Saí do banheiro e, no meio do caminho até a minha mesa, estava sentada ela, a minha musa morena, daquelas Helenas que fazem você entender o porquê de ter havido a Guerra de Tróia. Linda desse jeito, era o exato oposto do bar em que estávamos, um boteco com B maiúsculo, daqueles que têm caixas de cerveja no caminho para o banheiro e que servem pinga com carangueijo dentro. O que ela estava fazendo ali, sozinha, em uma noite chuvosa de sábado eu já tinha deixado de tentar entender há tempos, era melhor ficar quieto e agradecer a Deus e torcer para que Ele não percebesse a anomalia. Lembrei de uma amiga que reclamava que não podia ir beber sozinha num bar que sempre achavam que ela estava ali procurando companhia e aparecia um babaca pra encher o saco. Pode ser mas, desculpe minha querida amiga, é mais forte que eu e agora eu seria esse babaca. Definitivamente, eu ia seguir o conselho do Almodovar e iria falar com ela. Não fazia nem ideia do que, aliás ainda bem que estávamos no começo do ano, porque senão eu provavelmente falaria algo estúpido como “setembro chove”, aproveitando o tempo lá fora. Fui pensando nesse tipo de bobagem enquanto me aproximava dela, para não perceber o que eu estava realmente fazendo, que era me aproximar dela e, quando vi, já estava em cima. Ou melhor, do lado da mesa da menina. Melhor assim, agir de impulso, sem pensar muito, e torcer para o que quer que você fale agrade a audiência:
- Oi.
Ela levantou os olhos da apostila e me encarou. Sério, ninguém está preparado para um olhar como aquele. Eu fiquei sem reação. Paralisado pelo olhar. Retiro o que eu disse sobre Vênus de Milo ou Helena de Tróia. Ela era a medusa. A medusa mais linda que poderia existir em qualquer lugar, e um cabelo preto, escorrido e brilhante ao invés de cobras, mas o efeito era o mesmo. Lutei para falar algo coerente:
- Éimpressãominhouvocêstáestudando?
- Oi?
Respirei fundo. Parei de olhar pros olhos dela. Ajudou bastante:
- É impressão minha ou você está estudando? Porque, se está, você está no nível maximo de pessoa que parece ser interessante. Não é todo mundo que vem estudar num bar.
Ela sorriu (ela sorriu!) e mostrou a capa da apostila rosa:
- É, história da arte.
- Mas está em espanhol.
- Vou prestar vestibular pra fotografia lá na Argentina. A prova é logo depois do carnaval e ainda tenho um montão de coisa para ler.
Bom, o corpo fala, e ela também. Apesar de ser simpática, não fechou a apostila e frisou que tem muito a estudar daqui até o carnaval. Ou seja, se eu forçar a barra, seguramente não terei chance nenhuma de continuar o papo. O melhor é deixar no ar um convite e contar com a sorte, a boa vontade dela e, principalmene, com Ele, que agora eu tenho certeza que existe e olha por mim:
- Olha, hoje é um sábado a noite, você merece relaxar. Estou sentado na mesa ali atrás e, se quiser bater um papo e se distrair um pouco, faço questão de te pagar uma cerveja.
- Obrigada. Já estou acabando aqui, e minha cerveja também. Quando terminar eu te chamo.
- Perfeito!
Fui pra minha mesa saltitando de felicidade, pensando com meus botões “Obrigado Senhor pela graça alcançada, mesmo que ela não se chame Graça”. Sentei na minha mesa e o futebol tinha sido substituído por Duro de Matar 4, que até que seviu de boa distração, evitando que eu olhasse para minha medusa musa morena a cada dois segundos enquanto ela estudava..
Terminei a primeira cerveja sozinho e já estava indo para a segunda, começando a duvidar da simpatia dela, quando ela subitamente fecha a apostila e me faz um sinal de “vem cá”, que eu vi com o rabo de olho. Fingi estar concentrado no filme e só “percebi” que ela tinha acabado um tempinho depois, claro. Ela não precisava sonhar com o meu desespero naquela noite.
- Terminou?
- Sim.
Então eis que eu, mais destemido que John McClane, mais galã que Bruce Willis, sento-me à mesa com ela, que sim, era simpática e tinha um sorriso tão hipnotizante quanto os olhos. Daí pra frente, já é outra história. O garçom do bar até hoje me cumprimenta quando me vê. E eu, até hoje louvo o Senhor e espalho a Sua palavra: Ele existe.
Escrito por Gorniak