Epifania – parte 4

9/novembro, 2010

Saí do banheiro e, no meio do caminho até a minha mesa, estava sentada ela, a minha musa morena, daquelas Helenas que fazem você entender o porquê de ter havido a Guerra de Tróia. Linda desse jeito, era o exato oposto do bar em que estávamos, um boteco com B maiúsculo, daqueles que têm caixas de cerveja no caminho para o banheiro e que servem pinga com carangueijo dentro. O que ela estava fazendo ali, sozinha, em uma noite chuvosa de sábado eu já tinha deixado de tentar entender há tempos, era melhor ficar quieto e agradecer a Deus e torcer para que Ele não percebesse a anomalia. Lembrei de uma amiga que reclamava que não podia ir beber sozinha num bar que sempre achavam que ela estava ali procurando companhia e aparecia um babaca pra encher o saco. Pode ser mas, desculpe minha querida amiga, é mais forte que eu e agora eu seria esse babaca. Definitivamente, eu ia seguir o conselho do Almodovar e iria falar com ela. Não fazia nem ideia do que, aliás ainda bem que estávamos no começo do ano, porque senão eu provavelmente falaria algo estúpido como “setembro chove”, aproveitando o tempo lá fora. Fui pensando nesse tipo de bobagem enquanto me aproximava dela, para não perceber o que eu estava realmente fazendo, que era me aproximar dela e, quando vi, já estava em cima. Ou melhor, do lado da mesa da menina. Melhor assim, agir de impulso, sem pensar muito, e torcer para o que quer que você fale agrade a audiência:

- Oi.

Ela levantou os olhos da apostila e me encarou. Sério, ninguém está preparado para um olhar como aquele. Eu fiquei sem reação. Paralisado pelo olhar. Retiro o que eu disse sobre Vênus de Milo ou Helena de Tróia. Ela era a medusa. A medusa mais linda que poderia existir em qualquer lugar, e um cabelo preto, escorrido e brilhante ao invés de cobras, mas o efeito era o mesmo. Lutei para falar algo coerente:

- Éimpressãominhouvocêstáestudando?

- Oi?

Respirei fundo. Parei de olhar pros olhos dela. Ajudou bastante:

- É impressão minha ou você está estudando? Porque, se está, você está no nível maximo de pessoa que parece ser interessante. Não é todo mundo que vem estudar num bar.

Ela sorriu (ela sorriu!) e mostrou a capa da apostila rosa:

- É, história da arte.

- Mas está em espanhol.

- Vou prestar vestibular pra fotografia lá na Argentina. A prova é logo depois do carnaval e ainda tenho um montão de coisa para ler.

Bom, o corpo fala, e ela também. Apesar de ser simpática, não fechou a apostila e frisou que tem muito a estudar daqui até o carnaval. Ou seja, se eu forçar a barra, seguramente não terei chance nenhuma de continuar o papo. O melhor é deixar no ar um convite e contar com a sorte, a boa vontade dela e, principalmene, com Ele, que agora eu tenho certeza que existe e olha por mim:

- Olha, hoje é um sábado a noite, você merece relaxar. Estou sentado na mesa ali atrás e, se quiser bater um papo e se distrair um pouco, faço questão de te pagar uma cerveja.

- Obrigada. Já estou acabando aqui, e minha cerveja também. Quando terminar eu te chamo.

- Perfeito!

Fui pra minha mesa saltitando de felicidade, pensando com meus botões “Obrigado Senhor pela graça alcançada, mesmo que ela não se chame Graça”. Sentei na minha mesa e o futebol tinha sido substituído por Duro de Matar 4, que até que seviu de boa distração, evitando que eu olhasse para minha medusa musa morena a cada dois segundos enquanto ela estudava..

Terminei a primeira cerveja sozinho e já estava indo para a segunda, começando a duvidar da simpatia dela, quando ela subitamente fecha a apostila e me faz um sinal de “vem cá”, que eu vi com o rabo de olho. Fingi estar concentrado no filme e só “percebi” que ela tinha acabado um tempinho depois, claro. Ela não precisava sonhar com o meu desespero naquela noite.

- Terminou?

- Sim.

Então eis que eu, mais destemido que John McClane, mais galã que Bruce Willis, sento-me à mesa com ela, que sim, era simpática e tinha um sorriso tão hipnotizante quanto os olhos. Daí pra frente, já é outra história. O garçom do bar até hoje me cumprimenta quando me vê. E eu, até hoje  louvo o Senhor e espalho a Sua palavra: Ele existe.


Epifania – parte 3

6/novembro, 2010

Aquela menina sentada no fundo de uma bar gorduroso, lendo compenetrada uma apostila rosa, em pleno sábado a noite chuvoso, não era na verdade uma menina. Era uma epifania, a prova concreta de que Deus existia e era bom. Ela era também a minha última (e única) chance de transformar aquele meu dia completamente improdutivo em algo interessante. De derrotado-que-não-tem-amigos-nem-dinheiro-e-bebe-sozinho-no-bar eu poderia me tornar o fervoroso-e-temente-a-Deus-que-encontrou-a-menina-mais-bonita-no-lugar-mais-improvável. Eu só precisava ir lá falar com ela. Então respirei fundo, tomei algma coragem, “ou vai ou racha” e levantei da mesa.

