Correndo atrás – capítulo 6

14/Julho, 2009

Depois de um longo período, a saga “Correndo atrás” volta a ser publicada. Para quem perdeu, ou leu e não lembra, os primeiros cinco capítulos dessa “Emocionante história de superação” – Folha da Família Gorniak, “Brilhante! Sensacional e muito engraçada aventura” – Jornal dos Amigos de Gorniak, aqui está

parte 1

parte 2

parte 3

parte 4

parte 5

Agora sim, pode passar à continuação.

A Companhia

Domingo cedo, eu estava tomando um café da manhã rico em fibras e em frutas, com leite desnatado e suquinho e coisa e tal quando uma revelação extraordinariamente incrível subitamente me chocou. Não era o fato de eu estar tomando um café da manhã rico em fibras e em frutas, com leite desnatado e suquinho e coisa e tal, tampouco eu estar completando uma semana ininterrupta de saudáveis e emagrecedoras corridas no Ibirapuera. O que me deixou estupefato era que eu estava acordado num domingo de manhã! Sim, há vida no domingo de manhã, então! Pode parecer algo banal, mas depois de anos e anos saindo sábado à noite, o domingo passa a ser só aquele período do dia em que você acorda de tarde de ressaca e está passando o futebol na Globo e vai dormir de noite, ainda de ressaca, com os gols da rodada no Fantástico. Ou seja, você consegue se esquecer que existem as manhãs de domingo. Peguei o carro e rumei para o parque especialmente feliz e contente, pois pela primeira vez teria companhia para as minhas corridas. A Fê (vou usar abreviação para que o nome não seja deduzido), amiga de longa data, ficou sabendo da minha fase atleta e, entusiasta de atividades físicas ao ar livre, se ofereceu para me acompanhar. Ainda estava em dúvida se ela queria ter certeza que eu não estava mentindo ou se queria apenas rir do meu péssimo condicionamento físico, quando encontrei-a na entrada da pista de cooper. O sorriso com que ela me recebeu e o abraço apertado que me deu já fizeram valer à pena levantar da cama cedo. Pela camiseta folgada que usava, percebi que ela continuava imune ao frio.

- Juro que não acreditei que você viria – ela me olhou de cima abaixo, incrédula.

- Vim nem tanto pela corrida, mais pra te ver. – olhei para ela de cima abaixo, tentando não parecer incrédulo. Espantoso como o tempo para ela não fez um estrago sequer, ao contrário, deixou-a ainda mais radiante, ao passo que a mim transformou nessa pessoa fofa.

- E eu por acaso já combinei algo com você e furei? Ela ia responder “Claro, trocentas vezes”, mas preferi interromper.

- Vamos começar a correr?

- Você não vai se alongar, aquecer antes?

- Eu tenho uma quantidade limitada de energia pra gastar. Se eu alongar, canso e não corro. Prefiro aquecer já no meio do exercício.

E saí correndo pela pista de cooper. Meio contrariada, ela não teve muita escolha a não ser me seguir. Descobri esse dia que a coisa rende muito melhor se você não percebe que está correndo e fica batendo papo com outra pessoa. Ficamos conversando e lembramos de encontros memoráveis. Como da primeira vez que saímos, era uma madrugada fria e chuvosa de domingo e eu estava levando-a embora quando estoura o pneu, eu saio na chuva para trocá-lo e descubro que o estepe tinha sido roubado, sabe-se lá quanto tempo antes. Só me restou chamar um guincho pra levar o carro embora e o táxi reserva terminou de leva-la pra casa. Na saída seguinte, pra evitar qualquer imprevisto, combinamos de nos encontrar em algum supermercado, onde ela deixaria o carro. Assim, ficaria mais fácil dela voltar para casa. A noite transcorreu sem problemas até que, quando deixei-a no estacionamento do supermercado, ela foi tirar o carro e pumba!, bateu em outro carro. Aí dá-lhe conversa, faz BO, não faz, ta aqui meu telefone, faz orçamento e me liga e enfim foi todo mundo embora.

- Quando a gente se encontra sempre dá alguma coisa errada né?

