais um” e, tornando a encarar a menina, completo:

- É que eu perdi uma aposta e comi um daqueles ovos coloridos ali. Então quero me proteger de qualquer reação adversa matando tudo quanto é bactéria no álcool.

Não que eu precisasse dar explicação alguma para alguém, mas dizer isso era mais engraçado e mais cortês do que contar que eu estava me preparando para encará-la. Ela sorri de novo. Chego à conclusão de que, daqui pra frente, tenho que me lembrar de parar de fazer piada. Eu não agüentaria vê-la sorrir mais uma vez.

Meus amigos não estão em situação muito melhor. Olhando assim, de supetão, não dá pra decidir qual das três é mais feia. Seriam necessários dias de debates para que talvez se chegasse à conclusão de que não havia UMA mais feia. Aliás, pra ser sincero, não havia NINGUÉM mais feia.

Mas, se tem uma coisa que aprendemos na faculdade foi jogar truco, e o jogo nos ensina a fazer o melhor com o que temos na mão, mesmo que sejam as piores cartas do baralho.

Aí papo vem, conhaque com cacau vai, descubro que o carnaval na cidade realmente não era o que esperávamos, que o bom mesmo era na cidade vizinha, Caxambu.

- Lá é bom, todo mundo fica na rua, tem show, é bem mais animado – disse meu alvo.

- Nós – apontando com a cabeça para as duas amigas – estávamos querendo ir pra lá. Foi sorte vocês terem encontrado a gente.

- Hummmm – respondi, enquanto dava um gole em outro conhaque com cacau (era o quarto? O quinto? Quem se importa?). E, olhando bem para ela, cheguei a pensar que era sorte mesmo, afinal ela já não me parecia tão ruim, tinha lá o seu charme. É, dava pra encarar sim.

- Que ir para lá nada. Vamos aproveitar hoje para ficar por aqui mesmo. Já estamos eu e meus amigos, você e suas amigas… pra que mais?

- Ah, moço, sei não… Não conheço vocês. E a gente queria mesmo ir pra Caxambu.

- Mas olha, dois trios perdidos numa noite de carnaval se encontram ocasionalmente num bar. Isso é um sinal, não é?

O argumento já tinha dado certo antes com meu amigo, porque não daria com ela agora? E, dizendo isso, cheio de confiança, fui para cima garantir meu beijo. Inesperadamente, incompreensivelmente e infelizmente, ela se esquivou.

- Não moço, agora não. Se você levar a gente pra Caxambu, eu te beijo.

Cume quié? Para tudo. Volta a fita que eu não entendi. Relembro as palavras exatas dela: “Se você levar a gente pra Caxambu, eu te beijo.” Paro para refletir. Se eu levar ela pra Caxambu é que eu ganho beijo? Ela quer comprar a minha carona com o beijo dela, é isso? Eu entendi direito? Tá certo que homem é trouxa, faz qualquer coisa por mulher, torra o que não tem, paga qualquer mico, faz de tudo para agradar e tal, mas peraí. Tudo tem um limite (já disse isso antes?). A mulher tem que valer à pena. E ela, sinceramente, não valia nem o ovo colorido de dodô que eu comi antes. Mesmo tendo tomado todos os conhaques com cacau que eu tomei. Sem nem responder à proposta dela, levanto e vou para o banheiro. Não sei se rio ou se choro pela situação. Resolvo ficar puto, afinal, velho que é velho fica puto.. Meu amigo entra logo depois no banheiro:

- Cacete! Não peguei a monstrinha! Você acredita que ela quer que a gente as leve pra Caxambu? – despejo, indignado.

- Acredito. A minha também tá fazendo jogo duro e pediu carona também. Disse que lá em Caxambu fica comigo.

Concordamos os dois que não dava pra levá-las de jeito nenhum. Primeiro, porque nem de longe valiam o esforço. Segundo, que se fosse pra ir pra Caxambu, a gente ia tentar coisa melhor lá. Essas meninas são um plano de contingência, uma medida desesperada para a falta de quorum feminino na cidade.