Caminhei meio vacilante em direção à mesa dela, cérebro brigando com os pés, vai-não-vou, e quando cheguei perto ela coincidentemente parou de ler a apostila rosa e tomou um gole da cerveja, olhando em volta. E adivinha quem estava olhando pra ela? Nossos olhos se cruzaram, eu estremeci de cima a baixo e passei direto pela mesa, indo para o banheiro. Ela, como se nada tivesse acontecido (mesmo porque nada aconteceu) tornou a baixar os olhos na sua leitura.

No banheiro me senti o maior dos idiotas, o próprio adolescente da oitava série que está apaixonado pela menina mais bonita da sala (eu realmente sei como é, creia-me). Passei uns bons minutos me encarando no espelho e me xingando “seu fraco, seu mole, seu banana, seu bolha” até começar outra reunião do conselho interno da minha mente: a consciência, o diabinho, o anjinho, o inconsequente e todas as demais vozes que povoam minha cabeça estavam presentes, todas elas discutindo os prós e contras de ir falar com a menina. Até que dei um basta naquilo tudo, estava pateticamente ridículo e além do mais o banheiro imundo dum boteco de quinta não era lugar pra esse tipo de reflexão. O máximo de sabedoria ali estava nas paredes dos sanitários, abri o primeiro ára ver se tinha algo inspirador e li “Jesus está voltando”, respondido logo abaixo por outra caligrafia “Já estou terminando e devolvo o lugar pra Ele.” Realmente não ajudou muito, eu continuava morrendo de medo de sair daquele banheiro pra falar com a menina.

Até que apelei e me dei o ippon do convencimento, o fattality da argumentação, o golpe supremo que só uso comigo mesmo nos momentos mais desesperadores de dúvida, quando não há mais alternativa: “Escutaqui, Paulo, se você não for falar com essa menina, que história vai contar pros seus netos?” É mesmo. Olha a história que eu vou perder. O “não” ou o “sim” são meros detalhes, o importante é a oportunidade única que terei de viver algo que eu poderei, lá no futuro, quando estiver na cadeira de balanço com os netos à minha volta, falar “Lembra daquela história da menina linda do boteco sujo” e desceverei com prazer cada detalhe. É, tá certo, eu vou lá falar com ela. Sorri satisfeito e dei o golpe final na minha argumentação interna: e mero detalhe é o caralho, ela dizer “não” para você está fora de cogitação. Saí do banheiro marchando confiante, cabeça erguida, amparado por todo o charme, beleza e sensualidade que me são peculiares. E pela possibilidade de ter uma história ótima pra contar.

(continua)


Epifania – parte 2

22/setembro, 2010

 

O cenário era o pior possível. Sábado começo de noite, naquele horário que normalmente a gente está combinando algum programa legal com uma galera animada, ou um programa mais legal ainda com aquela menina linda e de sorriso luminoso que você conheceu outro dia, eu estava num boteco sujo e gorduroso, daqueles que têm no ar um constante cheiro de fritura, vendo um jogo qualquer sem grande importância do São Paulo. Pra piorar, chovia lá fora. Pra piorar mais, o boteco estava quase vazio, só com alguns bêbados esparsos. Pra piorar ainda mais… bom, não sei como podia piorar ainda mais. A sensação era de derrota mesmo. Eu me sentia o menor dos seres humanos, o último na escala evolutiva, só acima provavelmente da pobre coitada da ave que virou a minha porção de frango a passarinho. Eu estava afundado nesses pensamentos quando aconteceu.

Ela entrou. Linda, cabelos lisos e negros como a asa da graúna. Corpo perfeito, a própria Vênus de Milo, com as vantagens óbvias de a) possuir os dois braços, b) ser de carne e osso e c) ter um tom de pele mais moreno.

Ela entrou (já falei isso?), passou andando ao lado da minha mesa e foi se acomodar no fundo do bar. Não sei se andar é o termo certo. Ela tinha uma graça que fazia parecer que ela flutuava. Isso, ela flutuou até o fundo do bar e se sentou sozinha à mesa. Como se já não estivesse perfeito o suficiente, pediu uma cerveja. Era bom demais pra ser verdade. Com certeza em breve chegaria o namorado, marido, ou homem que o valha. Ela, de forma nenhuma, poderia estar desacompanhada num bar desses. Então passei manter um olho no jogo da tevê e outro nela (acredite, não é força de expressão). Mas o tempo passava, a bola corria e ela continuava sozinha, lendo absorta uma apostila qualquer de capa rosa, que de longe eu não conseguia distinguir. 