- É, ainda bem que por enquanto nada aconteceu.

Isso acendeu uma luz e alerta. “Por enquanto” é uma expressão muito forte. Constatei que no bate papo tínhamos corrido quase o dobro do que eu estava acostumado, e eu sem fazer aquecimento prévio nem nada, melhor não abusar, sugeri pararmos. Aí continuamos conversando, tomamos uma água de coco e decidimos ir embora. “Eu te acompanho até seu carro”, sugeri, afinal eu posso não ter aprendido muitas coisas que meu pai me ensinou, mas cavalheiro eu sou. Estávamos comemorando o fato de terminar aquele dia sem maiores sustos quando, ao chegar no carro dela, cadê o carro? Meu Deus, roubaram meu carro, cadê o carro, ele tava aqui, juro que deixei aqui, desapareceu, calma, olha um policiais ali, vamos lá falar com eles. A situação não era tão preocupante porque ela tinha seguro, mas sempre é chato de ter algo roubado, ela deu a placa e as características para os policiais, que passaram um chamado por rádio e prometeram fazer buscas. Em alguns minutos a boa notícia: tinham achado o carro! Fomos de viatura até o local, ali perto, onde outra viatura já esperava. Aparentemente o carro não tinha nada, nenhum sinal de arrombamento ou de que a fechadura havia sido forçada, não levaram o rádio do porta-luvas, nada. Ela agradeceu aliviada aos policiais, com aquele sorriso de amolecer asfalto, entrou rapidamente no carro, fez sinal pra que eu entrasse, ligou o carro e partiu. Nesse meio tempo, eu reparei como aquela rua onde o caro foi “achado” era parecida com a que ele tinha sido “roubado”.

- Você tinha perdido o carro, né?

Ela nem respondeu nada, e eu quase nem consegui parar de rir para me despedir, quando ela chegou onde meu carro estava estacionado.

(continua)


Correndo atrás – capítulo 5

9/Dezembro, 2008

Mais Motivação

 

“Quem em sã consciência acorda numa segunda-feira de manhã do inverno para ir correr no Ibirapuera?” era o pensamento que não parava de me incomodar, enquanto eu acordava e me preparava, numa segunda-feira de manhã do inverno, para ir correr no Ibirapuera. “Quem faz isso deve ter um motivo muito forte”, continuei raciocinando com meus botões. Os atletas são um bando de viciados em endorfina ou qualquer um daqueles neurotransmissores doidos que dão prazer, por isso se sujeitam a esse tipo de sacrifício. E eu? Estava fazendo isso porque mesmo? Ah, sim, por ela, minha deusa recém-solteira. Se bem que com esse frio todo, ela vale tudo isso? Por ela, já vou ter que fazer regime alimentar. Por ela, também terei que parar com a cerveja e as gandaias noturnas. E, só por causa dela, vou correr (ou me arrastar) dez quilômetros.  Tudo bem, com tudo isso eu consigo lidar. Mas me tirar da cama numa manhãzinha fria é demais. Minha caminha quentinha… Só segui em frente pelo aspecto moral da coisa: seria muita covardia abandonar tudo logo agora no começo. Eu sou um homem ou um bicho-preguiça? A decisão foi por pontos, questão de centésimos, mas o homem venceu. Encarei mais uma vez a pista de cooper do parque e, enquanto tentava bater meu recorde de sete minutos, pensava que o que realmente me faltava era motivação adicional. Alguma coisa que me inspirasse um pouco mais, para garantir que eu fosse em frente com meu plano, fosse qual fosse a intempérie. Depois de completar quase uma volta e meia sem parar, voltei para casa e fiz o óbvio: assisti ao filme “Rocky, um lutador”, aquele primeiro grande sucesso do Stalonne. Pronto, funcionou como mágica. Aquelas cenas do treinamento, aquela trilha sonora, a cena clássica dele subindo as escadarias e comemorando. Aquilo tudo deu uma motivação extra. Eu seria o Rocky e faria de tudo para conseguir ficar a minha Adrielle no final, com a vantagem de não ter a cara toda desfigurada. Empolgado, fui além. Baixei a trilha sonora do filme e coloquei no ipod. E aluguei todos os filmes do Rocky, até o último, com ele velhão semi-acabado. Passei o resto da semana correndo no parque feliz da vida, ouvindo “Eye of the tiger” e dando ganchos no ar. E antes de dormir, eu assistia a um dos filmes. Quando eu dei por mim, já era sábado e eu já havia assistido toda a série. Mas a partir daí, por mais incrível que pareça, eu tinha tomado gosto por essa coisa de correr. Só que era sábado, a prova de fogo. Nada de bar, nada de cerveja, nada daquilo tudo que é essencial ao ser humano. Foi impressionante constatar que, justamente naquele fim-de-semana que você se propõe não sair, acontecem TODAS as festas mais legais do mundo, TODOS os seus amigos arrumam programas imperdíveis que tem sempre uma amiga linda sobrando, e TODAS as mulheres que você passou o ano inteiro chamando para sair resolvem aceitar o seu convite. Eu, que nunca fui muito religioso, imagino ter sentido ali o máximo da tentação do diabo, era a minha provação final. “Não sairás de balada!” era o meu primeiro mandamento, e eu neguei a cerveja gelada e a porção de calabresa muito mais do que três vezes. Resisti bravamente em casa, mesmo com Zorra Total passando na televisão. A única coisa boa era uma amiga, daquelas TODAS que de repente resolvem aceitar o seu convite, se solidarizar comigo e topar encarar uma corrida no Ibirapuera domingo de manhã. Ainda acho que foi mais pela incredulidade de que eu faria isso, algo mais com “essa eu preciso ver” do que qualquer outra coisa, mas estava marcado.