Saímos no banheiro (agora entendo porque mulher vai sempre de dupla) e eu tentei mais uma vez um beijo. Ela novamente não deu, falou de ir para Caxambu. Me despedi, levantei e chamei meus amigos para ir embora. Fomos para o carro comentando nossa má sorte, apesar de um afirmar que “estava quase conseguindo pegar”. Entramos no carro e, sem dizer palavra, pegamos a estrada para Caxambu. O bar tinha servido para alguma coisa, afinal.

(continua)


Como Descobri que Estou Ficando Velho – Carnaval 2008

25/Julho, 2008

Parte 5 (de 10)

Um encontro inesperado

 

 

Ao chegar no centro, o carnaval não se pronunciava animador. Famílias, crianças, senhores e senhoras de idade… só víamos aquele tipo de público que não é afeito a guerra que buscávamos. Eu já fiquei ranzinza. Que porcaria de carnaval, olha onde vocês me trazem, podia estar em casa agora. É, eu estava um velho chato mesmo.

- Calma, pode ser que tenha tanta família por causa do horário. – disse alguém.

Realmente, ainda eram nove da noite, simbora pelo menos dar uma volta. Andamos para cá, andamos para lá, andamos lá para baixo e voltamos e nada. Só famílias felizes por todos os lados, criancinhas correndo, velhinhos sentados nos bancos e casais abraçados andando. Estávamos no próprio Hopi Hari de domingo, e não em um carnaval.

Mas meu avô, o velho Stan, sempre dizia: “Desanimai jamais! Em momentos de grande aflição, procura um bar. Para tudo na vida há um bar próximo, e uma solução.” E seguindo esse sábio conselho sentamos numa mesa defronte à praça principal e desce cerveja. O tempo passava, a cerveja vinha e nada daquilo ficar promissor. Nós já começávamos a olhar as meninas que estavam com a gente de uma forma diferente. Não que fossem feias, mas tínhamos feito um acordo de não-agressão prévio, afinal “carnaval é carnaval, vamos conhecer gente nova”. Entretanto, os termos do acordo não previam a falta de “gente nova” no mercado, de modo que a promessa de não-agressão estava quase valendo tanto quanto o “eu te amo” de um bêbado. As meninas ali na mesa com agente iam ficando mais e mais interessantes e cheirosas, sabe como é, conversinha vai ficando mole, olha no olho, pega na mão, chega mais perto e….

- Ooooooi amigaaaa! – brada o alegre guia-mariposa que nos recebeu mais cedo, que vai chegando e já sentando (na cadeira, claro).

Ah, não! Assim era demais. Era só o que faltava! Não tinha mulher nenhuma na cidade, íamos ter que partir pra nossa reserva trazida de São Paulo logo no primeiro dia e, ainda por cima, chega o viadinho na nossa mesa. Levantei a pretexto de ir no banheiro, dois da mesa disseram que iam também e sumimos no meio da multidão do nosso Hopi Hari carnavalesco.

Quando estávamos suficientemente longe começamos uma discussão sobre as próximas ações a serem tomadas:

- Vamos para outra cidade?

- Que tal mais cerveja?

- E se déssemos mais uma volta por aí? Pode ter melhorado.

- Vamos perguntar para alguém sobre o carnaval.

- Mais cerveja?

- Aqui não tem clube não? Clube sempre é bom.

- Hum… e cerveja?

No fim, definimos que antes de mais nada, mais cerveja era necessária. Nos afastamos da praça central e rumamos para um bar mais ermo e longínquo. Entramos, sentamos na mesa e, claro, cerveja. Nossa desolação pelo fato de não existir mulheres e bagunça naquela cidade era quase palpável, parecia uma quarta pessoa na mesa. Continuamos nossa discussão sobre que caminhos tomar, já que ali não ia ter nada.

- Como esse ovo colorido do balcão se aparecer mulher aqui. – apostei.

Eis que Santo Protetor dos Ovos Coloridos de Bar faz surgir três mulheres, que entram e sentam em uma mesa próxima a nossa.

- Ô Bigode, dá um ovo colorido desse aí pra mim – chamei, resmungando “poxa, podiam ser bonitas, é pedir demais?”..Mas não havia o que fazer, afinal, promessa é dívida.

