Vamo ali?

17/agosto, 2009

Os dois conversam no bar. Ela acaba de chegar de Florianópolis para um congresso em São Paulo. Ele, mais do que rapidamente, se ofereceu para entretê-la pela cidade.

- Estranho ninguém fumando.

- É, nova lei, multa pesada, pessoal tá respeitando mesmo. Pra fumar, só saindo ali pra rua.

- Poxa, mas é tão chato. Sei que é um vício besta e tal, mas sempre que tem álcool eu curto dar umas tragadinhas.

- É, incomoda mesmo. O pior é que, em alguns lugares, se sair na rua até corre o risco de assalto, sei lá.

- Mas e aí, como faz? Ninguém fuma?

- Bom, o que temos feito é ir em motel. Lá é o único local fechado que pode fumar.

- Não acredito, jura?

- Juro. Mesmo porque tem bebida, tem música e dá pra fumar. E não precisa necessariamente rolar sacanagem.

- Você tá falando sério?

- Ô. Virou até piada a expressão “levar fumo”. Agora o pessoal vai no motel e só usa no sentido literal mesmo.

- Você tá tirando com a  minha cara.

- Tô não, se quiser eu te mostro. Tem um aqui pertinho bem legal.

Ela olha desconfiada. Ele tira um maço do bolso e estica para ela.

- Vamos? Não há nada que podemos fazer aqui que não podemos fazer lá. E lá tem cigarro.

- Você tá de papinho, mas gostei da ideia. Não que vá rolar nada, que fique bem claro. Ouviu? Nada de graça.

- Claro, claro, nem pensei nisso.

Três horas depois, os dois estão deitados na cama, ela pega um cigarro do maço que ele ofereceu, puxa um e acende.

- Nem vou te oferecer porque sei que você não fuma.

- Mas você sabia?

- Claro. Ou você acha que essa conversa de “vamo ali” ia enganar alguém?


Cronicurtas

23/setembro, 2008

3 irmãs

Esta não aconteceu comigo, e eu não sei nada sobre relacôes duradouras homem-mulher. Entretanto, não pude deixar de ouvir o diálogo e aplaudir silenciosamente um gênio do relacionamento harmonioso.

Eu, almoçando tranquilamente, na mesa ao lado um casal discute sobre a novela “Três irmãs” e suas respectivas protagonistas, Cláudia Abreu, Giovana Antoneli e Carolina Dieckman.

Ela: Amor, qual das três você acha mais bonita?

Ele: Você, claro.

Ela: Não, sério. Estou falando das três. Qual a mais bonita.

Ele: Ah, entre as três? Hum… você.

Ela: Ah, pára vai. Você só tá falando isso porque gosta de mim.

É claro que ele está sendo simático, e não sincero, minha querida. Sinceridade seria ele dizer “Olha, na verdade, as três são melhores que você, se qualquer uma desse bola eu caia dentro fácil. Entretanto, não sou famoso, ou rico, tampouco bonito, então jamais terei essa chance. Logo, tenho que me contentar com você.” Mas não, ele foi extremamente gentil (e inteligente) em dizer que prefere a mulher, e mesmo assim, ela continua insistindo para ouvir a verdade. Meus pensamentos foram interrompidos pela resposta final dele, que atirou sem nem piscar, com toda a convicção do mundo.

-Sim, é claro que eu gosto de você, mas eu disse isso porque eu realmente acho você mais bonita do que as três. Esse seu sorriso, assim, ninguém tem.

Ela sorriu realizada. Imediatamente eu peguei meu bloquinho de anotações e copiei o diálogo. Viver é aprender e, senhoras e senhores, eu tinha ali, ao meu lado, um mestre.


Cronicurtas

22/setembro, 2008

Um dia de mal-humor

Eu me assombro com a minha capacidade de ser idiota. Como é que eu posso ser às vezes tão estúpido? Tenho uma mania de corrigir o português (principalmente escrito) dos outros. Desculpa, sei que muita gente não gosta, mas é involuntário, coisa de redator. É quase tão forte quanto fazer uma piada, sem medir as consequências. Deu chance, tiro sarro e pronto. Escreveu errado, corrijo e pronto. Simples assim.

Hoje a chefa escreveu no msn “mal-humor total”. Escrevi para ela que o certo era “mau-humor”, pois o contrário de bem é mal, e de bom é mau. Logo, se é bom-humor, então o certo é mau-humor. Pra que que eu fui abrir a minha boca e mexer com alguém de tpm numa segunda-feira? Tomei uma olhada daquelas, e ouvi tanto sabão, que agora eu estou plenamente convencido que o mal-humor é dela e tá certíssimo assim, com “l”. Quem sou eu pra afirmar o contrário?