 

(continua)


Correndo atrás – capítulo 4

4/Dezembro, 2008

Começo da preparação

  

Combinamos de começarmos todos a treinar. Meu amigo esportista falou que nós tínhamos que levar a sério, ele não ia entrar na corrida para passar vergonha, se ele achasse que a gente não estava se dedicando ele nem correria. Simplesmente não ia e foda-se. Eu entendi o recado. Ele passou uma rotina de exercícios e de alimentação. A esposa era nutricionista e elaborou uma dieta especialmente para nós. Só pedi que a gente não começasse naquele sábado, e sim no domingo.

- Sabe como é, sábado é dia de feijoada. Se vou ficar dois meses de dieta braba, que eu pelo menos como uma derradeira feijoada antes.

Ele não gostou muito da minha argumentação, mas assentiu. Ele sabia que fosse qual fosse a resposta, eu começaria o regime e os exercícios só no domingo de qualquer jeito.

E naquele dia eu me empanturrei de feijoada. Muito torresmo, muito paio, muita lingüiça, costelinha, carne seca, muito tudo. Caipirinha para abrir e cerveja Original estupidamente gelada para acompanhar. Stanislaw Ponte Preta que dizia que uma feijoada só era completa se houvesse na porta do restaurante uma ambulância esperando pra te levar embora. E minha feijoada foi completa. Ainda não sei muito bem como consegui chegar em casa, mas passei o resto do dia estirado na rede, tal qual uma sucuri depois de comer uma capivara, digerindo aquela quantidade absurda, totalmente desnecessária diga-se de passagem, de comida. Mas eu merecia. Afinal, era o fim dos excessos gastronômicos. O fim da cerveja e da caipirinha. Dali pra frente, só alimentação adequada. Finalmente eu iria aprender o significado das palavras “dieta” e “balanceada”.