Pelo jeito, elas se espantaram com a gente ali tanto quanto nós com elas. Quer dizer, nós seguramente nos assustamos mais, pois elas eram muito feias. O impulso foi imediato, recorrer à regra suprema do Manual de Como Pegar as Impegáveis: beba muito.

- Bigode, mais uma cerveja por favor. E dá um conhaque com cacau, por favor.

- Dois – pediu o outro.

- Três – disse o último – Vocês acham que eu vou ficar pra trás, é? – emendou.

A querela mudou, agora não é mais sobre o que iríamos fazer, que a essa altura parecia claro, mas sim quem é que iria ser o primeiro a fazer. É numa votação marcada, os dois votaram em mim para ir até as meninas, que por sinal não paravam de olhar.

- Eu não. Já fiz promessa pro Santo Protetor dos Ovos de Dodô para que aparecessem mulheres e paguei.

- Mas tinha que ser justo essas?

- Você quer o que? Viu a qualidade do ovo que eu comi? Só podia dar nisso mesmo.

- Putz… encarar aquilo ali ta bravo.

- Dois trios perdidos numa noite de carnaval se encontram ocasionalmente num bar sujo. Isso é um sinal. História pra contar pros nossos netos – sentenciei. Meu professor de literatura que dizia que uma frase bem posicionada em um momento oportuno podia fazer milagres.

- É, né? História pra contar pros netos… – quase concordou um.

- É – resumi de modo firme, para dissipar qualquer dúvida.

- Então ta bom – disse meu amigo, e virou o copo de conhaque. Levantou de súbito e foi até as meninas. Em três minutos, ou menos, elas estavam vindo sentar na nossa mesa.

 

(continua)


Como Descobri que Estou Ficando Velho – Carnaval 2008

23/Julho, 2008

Parte 4 (de 10)

Preparativos para a guerra

 

Era final de tarde. O sol começava a querer fazer que ia se pôr, mas como era horário de verão, ainda faltava um pouco para escurecer. A mesa cheia de garrafas vazias de cerveja e nós conversando animadamente sobre não lembro o que, afinal, não importa o que homens conversam no bar quando se tem muita cerveja na mesa. O celular toca e, quando atendo, recebo a notícia que as meninas já arrumaram uma casa. O primeiro problema do nosso carnaval em São Lourenço tinha sido resolvido, agora já tínhamos onde ficar. A parte boa disso é que ainda bem que elas arrumaram, já que era quase seis da tarde, e nós, os homens do grupo, com certeza não arrumaríamos nada, já que estávamos desde as duas da tarde no bar tomando cerveja. A parte ruim é que nós teríamos que sair agora daquele bar para ir com elas até a casa. Ao encontrá-las repetimos todos o discurso ensaiado de  “nossa, como andamos atrás de uma casa pra ficarmos e não achamos nada”, para elas não pensarem que tínhamos ficado num bar esse tempo todo. Claro que não colou, elas ficaram de cara feia do mesmo jeito, mas tudo bem, a cerveja era barata e tava gelada e é isso o que importa.

A casa que elas encontraram não era assim nenhuma Brastemp, tava mais pra caixa de isopor mesmo, mas pra quem ia só dormir, estava perfeita. Claro que eu não gostei, mas tive que engolir o meu mau-humor senil porque não fui eu quem achou, tinha ficado bebendo cerveja no bar, então deixa pra lá, tava ótimo. O único senão era o caminho até ela, um pequeno labirinto de ruas, direita, esquerda, ladeira, direita, segunda a direita, ponte, passa a vaca pastando, terceira esquerda e pronto, chegamos. Ou seria esquerda, segunda direita, sinaleira, pinguela, quarta a direita, ladeira, passa o Bar do Pedrão e terceira esquerda? Bom, ninguém sabia ao certo, mas isso era um problema para depois. Enquanto as meninas foram tomar banho e se preparar, preferimos tirar um cochilo para recuperar as energias. Dormimos, acordamos, tomamos banho e nos aprontamos e as meninas ainda não estavam prontas. Fomos para o bar do lado da casa para molhar as palavras enquanto esperávamos e continuamos a nossa pesquisa sobre que cidade tem o carnaval MUITO BOM que procurávamos. Também nesse bar a pesquisa não foi conclusiva, com uma diversidade de opiniões. O jeito era ver com nossos próprios olhos. Na décima segunda garrafa (eu reclamando da demora delas, claro), enfim todas as meninas estavam prontas, perfumadas e chapinhas feitas. Vamos à guerra,

