Foi só as luzes do palco se acenderem plenamente que a gritaria começou, e se tornou insuportável quando ele, o mito, a lenda, o Paul, apareceu. De onde eu estava, com a minha visão privilegiada, eu só via pouco mais que um ponto, mas ainda assim era um ponto mito, um ponto lenda, o ponto Paul. O barulho e agitação que pareciam ser impossíveis de aumentar, aumentaram quando ele abriu a boca e cumprimentou a galera em português e cresceram ainda mais quando começou a primeira música. Nessa hora eu já não via mais nada, pois era um mar de braços pro alto, impressionante como tem nego alto no mundo (e olha que eu tenho 1,85m). Eu quase fiquei com pena das pessoas mais baixinhas, que com certeza não viam bulhufas. Quase. Só não sinto realmente dó porque esses verticalmente desfavorecidos desenvolveram a vingança ideal: passam o show inteiro (eu disse INTEIRO) com celulares e máquinas fotográficas lá no alto, tal qual o periscópio de um submarino, bem acima das suas cabeças (e, consequentemente, na nossa linha de visão) filmando e fotografando o tempo todo. Você pode estar se perguntando “Mas você não leva máquina também? Não tira foto?”. Não, não levo máquina, não filmo, não tiro foto. Descobri que as memórias que você guarda na sua cabeça são sempre melhores que as fotos que você tirou, quando resolve revisitá-las, anos depois.
A chuva recomeçou e eu, espremido no meio da multidão, tentei recolocar aquela capa de plástico sem vergonha que eu tinha tirado e enfiado no bolso. E tome enfiar braço aqui, cabeça acolá, me esticar e perceber que acabei colocando a capa ao contrário e o lado que outrora tinha sido o de fora e estava molhado, agora era o de dentro. Ou seja, pra me proteger da chuva eu me molhei do mesmo jeito. Mas tudo bem, isso não era nada perto de ver o Paul ao vivo e… peraí, tô olhando pro telão e ele acaba de tirar o paletó e mostrar o seu suspensório última moda. Mas o ponto que eu estou seguindo no palco não tirou nada, ainda está de paletó. Só então eu percebo que, com quase uma hora de show, eu estava seguindo a pessoa errada no palco, Paul McCartney estava um pouco mais à direita (devo repetir que eu não ienxergo bulhufas e estava longe do palco?). Daí pra frente parecia que o show ia ficar enfim perfeito. A massa de mãos baixou, eu achei o ponto certo a acompanhar e a chuva parou. Cheguei até a cantar “Something” de olhinho fechado (coisa que você só faz quando tá tão envolvido que não liga de pagar esse mico, segundo Hugh Grant em “Grande Garoto”). Mas é claro que sempre, sempre pode piorar.
O público desses shows é um organismo vivo, ele muda, se transforma. Não sei como mas, sem que eu saísse um milímetro do meu lugar, de repente todas as pessoas à minha volta tinham mudado. Nada muito digno de nota se não fosse o fato de que exatamente na minha frente cismou de parar um ruivo de dois metros de altura. Cacete, com uma pista do tamanho do estádio do Morumbi, um curupira gigante tinha que aparecer justo na minha frente? Eis que Obla Di Obla Da e Back in URSS são tocadas na sequência e, mais animadinhas, tiram o público do chão. Pulando, eu aproveitei pra dar um chega pra lá no obelisco de cabelo vermelho e ganhei novamente visão total do show, agora uma reta limpinha, sem uma mísera cabecinha ou bracinho-com-maquininha-fotograficazinha na minha frente.
Eu deveria a partir daí aproveitar o show, mas confesso que sou um coração mole e fui reparar se o ruivão não estava atrapalhando mais ninguém. E foi aí que eu notei uma loira linda, sozinha, indefesa, espremida e totalmente eclipsada pelo cara. Com toda mímica que o exíguo espaço me permitia, fiz sinal pra ela apontando o ruivão e falei “Foda né? Não dá pra ver nada com ele na frente” ou algo assim, mas ela entendeu, tanto que respondeu “É, mas fazer o que, tem outro jeito?” ou algo assim. Eu, totalmente tocado com o drama dela, mais que rapidamente respondi de novo, com a mímica que dava pra fazer: “Vem cá, entra na minha frente que dá pra ver o show direitinho”. Se tem uma coisa que eu aprendi foi a ser cavalheiro e sempre buscar o bem de uma dama, principalmente se ela for loira e linda e estiver num show do Paul McCartney. E ela veio e ficou na minha frente. E aí que não resisti, música vai, música vem, trocamos algumas palavrinhas mas, quando ele emendou Let It Be com Live and Let Die com Hey Jude, a emoção foi demais, transbordou meu ser e eu quis compartilhar com a loira, então abracei-a. Ela não ficou muito feliz, me deu um chega pra lá e me deixou sozinho.
Mas tudo bem. Com os dois bises (é assim que se escreve) que ele tocou, e que eu voltei a cantar de olho fechado, o show terminou e imediatamente se tornou uma daquelas coisas inesquecíveis, que nunca terá o mesmo impacto pra quem quer que você conte, mas que fará você suspirar toda a vez que se lembrar.
Mesmo com chuva, mesmo com ruivo, mesmo sem mulher: thank you, Sir.
Escrito por Gorniak