Domingo eu acordei cedo, tinha ido dormir cedo, o fim dos excessos significava também o fim das baladas e bares até altas horas. Era inverno, o dia estava frio e cinzento, ninguém em sã consciência se arriscaria a sair, mas o que a gente não faz por mulher, pensei, e me agasalhei pra ir correr no Parque do Ibirapuera. Antes disso, peguei a fita métrica e medi a circunferência do abdômen. Não era possível ser tanto, tornei a medir. Sim, era possível. Isso deprime uma pessoa, sabe? Se ver no espelho barrigudo, é uma coisa. Você vê que está gordo, mas não tem idéia exata de quanto e isso te conforta. Agora, contra números não há argumentos. Você sabe exatamente o quão assustadoramente barrigudo está. Me consolei com o fato de que perderia grande parte daquilo, seria um novo homem, e de quebra conquistaria a mulher dos meus sonhos.Passei também na farmácia para me pesar, queria tomar nota de todas as medidas do antes e ir comparando com a evolução dos exercícios. Eu não sei porque, de novo não acreditei no número que a balança me mostrou. Deve ser o agasalho, pensei. Esse agasalho pesa barbaridade. Tirei o agasalho e quase nada mudou. É o tênis, claro. Esses tênis não estão me ajudando. Tirei os tênis e nadinha mudou. Eu estava realmente gordo. Pior, obeso mórbido. Um balão. Uma chupeta de baleia. Mas de novo me consolei com o fato de que estava no caminho certo para perder tudo aquilo.

Cheguei no Ibirapuera e fui para a pista de cooper. Comecei a correr bem devagarinho e, em pouco tempo, já estava cansado o suficiente para querer parar. Mas a força de vontade não me deixou e eu continuei na minha corrida. Dali a mais algum tempo, a segunda vez que eu pensava em parar, tudo doía, eu bufava feito um gordo que não corre há séculos, o que era bem apropriado, afinal de contas eu era realmente um gordo que não corria há séculos. Mas eu redobrei minha determinação e não parei. Só na terceira vez, quando meu corpo implorava por descanso, é que eu falei “tá bom pro primeiro dia” e parei e desabei num banquinho de cimento. Dei uma olhada no relógio e eu tinha corrido exatos… sete minutos! A situação era, definitivamente, preocupante. Depois de um tempo, dei mais duas voltas na pista só andando e fui para casa. No dia seguinte eu voltaria para tentar bater minha marca de sete minutos.

 

(continua).


Correndo atrás – capítulo 3

2/Dezembro, 2008

A equipe

 

- O que? Você quer correr uma maratona?

Meu amigo me olhava espantado, quase rindo. Já me conhecia há tempo suficiente para saber que eu participar de qualquer atividade física beirava o absurdo. Uma maratona, então, nem se fala.

- Quero. Quer dizer, tecnicamente nós vamos correr uma maratona. Cada um vai correr um pouquinho. Eu sei que você curte essas coisas, por isso estou te chamando. Topa fazer parte da minha equipe nessa prova de revezamento?

- Meu, eu não estou acreditando. Sério mesmo?

- Sério, pára de zoar.

- Mas o que deu em você? Pra que isso? Só pode ter mulher no meio.

- Não, nada a ver. É que daqui a pouco chega o verão, eu quero estar em forma. Vou pra praia e, sabe como é, tirar a camiseta com esse meu físico não ajuda muito.

- Ah, conta outra. Você que nem futebol com a gente joga, vai querer agora se meter com corrida? Alguma coisa tem. Pode falar. É mulher né?

- Ta bom, ta bom, é mulher. Tem uma amiga minha que vai correr e eu quero impressiona-la. É o único jeito que eu tenho de chegar perto dela. O estilo Paulo Butequeiro não adiantou, vamos de estilo Paulo Esportista.

- Hummmm. É por uma boa causa. E eu gosto mesmo de correr, então tudo bem. Mas você vai ter que levar a coisa a sério. Vai ter que treinar duro pra não fazer feio. Deixa ver quem mais eu posso chamar. Tem o Adilson, o Simão, o Pernilongo..

- Na verdade, eu já fiz a equipe. Na hora da inscrição tinha já que dar os nomes, e eu não podia correr o risco de perder o prazo de inscrição e a menina descobrir que era tudo mentira. Então já inscrevi a gente. E sabia que você toparia.

- E quem mais você inscreveu?

- Coloquei sua mulher também. Sei que vocês correm juntos, estão acostumados. E são os únicos que eu conhecia e sabia que topariam pelo esporte.

- Você fez isso sem me consultar?

- Eu sabia que você aceitaria, não faz drama.

- Ta, vá. E falta um. Quem foi o último que você escolheu?