 

(continua)


Como Descobri que Estou Ficando Velho – Carnaval 2008

20/Julho, 2008

Parte 3 (de 10)

Como era bom o cú da foca

 

 Saímos, os homens, pela cidade em busca de alguma casa barata e grande o suficiente para acomodar 10 pessoas no carnaval. As meninas ficaram na praça, olhando os carros e as malas, e protegendo a pele dos efeitos nocivos do sol.

A cada imobiliária que íamos e não achávamos nada, eu amaldiçoava mais aquela situação. Mais uma atitude de velho minha. Ao invés de rir do fato, xingava a tudo e a todos e pensava “Como é que eu fui me meter nessa?”

Foi aí que eu lembrei do primeiro mandamento de todo viajante perdido em busca de abrigo: qual o melhor lugar para conhecer gente e, com isso, encontrar onde ficar? O bar, lógico. Acho que demorei tanto para lembrar disso devido aos sintomas de velhice. Não precisei nem comentar nada, todos concordaram que o bar realmente só podia ser o primeiro mandamento de qualquer coisa e fomos até o boteco mais próximo.

Sentamos na mesa e o senhor calvo dono do bar, raposa velha, já puxa uma garrafa do freezer e pergunta “cerveja?” E nós “Tá gelada?” E ele “Parecendo cú de foca.” Depois de dois segundos pensando no quanto deve ser gelado o cú de uma foca que passa a vida inteira sentada no gelo ártico, soltamos em uníssono um “Desce.” E eu tenho que confessar uma coisa: as cervejas na viagem estavam boas, mas nada se compara a tomar o primeiro copinho americano sujo num boteco sujo na cidade de destino, sem ter que se preocupar em dirigir e tendo o carnaval inteiro pela frente. A primeira chama a segunda, a segunda chama a terceira e quando a gente vê, já tem uma turma delas nos fazendo companhia em cima da mesa.

Eis que no meio da animada conversa, algum de nós comenta:

- Sabe que eu não vi nenhuma mulher bonita até agora?

- Mmmmmmm – foi o murmúrio pensativo de consenso geral.

Agora que alguém falou, reparamos todos que realmente nenhum de nós tinha visto uma mulher sequer ajeitada. E isso era deveras preocupante. A partir dessa constatação, arrumar um lugar para ficar virou missão secundária; o principal era saber se o carnaval dali era bom.

Saímos perguntando se ali em São Lourenço o carnaval era bom e animado (e deixávamos bem claro que “muita mulher” era o que considerávamos “bom e animado”) O primeiro inquirido foi o calvo dono do bar que era raposa velha (já disse isso?) e deveria ter uma opinião na qual se podia confiar:

- Hum… é bom sim – disse, sem muita firmeza.

- Bom quanto? MUITO BOM ou só bom?

- Só bom. Se vocês querem um carnaval MUITO BOM, o melhor mesmo é ir para Caxambu.

Sugestão anotada mentalmente, Caxambú 1, São Lourenço 0. Fora a raposa velha e calva do bar, ainda perguntamos para alguns dos bêbados lá, um moleque da nossa idade que entrou para comer e mais três transeuntes. O que, afinal, só serviu para nos confundir mais, pois cada um falou uma cidade diferente como sendo a dona do carnaval MUITO BOM que procurávamos. A única defensora do carnaval de São Lourenço foi uma moça (ponto) que usava uma mini-saia (dois pontos) e tinha cara de sem-vergonha (três e quatro pontos), mas que era muito muito muito muito feia (um ponto a menos pra cada “muito”). O velho dentro de mim resmungou “pronto, só falta o carnaval aqui ser uma merda”. Resolvemos debater com as meninas sobre o fato de ficarmos ou não na cidade, já que não tínhamos onde dormir. “Aliás”, observou um, “são quatro da tarde agora e nós saímos perto da uma para procurar onde ficar. E estamos até agora aqui. Não é melhor ligarmos avisando que não achamos nada?” Concordamos e ligamos para uma das meninas, que só fez um “Humpf” e desligou dizendo que iam procurar algo também.  Quando íamos ficar preocupados, começou na tevê do bar o jogo do São Paulo. Paramos para assistir e pedimos mais uma cerveja gelada como cú de foca.