08/08/08

8/agosto, 2008

08/08/08. Acordei às 08:08. Pensei “Hum…” e voltei a dormir. É sempre bom participar de eventos numerológicos relevantes.

 

08/08/08. Deve ter algum significado tanto 8. Algo com os pedaços de uma pizza, talvez. Ta vendo? Provado que pizza, a comida dos publicitários, é mística.

 

08/08/08. Tanto 8 assim me deu uma doce lembrança: meu autorama, que tinha traçado de 8. Realmente é dia místico, dia de se retornar à infância.

 

08/08/08. Será que é um sinal? Tome 8 doses de whisky 8 anos após as 8? Bom, não custa tentar.

 

No dia seguinte, acordei sem lembrar como tinha terminado o dia oito do oito do oito.
E com uma puta dor de cabeça. De mágico, nada.


Cronicurtas

3/julho, 2008

Crônicas de bolso, para serem lidas em dois minutos.

Pimenta 2

 

Depois de morder uma pimenta fortíssima, enfim o fogo que acabava com a minha boca passou. Mas só para ficar um pouco pior e descer garganta abaixo. E, pior, instalar-se definitivamente no estômago. Passei na farmácia e o farmacêutico de plantão me indicou pastilhas mastigáveis sabor papaia com cassis. Enfiei logo duas na boca e, ao mastigar, fiquei em dúvida o que era melhor: continuar com a asia ou continuar mastigando aquilo. Só pra garantir, mandei mais duas pra boca e minutos depois a queimação realmente passou. Mas, seguindo a lógica, comecei a pensar no caminho que essa pimenta faria. E me lembrei de um velho comercial da skol, onde um cara com um quadrado na garganta vai ao médico e, tomando skol, desentala o quadrado. O médico depois aconselha:

- Vai doer um pouco para sair.

 


Cronicurtas

30/junho, 2008

Crônicas de bolso, para serem lidas em dois minutos.

 

Pimenta 1

 

Não gosto de pimenta e não como normalmente. Só abro exceção para a pimentinha cambuci, que bem refogada é uma delícia. Eis que outro dia, no almoço, me deparo com um pote de pimentinhas cambuci em conserva. Adoro conserva: batatinha, cebolinha… Então não tive dúvida e meti a cambuci-em-conserva no prato. Na primeira mordida, a pimenta incendiou tudo. Me senti o próprio pica-pau ao comer pimenta, soltando labareda. A língua ficou enorme, não cabia na boca, que salivava loucamente. Tudo ardia e meus olhos começaram a lacrimejar. Fui até o banheiro e comecei a lavr desesperadamente a boca. Nem assim a queimação parava. Senti vontade de tirar minha meia e enfiar na boca, para ver se aliviava a sensação de brasa. Voltei à mesa e, depois de muita alface e outros legumes ricos em água, a ardência maneirou. Mas o pior ainda estava por vir.

(continua)


Cronicurtas

25/junho, 2008

Crônicas de bolso, para serem lidas em dois minutos.

 

 

Silêncio

 

Em uma das agências em que sou free-lancer, fico em uma sala onde longe da criação, onde fica, também ocasionalmente, o revisor. Estrategicamente longe da criação, a sala evita todo o barulho e confusão característicos de uma criação publicitária, já que o revisor precisa de silêncio para se concentrar. É claro que quando estou sozinho, passo o dia ouvindo música. Até essa semana.

Chegou na agência um especialista em marcas, brand manager, ou como quiser chamar. E ele, após passar alguns dias trabalhando ao lado da criação, reclamou do barulho e disse que precisava de silêncio para se concentrar. Foi imediatamente alocado na minha sala. Resultado: perdi meu som. Agora passo o dia em um silêncio quase absoluto, só quebrado pelo tec tec tec do meu teclado. É tão silencioso… tão tranquilo… que me dá um puta sono. O consumo de café aumentou absurdamente. Culpa do tec tec tec.


Cronicurtas

22/junho, 2008

 

Crônicas de bolso, para serem lidas em dois minutos.

 

A burra

 

Eu estava sozinho na sala, escrevendo no computador, de costas para a porta. Ouço um barulho atrás de mim e é uma das funcionárias, entrando pé-ante-pé.

- Ah, que droga! Queria te dar um susto!

- Não por isso… Para eu me assustar, só te olhando já basta – emendei. Afinal de contas, não importa se ela é bonita ou não, a piada não podia ser perdida. Esperei pela retaliação indignada da menina.

- O que? Quer dizer que você está me chamando de burra?

É… melhor que não tivesse respondido nada.


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