- O Dinho.

Meu amigo desatou a rir.

- O Dinho não vai nem fodendo. Ele é tão ou mais sedentário do que você. É tão ou mais cervejeiro que você. Não é à toa que Dinho é diminutivo de Gordinho. Ele não vai nem fodendo.

- Deixa comigo que ele eu sei como convencer. Ele vai sim.

 

****

 

- Nem fodendo. Não vou nem fodendo – falou o Dinho. Que maluquice é essa? Que que deu em você agora? É por causa de mulher né? Só pode ser por causa de mulher.

Uma coisa eu tenho que admitir: meus amigos me conheciam bem. Mas, em contrapartida, eu também os conhecia muito bem. Foi por isso que eu mencionei o assunto da corrida quando estávamos no computador. Quando o orkut estava aberto. Tudo maquiavelicamente planejado. Ele não escaparia.

- Primeiro, eu não te dei opção. Você vai correr essa prova comigo e pronto. Segundo, é por causa de mulher sim. Essa aqui ó. Dá uma olhada. – e abri o álbum de fotos do orkut da menina.

- Caramba! Agora entendi! A menina é linda! Por ela vale realmente à pena correr dez quilômetros.

- Mas o melhor você ainda não viu. Olha essa foto aqui.

Na tela apareceu uma foto com nada menos do que seis mulheres juntas, uma mais bonita do que a outra. Parecia staff de comercial de cerveja.

- Essa é a equipe dela. Não sei exatamente quais dessas vão correr, mas elas estarão lá. E já está tudo combinado. Vamos treinar juntos, correr juntos e depois parar num boteco todo mundo pra comemorar. Você não vai deixar essa oportunidade passar né? Olha só. Um monte de gostosa e nós dois no meio. É a nossa cara. Fechado? Vamos correr atrás delas?

Para ser sincero eu não fazia a menor idéia de quem seriam as amigas que iam correr junto com a minha musa, mas meu amigo não precisava saber disso. Mulher bonita só anda com mulher bonita. Ou seja, se as corredoras não fossem aquelas, seriam tão bonitas quanto aquelas.

- Ô rapaz! Claro que eu corro com você! Amigo é pra essas coisas né? Quando começamos a treinar, todos nós?

Pronto, a equipe estava formada. Agora vinha a parte complicada. Conseguir condicionamento para agüentar dez quilômetros sem fazer feio.

 

(continua)


Correndo atrás – capítulo 2

28/Novembro, 2008

A oportunidade

 

Dias se passaram e eu ainda pensando como eu poderia rever a mulher dos meus sonhos, que agora estava solteira, sem dar a entender que queria desesperadamente agarrá-la. E precisava ser um encontro em que tivesse um tempo suficientemente hábil para mostrar que eu sou o homem da vida dela. Numa dessas tardes chuvosas, ela inesperadamente surge no Messenger. Abre parênteses: o Messenger é o paraíso do xaveco para os redatores, por motivos óbvios. Fecha parênteses. Sabendo que com o Messenger eu tinha uma poderosa arma em mãos e que sabia usá-la muito bem, parti pra cima.

Conversa vai, piada vem, gracejo vai, amenidades vêm, ela escreve:

“Minhas amigas são loucas. Vão participar daquela corrida do Pão de Açúcar e me convenceram a participar junto.”

“A maratona de revezamento, agora no fim de setembro?”

“É, essa mesma. São 42km de corrida. Quero ver um bando de sedentária correr 10 quilômetros cada.”

Pausa na conversa via msn. Eu com meus botões: ela disse mesmo que vai correr? Ela acabou de me falar que vai participar da corrida e que não aguenta os 10 quilômetros? E, se eu bem entendi, ela disse “amigas”? Heureka! Essa é a chance que eu precisava. Volto à conversa:

“Não se preocupa. Não é tão difícil assim completar. Eu que não sou esportista dou conta.” E, sub-repticiamente (bonita palavra né?), afirmei: “Meus amigos e eu até já nos inscrevemos.”

“Jura? Você também vai correr?”