 

(continua)


Como Descobri que Estou Ficando Velho – Carnaval 2008

17/Julho, 2008

Parte 2 (de 10)

Onde, e com quem, vamos dormir

 

Chegamos em São Lourenço pouquinho depois do meio-dia.. As cervejas já tinham acabado há tempos e o pessoal começou na vodca com suco Del Valle. Outras épocas, eu teria pedido o meu copo também e, bem no estilo inconseqüente jovem de ser, pensaria “vamo qui vamo e daí que ainda não achamos nosso apartamento, e daí se todos nós travássemos à tarde, antes de achar o apartamento? E daí se tivermos que dormir no coreto da praça?” Mas não, apenas olhei todos se entupindo de vodca e fiz careta. O próprio velho.

Rodamos a cidade até achar o hotel onde trabalhava o cara que tinha alugado o apartamento. Nossa amiga tinha conhecido o elemento no carnaval do ano anterior e, é claro, não perdemos tempo para tirar sarro da cara dela:

- Hum… Quer dizer que conheceu no carnaval ano passado, é? Tá durando esse amor de carnaval, hein? – disse um;

- É mesmo. Aposto que veio pra cá só para vê-lo. Ele até arrumou apartamento para ficar perto de você. Que lindo, não? – observou outro.

- Olha, desde já desculpa alguma coisa, não queremos atrapalhar os dois. É só você dizer e nós arrumamos outro lugar para que possa ficar mais a vontade com ele – emendou o terceiro.

- Não é comigo que vocês têm que se preocupar – ela enigmaticamente limitou-se a responder, exatamente no momento em que saía do hotel alguém em nossa direção.

- Gente, eu acho que acabei de entender o que ela quis dizer – balbuciei.

O cara era um pavão. Uma gazela. Uma mariposa. Ou, o que era pior, os três juntos. Na escala mundial de homossexualidade, o cara tava lá em cima, e com louvor. Não me assustaria se tivesse tatuado no cócix “Entre sem bater.” Rindo da nossa cara, ela foi ao encontro dele e ficaram conversando a alguns metros de nós. O suficiente para que não conseguíssemos ouvir o que falavam e nem eles a nós. Foi quando nos entreolhamos e, sem dizer palavra, entendemos a gravidade da situação: alguém ia ter que comer o viado, óbvio.

Corta a cena para semanas antes, nossa amiga no telefone com o pavão:

- Então, queria ir praí no carnaval. Você arruma algum lugar para eu possa ficar com minhas amigas?

- Ai, perua! Amigas? Arrumo não! Traz uns bofes bem lindos pra mim que você fica no melhor lugar de São Lourenço.

- Fechado. Eu conheço o seu gosto e tenho os amigos ideais.

Corta de volta pra gente discutindo quem ia fazer oi trabalho sujo. Nossa amiga continuava lá conversando alguma coisa inaudível e olhava diretamente para nós.

- Nem cogitem a hipótese de eu fazer qualquer coisa, disse eu. Sou o mais velho, não tenho mais idade para esse tipo de sacrifício. Vai você que é o caçula na turma -  e apontei pra outro.

- Por isso mesmo, nem ferrando. Mal começo a viajar com vocês e já passo por isso? Vou ficar traumatizado.

- Êeee, peralá – disse outro quando todos se viraram pra ele. Se for pra fazer isso, prefiro arrumar eu mesmo onde ficar.

- Vamos resolver no palitinho? – outro sugeriu.

Antes que pudéssemos organizar o jogo de azar, chega nossa amiga e, com uma bela limpada “hum hum” na garganta, chama a atenção de todos.

- Então, pessoal, temos um probleminha a resolver no apartamento que vamos ficar.

Engolimos a seco. Olhamos pro viadinho, que olhava de volta para nós, ansioso.