Naquele momento eu passei a ter certeza de que Deus existia. Nunca fui ateu ou agnóstico, sabia que existia algo ou alguém superior, só não tinha tido, até então, comprovação empírica, irrefutável, da existência Dele.

Mas ali estava ela para provar que havia sim um ser onisciente e onipresente. E que ele era bom. E que ele gostava de mim. Afinal, qual era a chance de uma mulher como aquela, entrar num bar como aquele, numa noite chuvosa de sábado? E realmente sozinha, sem estar esperando namorado, marido ou coisa que o valha? E tomando cerveja? Definitivamente, era um milagre Dele.

Eu precisava falar com ela. Mas, é claro, a covardia bateu. Se ela é tudo isso, jamais vai sequer me dar atenção. E eu? Vou falar o que? “Oi, você vem sempre aqui ou só em sábados chuvosos?” Me convenci que falaria com ela logo depois do jogo. Afinal, estava ali para ver futebol, aconteceu dela aparecer, eu tinha que respeitar as prioridades. É claro que esse mantra só resistiu dois segundos, à merda com o jogo. Aquela era uma chance única, não aconteceria duas vezes. Pensei em aumentei o consumo de cerveja, quem sabe não ajudava? Mas pra isso eu teria que começar a beber direto da garrafa. Não, melhor não. A obrigação de TER QUE IR falar com ela brigava com a insegurança, que não era pouca, numa batalha ferrenha na minha mente, até que o jogo acabou. Eu gelei. Não tinha mais como evitar. Era uma questão de hombridade, eu não me perdoaria jamais se não conversasse. Poderia até ouvir “sai daqui seu bosta”, mas eu teria que tentar. Respirei fundo, tomei coragem, virei o resto de cerveja do copo e ela tirou os olhos do livro, mexeu no cabelo e olhou em volta. Pronto, acabou a coragem, voltei a ficar paralisado. Mas ela sequer reparou em mim, só chamou o garçom e pediu mais uma cerveja.  

Acho que foi isso que me animou. Uma mulher que entra sozinha num bar num sábado a noite e pede cerveja não pode ser mal educada ou antipática, não importa se ela era linda e gostosa e perfeita (até pode, mas esse era meu novo mantra). Reuni toda a confiança e coragem que consegui (que não era muita, ainda me sentia o menor dos seres humanos, o último na escala evolutiva) e fui falar com ela.

(continua)


Epifania – parte 1

18/setembro, 2010

Era um sábado sem perspectivas. Chovia. Segunda-feira seria feriado, e todo mundo tinha ido viajar. Dos poucos conhecidos que ficaram, nenhum parecia disposto a sair e, pra piorar, a situação financeira não estava das melhores. Eu tinha exatos 28 reais no bolso. Resolvi escrever. São milhares de projetos e crônicas e textos mal começados ou parados pela metade, pelo menos ajudaria a dar uma andada em alguma coisa. Mas desisti depois de uns 10 minutos olhando para a tela branca do Word no computador, sem digitar uma palavra sequer, só a barrinha piscando. A inspiração estava como o clima lá fora, uma merda.  Peguei o Pêndulo de Foucauld, outra atividade começada e não acabada,mas percebi que pensar era a última coisa que eu queria, então abandonei o livro em segundos. Um desenho leve parecia ser a solução. Comecei Castelo Animado, mas eu estava com tanto pique que senti um impulso irrefreável de desligar tudo nos primeiros minutos.  A contemplação do teto branco estava prestes a se tornar o meu programa. Foi quando lembrei que o São Paulo jogaria. Tá certo que não era nenhum clássico, era contra um time sem expressão do interior, mas o futebol com cerveja num boteco sujo era melhor que nada.

Enfrentei a chuva leve e pouco antes das oito da noite eu estava em um boteco perto do metrô Santa Cruz. Sempre vou ali quando quero ver algum jogo em pay-per-view. Pelo tempo e pelo horário, estava quase vazio, apenas alguns poucos pinguços, daqueles típicos de boteco, davam o ar da graça. Além, é claro, do indefectível cheiro de gordura que paira constantemente no ar. Me acomodei defronte à tela e o garçom, que me conhece, já trouxe uma Brahma gelada. Pedi também uma porção de frango a passarinho, pois já que aquele dia estava realmente chocho, algum prazer eu tinha que me dar.  Começa a partida, vem cerveja, vem frango e absolutamente nada de interessante acontece. O jogo ia morno, nem os gols que o São Paulo fez empolgavam e a cada minuto se acentuava aquela impressão de derrota. Sozinho, num boteco gorduroso, na companhia de bêbados que nada têm a acrescentar, e me entretendo com um jogo sem graça e uma porção de frango a passarinho: esse era meu programa de sábado a noite. Sim, era triste. Deu o intervalo e eu me peguei olhando para o copo de cerveja à minha frente. Imaginei em deixar a cerveja esquentar e sair na chuva para bebê-la, só para a cena ficar a mais depressiva posível.

Foi quando eu tive a epifania.

(continua)


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.