Goiânia – 1a parte

30/Agosto, 2009

No começo da viagem é tudo festa, todo mundo de pé no corredor do ônibus puxando papo, esvaziando copos, fazendo amizades, distribuindo sorrisos e tapinhas nas costas. Mas havia o consenso silencioso de que não tinha mulher para todos e muitos teriam que viajar sozinhos, sonhando com as goianas, ou seja, a tensão estava no ar. Tal qual uma dança das cadeiras esperando acabar a música, todos os homens se olham meio que de soslaio, apesar dos cumprimentos e conversinhas amigáveis. Visando garantir uma pequena para chamar de minha, lembrei de uma lição valiosíssima que aprendi em marketing: esteja na cabeça do consumidor (o famoso share of mind), sendo nós os produtos concorrentes e as elas, as consumidoras. Mais que rapidamente lancei mão daquelas oito ou dez piadas manjadas, já testadas e aprovadas à exaustão em outros grupos, para todo o público feminino do ônibus. Somadas à farta distribuição de vodca e cerveja e outros itens de elevado teor alcoólico, elas garantiram sorrisos largos e simpatia sincera de todas as seis mulheres solteiras e disponíveis. Reconheço que um sobrenome estranho como Gorniak, que inevitavelmente gerou mais piadas prontas, testadas e aprovadas, facilitou o esforço de ser lembrado. O fato é que conforme o ônibus seguia seu caminho eu me sentia mais confiante. Sentei estrategicamente perto dos bancos de quatro meninas, de forma que eu poderia conversar facilmente com mais da metade do meu mercado consumidor. Tacada de gênio, certo? Errado. Como não fui só eu que tive essa brilhante idéia, 80% dos homens fizeram a mesma coisa, e o corredor do lado do meu banco ficou intransitável. As meninas acabaram por, pouco a pouco, levantar e buscar lugares menos muvucados, com a desculpa de ir ao banheiro ou pegar uma cerveja ou fumar lá na frente. Quando me vi, estávamos eu e outros tantos machos abandonados numa discussão acalorada sobre futebol. Foco, Paulo, foco, foi meu pensamento e levantei rapidamente, buscando ao menos uma das Seis Supremas para fazer graça. Achei uma cuja amiga tinha ido fumar e ela estava providencialmente na poltrona da janela.  Mais do que rapidamente, contando piadas e rindo e brincando, eu sentei no banco do corredor, fechando-lhe a passagem e qualquer perspectiva de fuga. Quando a amiga voltou me viu ali e nem reclamou, sentou na fileira da frente. Soltei um “yes!” mental: não sairia dali por nada, era só uma questão de tempo até ela cair nas minhas graças. De tempo e de vodca, que eu habilmente roubei uma garrafa e acomodei conosco. Bebida vai, gracinha vem, acabou que enfim consegui uma companhia para a ida e a certa altura, depois de toda a energia dispendida na conquista, dormi feliz.

Sei lá quanto tempo depois o ônibus parou, já eram oito e meia da manhã todos estavam descendo pra tomar café. Acordei todo pimpão pra falar bom dia para minha linda e tomei um puta susto. Caceta, trocaram de mulher do meu lado enquanto eu dormia!Ela não podia ser a mesma que eu tinha beijado horas antes. Nada contra ficar com mulher feia, que que é isso, alguém com um passado como o meu não nega tal coisa, mas é que eu jurava que a menina que eu tava xavecando durante boa parte da viagem era bonita, de verdade. Como é que eu pude errar assim? Só sei que localizei meu amigo tomando café numa mesa e já fui tirar satisfação:

- Meu, a menina que eu fiquei ontem era tão feia assim ontem ou algo aconteceu na madrugada?

- Ela não era feia.

- ao? Olha ela vindo aí.

Ela e a amiga passaram, eu cumprimentei e olhei pra ele, que estava completamente abismado.

- Eu sinceramente achei ela bonita ontem…

- Pra você ver, eu também. Sorte sua que você não pegou. Agora me faz um favor, senta do meu lado no ônibus ta? Passado o efeito da vodca, não vou conseguir mais encarar.

E assim foi. Voltamos ao ônibus, ele sentou do meu lado, eu fingi dormir quando ela entrou e acabei dormindo mesmo até chegarmos a Goiânia.

(continua)