Bom, agora já era tarde, a mentira estava contada, não dava pra voltar atrás. “Claro. Não sou esportista fanático mas gosto dessas coisas. Vou correr a Nike 10k também, como preparação.”

“Nossa! Jura? Que coragem. Eu não sabia que você era assim.”

“É, eu sou um cervejeiro esportista, está pensando o que? Vamos fazer o seguinte: corremos juntos a maratona e depois paramos em algum bar e para repor a cerveja perdida, que ninguém é de ferro. O que que você acha?”

“Boa, pode ser sim. Quero só ver…”

“Estamos fechados. Fica tranqüila que é moleza. Se eu consigo, você consegue também.”

E o papo continuou indefinidamente, enquanto eu entrava no site da corrida, fazia minha inscrição, imprimia o boleto, entrava no site do banco e fazia o pagamento da taxa de inscrição.

Pronto, eu era oficialmente um participante da 16ª Maratona de Revezamento do Pão de Açúcar. Era a chance perfeita para conseguir conquistar a menina, e ainda passar por um cervejeiro-algo-saudável, um sedentário-mas-nem-tanto. Eu só tinha que achar 3 amigos que topassem encarar essa comigo e uns dois meses e meio  para emagrecer e recuperar meu condicionamento físico que desapareceu há anos, de forma a conseguir correr 10 quilômetros. Moleza.

 

(continua)


Correndo Atrás – parte 1

26/Novembro, 2008

A vítima

 

Sabe aquela menina linda? Aliás, linda e simpática? Aliás, linda, simpática e divertida e gostosa e que ri da suas piadas e que faz piadas? Em resumo, é aquela mulher que você quer mostrar pra família, para os amigos e até para o motorista do táxi que nunca viu antes e falar “Tá vendo? Tá comigo!”, batendo no peito orgulhoso. Então, eu conheço uma assim. E, quando eu conheci, numa festa do amigo do amigo do amigo, ela era tudo isso e mais um pouco. Ficamos conversando a noite inteira e eu não conseguia ver um defeito nela, até que o defeito apareceu, e chamava Márcio. Porque toda mulher realmente interessante sempre tem namorado? No fim das contas, acabamos trocando telefones e msn, por motivos puramente profissionais, claro, pois ela era modelo e eu “faço muitos eventos e castings, posso te chamar” – prometi.

Aí o tempo passou, nunca mais falei com ela, sem entretanto jamais perdê-la de vista, seguindo um dos sábios ensinamentos do meu avô, o velho Stan.

Pausa na narração. Corta pro início de uma recordação do fundo do baú de recordações Gorniak. Lembro como se fosse hoje: eu estava empenhado em destruir uma fila ordenada de formigas que passava pelo jardim, e ele estava sentado na sua velha cadeira, pitando seu velho cachimbo e olhando o firmamento, quando virou para mim e, depois de uma pequena tossida, falou “Sabe, meu neto, você jamais deve mexer com mulher compromissada, afinal alguém já chegou antes de você. Mas nem por isso você deve deixar de manter contato com ela. Fique sempre à espreita, pois um dia ela fica solteira, e aí você pode oferecer o seu ombro”. Não entendi porque ele me disse aquilo naquele momento, muito menos o que realmente ele quis dizer. Hoje eu agradeço àquelas sábias palavras. Fim da lembrança, fecha o baú..Volta a narração.

Eis que dias atrás descubro que ela havia ficado solteira. Na hora liguei falando “oi, quanto tempo, nunca mais nos falamos”, e todo aquele “blá blá blá, blá blá blá, whiskas sachet” característico de quem está enrolando para chegar ao assunto principal. Até que enfim eu soltei o indefectível “E ae, vamo dá um role, gata?” de uma forma mais bonitinha, claro, mas basicamente com esse significado. Ela deu uma resposta tipo “Nem fodendo, que saco esse monte de gente me chamando pra sair!”.de uma forma mais bonitinha, claro, mas basicamente com esse significado. Eu entendi o recado, realmente devia ter um monte de homem atrás dela.  Mas eu não desisti, ainda haveria de conseguir sair com ela, só precisava da abordagem certa.

 

(continua)