Depois de um longo período, a saga “Correndo atrás” volta a ser publicada. Para quem perdeu, ou leu e não lembra, os primeiros cinco capítulos dessa “Emocionante história de superação” – Folha da Família Gorniak, “Brilhante! Sensacional e muito engraçada aventura” – Jornal dos Amigos de Gorniak, aqui está
Agora sim, pode passar à continuação.
A Companhia
Domingo cedo, eu estava tomando um café da manhã rico em fibras e em frutas, com leite desnatado e suquinho e coisa e tal quando uma revelação extraordinariamente incrível subitamente me chocou. Não era o fato de eu estar tomando um café da manhã rico em fibras e em frutas, com leite desnatado e suquinho e coisa e tal, tampouco eu estar completando uma semana ininterrupta de saudáveis e emagrecedoras corridas no Ibirapuera. O que me deixou estupefato era que eu estava acordado num domingo de manhã! Sim, há vida no domingo de manhã, então! Pode parecer algo banal, mas depois de anos e anos saindo sábado à noite, o domingo passa a ser só aquele período do dia em que você acorda de tarde de ressaca e está passando o futebol na Globo e vai dormir de noite, ainda de ressaca, com os gols da rodada no Fantástico. Ou seja, você consegue se esquecer que existem as manhãs de domingo. Peguei o carro e rumei para o parque especialmente feliz e contente, pois pela primeira vez teria companhia para as minhas corridas. A Fê (vou usar abreviação para que o nome não seja deduzido), amiga de longa data, ficou sabendo da minha fase atleta e, entusiasta de atividades físicas ao ar livre, se ofereceu para me acompanhar. Ainda estava em dúvida se ela queria ter certeza que eu não estava mentindo ou se queria apenas rir do meu péssimo condicionamento físico, quando encontrei-a na entrada da pista de cooper. O sorriso com que ela me recebeu e o abraço apertado que me deu já fizeram valer à pena levantar da cama cedo. Pela camiseta folgada que usava, percebi que ela continuava imune ao frio.
- Juro que não acreditei que você viria – ela me olhou de cima abaixo, incrédula.
- Vim nem tanto pela corrida, mais pra te ver. – olhei para ela de cima abaixo, tentando não parecer incrédulo. Espantoso como o tempo para ela não fez um estrago sequer, ao contrário, deixou-a ainda mais radiante, ao passo que a mim transformou nessa pessoa fofa.
- E eu por acaso já combinei algo com você e furei? Ela ia responder “Claro, trocentas vezes”, mas preferi interromper.
- Vamos começar a correr?
- Você não vai se alongar, aquecer antes?
- Eu tenho uma quantidade limitada de energia pra gastar. Se eu alongar, canso e não corro. Prefiro aquecer já no meio do exercício.
E saí correndo pela pista de cooper. Meio contrariada, ela não teve muita escolha a não ser me seguir. Descobri esse dia que a coisa rende muito melhor se você não percebe que está correndo e fica batendo papo com outra pessoa. Ficamos conversando e lembramos de encontros memoráveis. Como da primeira vez que saímos, era uma madrugada fria e chuvosa de domingo e eu estava levando-a embora quando estoura o pneu, eu saio na chuva para trocá-lo e descubro que o estepe tinha sido roubado, sabe-se lá quanto tempo antes. Só me restou chamar um guincho pra levar o carro embora e o táxi reserva terminou de leva-la pra casa. Na saída seguinte, pra evitar qualquer imprevisto, combinamos de nos encontrar em algum supermercado, onde ela deixaria o carro. Assim, ficaria mais fácil dela voltar para casa. A noite transcorreu sem problemas até que, quando deixei-a no estacionamento do supermercado, ela foi tirar o carro e pumba!, bateu em outro carro. Aí dá-lhe conversa, faz BO, não faz, ta aqui meu telefone, faz orçamento e me liga e enfim foi todo mundo embora.
- Quando a gente se encontra sempre dá alguma coisa errada né?
- É, ainda bem que por enquanto nada aconteceu.
Isso acendeu uma luz e alerta. “Por enquanto” é uma expressão muito forte. Constatei que no bate papo tínhamos corrido quase o dobro do que eu estava acostumado, e eu sem fazer aquecimento prévio nem nada, melhor não abusar, sugeri pararmos. Aí continuamos conversando, tomamos uma água de coco e decidimos ir embora. “Eu te acompanho até seu carro”, sugeri, afinal eu posso não ter aprendido muitas coisas que meu pai me ensinou, mas cavalheiro eu sou. Estávamos comemorando o fato de terminar aquele dia sem maiores sustos quando, ao chegar no carro dela, cadê o carro? Meu Deus, roubaram meu carro, cadê o carro, ele tava aqui, juro que deixei aqui, desapareceu, calma, olha um policiais ali, vamos lá falar com eles. A situação não era tão preocupante porque ela tinha seguro, mas sempre é chato de ter algo roubado, ela deu a placa e as características para os policiais, que passaram um chamado por rádio e prometeram fazer buscas. Em alguns minutos a boa notícia: tinham achado o carro! Fomos de viatura até o local, ali perto, onde outra viatura já esperava. Aparentemente o carro não tinha nada, nenhum sinal de arrombamento ou de que a fechadura havia sido forçada, não levaram o rádio do porta-luvas, nada. Ela agradeceu aliviada aos policiais, com aquele sorriso de amolecer asfalto, entrou rapidamente no carro, fez sinal pra que eu entrasse, ligou o carro e partiu. Nesse meio tempo, eu reparei como aquela rua onde o caro foi “achado” era parecida com a que ele tinha sido “roubado”.
- Você tinha perdido o carro, né?
Ela nem respondeu nada, e eu quase nem consegui parar de rir para me despedir, quando ela chegou onde meu carro estava estacionado.
(continua)
Escrito por Gorniak