Encontro às escuras – Parte 6 (de 6)

27/Junho, 2008

Você começa a ficar encucado, já que o tempo passa e ninguém aparece.. Se elas já estavam chegando, porque até agora não apareceram? Aí você se toca que quando falou com ela no celular, deu sua localização exata e ainda falou quem era você. E se elas passaram de carro antes, viram você sentado sozinho e não gostaram e foram embora? Puta merda, agora é que você se dá conta que passou a noite analisando as mulheres que via e nem passou pela sua cabeça que as duas podem ter feito exatamente a mesma coisa com você. E aí você se desespera, porque você sabe que não é tudo isso. Para elas olharem e torcerem o nariz não é nada difícil. O garçom parece que vê o seu semblante de abandono e pensa consigo: “Não falei? Fracassado.” Você tenta se consolar repetindo que não é possível que tenha sido isso, elas não iam ser tão más. Yá certo que você não é lá grandes coisas, mas não é de se jogar fora. Tem um bom papo, é engraçado. Mas isso elas não tinham como saber só de olhar. Putz, é bem capaz mesmo que elas tenham visto, não tenham gostado e foram tomar cerveja as duas em outro lugar. Você começa a vasculhar o celular em busca do número delas. Ligar para saber o que houve e o porquê da demora é a melhor coisa a se fazer. Nisso você ouve:

- Oi, chegamos.

Você levanta o olho e vê duas mulheres sorrindo para você. Junto com o sorriso, vem o perfume suave de uma delas. A combinação sorriso/perfume te acerta em cheio.  Você se levanta e puxa uma cadeira para cada uma delas sentar. O garçom passa e olha com uma cara de “nosinhora, e não é que ele não estava mentindo?”.Elas sentam e você esquece toda a expectativa que passou naquela mesa, esperando-as. Agora elas estão ali, do jeitinho que você quer. Agora é com você. Você mentalmente bate no peito e fala “Deixa comigo. Daqui pra frente, eu resolvo”. E começa a conversa.

Mas isso já é uma outra história.


Encontro às escuras – Parte 5 (de 6)

25/Junho, 2008

 

Você desliga o telefone e já se arruma. Passa a mão no cabelo, ajeita a camisa e senta reto na cadeira. Começa a tomar cerveja fazendo pose de educado, até dá uma enxugada na mesa cm guardanapo. Tudo para parecer limpinho, afinal elas estão chegando.

É claro que começa a dar vontade de ir no banheiro. Você já bebeu cerveja suficiente e ela quer sair, mas você não pode abandonar a mesa. E se elas chegarem e não o virem, o que pode acontecer? Falando nelas, olha que maravilha aquelas duas chegando. “Por favor Senhor, será que podia ser essas? Eu juro que se forem elas eu me comporto e não olho mais para mulher nenhuma hoje.”  - você mentalmente suplica. Você nunca fica sabendo se Ele estava ocupado com alguma coisa mais importante naquele momento ou só te ignorou mesmo, mas o fato é que as desconhecidas do encontro às escuras não eram as duas que você pediu.

Esperando o tempo passar, você começa a observar as mesas no entorno. Aquela mesa ali tem um japonês muito feio, minha nossa senhora. Aí você se pergunta qual a diferença entre você e aquele japonês muito feio. A resposta é óbvia. Ele, apesar de feio, está com mulher na mesa e você está sozinho. Ô droga, viu. Até japonês feio está melhor do que você.


Encontro às escuras – Parte 4 (de 6)

24/Junho, 2008

 

Você na verdade até que tenta não pensar na hipótese delas serem feias, mas esse fato sempre volta a pauta quando você vê uma dupla de mulheres feias como aquelas ali vindo. Não há como não se perguntar “Será que são elas?”. Mas aí você se lembra que quando elas chegarem ao bar vão te ligar. E seu celular está um cima da mesa quietinho. Nessa exato segundo seu celular toca. Por impulso, você olha para as feias e uma delas está sim com um celular colado à orelha. Você pega seu aparelho e vê que são elas ligando. Seu coração pára de bater. “Fodeu”, você pensa. “Elas são feias mesmo.” Você engole seco e atende, já que não há como disfarçar, elas estão logo ali.

- Alô – fala com a voz sumindo.

- Oi, tudo bem? Sou eu, a fulana, liguei pra avisar que estamos chegando. Não sai daí não hein?

- Estão chegando? Como assim, onde vocês estão?

- Estamos pertinho. Daqui a alguns minutos a gente chega para estacionar o carro.

Seu coração volta a bater e você respira aliviado quando vê que a feia com o celular passa reto. Realmente não são elas.

- Jóia, estou aqui esperando vocês. Estou na calçada, bem na entrada do bar, de camisa azul.

- Perfeito. Estamos chegando.

(continua)


Encontro às escuras – Parte 3 (de 6)

22/Junho, 2008

 

Depois do susto de quase ter duas mocréias na sua mesa, a ficha cai. Você se dá conta de que a possibilidade das meninas serem feias é real. E se elas forem feias mesmo, o que fazer? Se forem só feias, não há problemas, você só chama o garçom, pede um whisky triplo, vira como se fosse guaraná champagne e pronto, tudo resolvido. Agora, se elas forem MUITO feias, daquelas que nem whisky resolve, então a saída é você ser simpático, conversar agradavelmente enquanto termina a sua cerveja e, finda a garrafa, fingir que seu celular tocou, atendê-lo e falar alto e em tom sério:

- Oi. Não! Jura? Quando foi isso? E precisam de alguma coisa? Peraí que estou indo já praí. Beijo. To chegando. Fica calma. Beijo.

Aí pede mil desculpas, fala que surgiu um imprevisto horrível e vai embora. Com sorte, nem a conta você paga.

 Mas você afasta esse pensamento e se agarra à lembrança de que seu amigo é realmente seu amigo, e sabe do que você gosta e do que você não gosta. Ele não é tão sacana a ponto de te apresentar baranga, ou teria avisado de antemão, para você se preparar alcoolicamente. (Sim, porque não é por ser horrenda que você não pega. Pega mas não conta pra ninguém, claro. Você só precisa se preparar melhor). E termina concluindo que o seu amigo não pegaria um dragão. Logo, a amiga dela não pode ser dragão também. Otimismo acima de tudo. E aí você pára de pensar nisso.

(continua)


Encontro às escuras – Parte 2 (de 6)

13/Junho, 2008

Aí é que começa a parte mais divertida de um encontro às escuras. Você não conhece as meninas, só sabe que são uma loira e uma morena, nem novinhas nem coroas, e que estão para chegar. Então você passa a olhar para todas as mulheres que aparecem e analisar uma a uma:

“Nossa, essas com certeza não podem ser. Olha só a cara daquela, parece minha professora de inglês da sexta série.”

Ou então:

“Bem que podiam ser essas… Por favor, sejam essas. Senta aqui, olha aqui, sou eu quem vocês procuram” Mas infelizmente não são.

Ou então:

“Pelamordedeus, que não sejam essas… Por favor não, Senhor… Eu faço promessa, mas manda elas embora. Que passem direto, não podem ser elas”. E elas passam direto, para o seu alívio.