- É que, bem…. – Ela parecia escolher as palavras. É que o apartamento que vamos ficar, ou melhor, íamos ficar, não vai rolar. O dono morreu ontem, dentro do apartamento.

- Aaaaaahhhhhh – respondemos todos, respirando mais aliviados, ao mesmo tempo em que as meninas soltaram um gritinho de horror.

- Ah, é só isso? O cara morreu lá dentro e não poderemos mais dormir lá?

- É sim. O que mais vocês pensaram que fosse?

- Nada, nada. Não pensamos nada.

- Eu é que não quero dormir onde acabou de morrer um cara. Vai que aparece o fantasma dele – disse, séria e preocupada, uma das meninas.

- Ah, se o problema é só esse, fiquem tranqüilas. A gente acha lugar, fácil, fácil.

E saímos para procurar algum imóvel desocupado que pudesse nos acolher. Eu não estava propriamente feliz, esperava chegar e já ter onde descansar. Mas, dos males o menor: ninguém teria que fazer nenhum serviço sujo e, convenhamos, de procurar onde dormir, eu entendo.

 

(continua)


Como Descobri que Estou Ficando Velho – Carnaval 2008

16/Julho, 2008

Parte 1 (de 10)

A ida (quase) sem cerveja

 

Logo de cara, uma confusão interminável para reunir toda a trupe. Encontros e desencontros em estacionamentos de supermercados por várias regiões de São Paulo, vai pra cá, vai pra lá e ninguém se achava. Primeira reclamação do ranzinza de plantão aqui, seis e qualquer coisa da manhã: “Mas que droga, já não me bastava ter acordado de madrugada, agora tenho que ficar indo de um lado pro outro, e bancando o motorista ainda por cima”. Enfim nos reunimos, meu carro ficou na garagem da casa de um amigo e eu fui como passageiro.

Pausa antes de continuar. Primeiro, posicionemos o leitor no tempo e espaço. Era sábado de carnaval, estávamos saindo umas 7 e meia da manhã aqui de São Paulo rumo ao sul de Minas Gerais. Para São Lourenço, mais especificamente. Por “estávamos”, entenda-se dois carros e dez pessoas, animados com a perspectiva de mais um carnaval. Despausa, voltemos à história.

 

Todo mundo dentro dos carros, pegamos a estrada, 4 dias de carnaval pela frente, beber e beijar, o futuro era promissor, tudo é festa, não tem trânsito, vamos parar em algum posto da Dutra para abastecer e aproveitamos e compramos cerveja. E daí que são oito horas da manhã? Sede é tudo, horário é nada, é o que dizem, certo?. Errado. Paramos no posto, saímos sorridentes na direção da loja de conveniência e, como assim, foi baixada uma MP proibindo a venda de bebida alcoólica em rodovias federais no carnaval? Claro que este velho que vos fala na hora começou a praguejar contra o presidente que baixou a Medida Provisória, os Policiais Federais que estavam espertos fiscalizando e o funcionário da loja de conveniência. Tive que esperar até sairmos da Dutra para parar no primeiro boteco que não ficava em beira de estrada pra comprar a cerveja. Enquanto pedia as latinhas, fiquei conversando com o dono do bar e alguns aposentados que estavam tomando seus rabos de galo tranquilamente. Me senti estranhamente à vontade entre aqueles simpáticos velhinhos que estavam gastando a aposentadoria em pinga num boteco imundo, de balcão tosco e ambiente mais tosco ainda, o sol da manhã vindo da rua e iluminando a poeira suspensa e ao fundo um quadro desbotado com a foto do time campeão do Olaria de 87. Sintoma irrefutável de que estava realmente ficando velho. Apesar de toda a afeição ao ambiente, eu ainda tinha um carnaval pela frente. Peguei as cervejas, comentei alguma coisa sobre a festa, eles me responderam “Bons tempos…” olhando para o infinito e botei o pé na estrada de novo. Faltava pouco para São Lourenço e a perspectiva do carnaval animava a todos (já disse isso?). Animava ainda mais às meninas do nosso carro, que pararam de beber cerveja e partiram para a vodca. Estava ficando cada vez melhor essa viagem..

 

(continua)