Show do Paul – parte 2

29/novembro, 2010

 

Foi só as luzes do palco se acenderem plenamente que a gritaria começou, e se tornou insuportável quando ele, o mito, a lenda, o Paul, apareceu. De onde eu estava, com a minha visão privilegiada, eu só via pouco mais que um ponto, mas ainda assim era um ponto mito, um ponto lenda, o ponto Paul. O barulho e agitação que pareciam ser impossíveis de aumentar, aumentaram quando ele abriu a boca e cumprimentou a galera em português e cresceram ainda mais quando começou a primeira música. Nessa hora eu já não via mais nada, pois era um mar de braços pro alto, impressionante como tem nego alto no mundo (e olha que eu tenho 1,85m). Eu quase fiquei com pena das pessoas mais baixinhas, que com certeza não viam bulhufas. Quase. Só não sinto realmente dó porque esses verticalmente desfavorecidos desenvolveram a vingança ideal: passam o show inteiro (eu disse INTEIRO) com celulares e máquinas fotográficas lá no alto, tal qual o periscópio de um submarino, bem acima das suas cabeças (e, consequentemente, na nossa linha de visão) filmando e fotografando o tempo todo. Você pode estar se perguntando “Mas você não leva máquina também? Não tira foto?”. Não, não levo máquina, não filmo, não tiro foto. Descobri que as memórias que você guarda na sua cabeça são sempre melhores que as fotos que você tirou, quando resolve revisitá-las, anos depois.

A chuva recomeçou e eu, espremido no meio da multidão, tentei recolocar aquela capa de plástico sem vergonha que eu tinha tirado e enfiado no bolso. E tome enfiar braço aqui, cabeça acolá, me esticar e perceber que acabei colocando a capa ao contrário e o lado que outrora tinha sido o de fora e estava molhado, agora era o de dentro. Ou seja, pra me proteger da chuva eu me molhei do mesmo jeito. Mas tudo bem, isso não era nada perto de ver o Paul ao vivo e… peraí, tô olhando pro telão e ele acaba de tirar o paletó e mostrar o seu suspensório última moda. Mas o ponto que eu estou seguindo no palco não tirou nada, ainda está de paletó. Só então eu percebo que, com quase uma hora de show, eu estava seguindo a pessoa errada no palco, Paul McCartney estava um pouco mais à direita (devo repetir que eu não ienxergo bulhufas e estava longe do palco?). Daí pra frente parecia que o show ia ficar enfim perfeito. A massa de mãos baixou, eu achei o ponto certo a acompanhar e a chuva parou. Cheguei até a cantar “Something” de olhinho fechado (coisa que você só faz quando tá tão envolvido que não liga de pagar esse mico, segundo Hugh Grant em “Grande Garoto”). Mas é claro que sempre, sempre pode piorar.

O público desses shows é um organismo vivo, ele muda, se transforma. Não sei como mas, sem que eu saísse um milímetro do meu lugar, de repente todas as pessoas à minha volta tinham mudado. Nada muito digno de nota se não fosse o fato de que exatamente na minha frente cismou de parar um ruivo de dois metros de altura. Cacete, com uma pista do tamanho do estádio do Morumbi, um curupira gigante tinha que aparecer justo na minha frente? Eis que Obla Di Obla Da e Back in URSS são tocadas na sequência e, mais animadinhas, tiram o público do chão. Pulando, eu aproveitei pra dar um chega pra lá no obelisco de cabelo vermelho e ganhei novamente visão total do show, agora uma reta limpinha, sem uma mísera cabecinha ou bracinho-com-maquininha-fotograficazinha na minha frente.

Eu deveria a partir daí aproveitar o show, mas confesso que sou um coração mole e fui reparar se o ruivão não estava atrapalhando mais ninguém. E foi aí que eu notei uma loira linda, sozinha, indefesa, espremida e totalmente eclipsada pelo cara.  Com toda mímica que o exíguo espaço me permitia, fiz sinal pra ela apontando o ruivão e falei “Foda né? Não dá pra ver nada com ele na frente” ou algo assim, mas ela entendeu, tanto que respondeu “É, mas fazer o que, tem outro jeito?” ou algo assim. Eu, totalmente tocado com o drama dela, mais que rapidamente respondi de novo, com a mímica que dava pra fazer: “Vem cá, entra na minha frente que dá pra ver o show direitinho”. Se tem uma coisa que eu aprendi foi a ser cavalheiro e sempre buscar o bem de uma dama, principalmente se ela for loira e linda e estiver num show do Paul McCartney. E ela veio e ficou na minha frente. E aí que não resisti, música vai, música vem, trocamos algumas palavrinhas mas, quando ele emendou Let It Be com Live and Let Die com Hey Jude, a emoção foi demais, transbordou meu ser e eu quis compartilhar com a loira, então abracei-a. Ela não ficou muito feliz, me deu um chega pra lá e me deixou sozinho.

Mas tudo bem. Com os dois bises (é assim que se escreve) que ele tocou, e que eu voltei a cantar de olho fechado, o show terminou e imediatamente se tornou uma daquelas coisas inesquecíveis, que nunca terá o mesmo impacto pra quem quer que você conte, mas que fará você suspirar toda a vez que se lembrar.

Mesmo com chuva, mesmo com ruivo, mesmo sem mulher: thank you, Sir.


Músicas e Musas 3

3/agosto, 2009

Nada como ouvir algumas músicas que imediatamente te fazem lembrar de alguém que te marcou. A essas inesquecíveis e incomparáveis musas, minha singela homenagem.

Fico Assim Sem Você – Adriana Calcanhoto

Ainda bem que insisti. Acabei descobrindo que a resposta seca e indiferente à primeira tentativa de aproximação não era antipatia, mas uma forma de selecionar aqueles que estariam ao seu lado. Linda, alegre, divertida, inteligente, marketeira e torcedora do São Paulo, realmente podia se dar a esse luxo. A cara de séria era só enganação, pois se derretia ao ouvir essa música um tanto boba. Sempre charmosa e deliciosamente arrumada, mesmo quando tomava chuva e aparecia despenteada e descalça. Passear na Beira Mar de mãos dadas, aquela lua alaranjada ao fundo, eu não esquecerei nunca.

Ela disse Adeus – Paralamas do Sucesso

Essa viagem eu jamais vou esquecer porque foi onde eu conheci você. Poucas noites foram como aquela, à beira da piscina tomando água de coco. Titanic só não foi um filme qualquer por causa das mais de três horas de cafuné. Nunca vou esquecer das tardes preciosas e longas noites pendurados no telefone, falando sobre as pequenas coisas da vida que valem à pena. Seus beijos sem pressa só não eram melhores que o sorriso sem graça e cheio de vergonha que ela dava quando eu dizia que ela era a coisa mais linda do mundo. Foi um ano só, mas que ano. E ela disse adeus.

Don´t Know Why – Norah Jones

Algumas crianças se apaixonam pela professora quando ainda estão no pré. Eu tive mais sorte e me apaixonei depois de grande por uma professora. Jeito de menina, carinha de anjo e diabólica quando queria, alegre como só ela, encarava qualquer coisa junto comigo, e sorria sapeca, com uma inocência que lhe era genuína. O mais legal era nos encontrarmos e agirmos como se nada nunca tivesse acontecido, afinal o pai ciumento jamais poderia desconfiar. Nada apaga seu abraço apertado e sua vontade de não me soltar nunca, como se ali, juntos, o tempo fosse parar.

(continua, sempre continua)


Músicas e Musas 2

21/julho, 2009

Nada como ouvir algumas músicas que imediatamente te fazem lembrar de alguém que te marcou. A essas inesquecíveis e incomparáveis musas, minha singela homenagem.

Do Seu Lado – Jota Quest

Sempre brinquei que uma esteticista devia entender de beleza e, portanto, jamais daria bola pra mim. Mas você não ligava e ria, assim como não ligava e ria pra um monte de convenções ou pra opinião alheia. Seu jeito inconseqüente e livre foi música para meus ouvidos. Inúmeros foram nossos porres juntos, mas aquele no show do Jota Quest, em que você terminou com o joelho arrebentado e eu sem camisa (e até hoje não sabemos como), foi sensacional. Ainda sinto falta de dormir no tapete da sua sala e não sinto falta nenhuma dos muitos dvds que alugamos e não assistimos.

Tanto – Skank

Ah, a bióloga mais charmosa e carinhosa do mundo. Até hoje eu não sei quem de nós dois gostava mais de colo e cafuné e carinho e lareira e vinho. É ouvir essa música do Skank que na hora me vem o seu perfume e seu abraço. Cada passeio naquele chevette vermelho era uma aventura, mesmo que fosse só para ir até a padaria. Adorava nela o fato de que tudo e cada coisa parecia especial e inesquecível. Nunca consegui ficar bravo com ela, nem mesmo no dia em que recebeu uma excelente proposta de emprego e me trocou pelas tartarugas marinhas do Projeto Tamar

I Wish You Were Here – Pink Floyd

Tínhamos tanta coisa em comum, eu e ela. A única coisa que tínhamos de diferente é que ela era linda. E ressalto isso porque era ruiva e, uma ruiva bonita é sempre merecedor de nota. De resto éramos iguais. Ela, como eu, era redatora, divertida, sacada, inteligente, gostava de arte e livros. Assim como eu, gostava de piadas, cerveja, bom papo em botecos, música e amigos. Se não demos certo, foi provavelmente devido ao fato de que ela, assim como eu, era uma pessoa bem difícil de se relacionar. Mas, assim como eu disse um dia, eu gostaria que ela estivesse aqui.

(continua, sempre continua…)


Músicas e Musas 1

19/julho, 2009

Nada como ouvir algumas músicas que imediatamente te fazem lembrar de alguém que te marcou. A essas inesquecíveis e incomparáveis musas, minha singela homenagem.

Meu Modo de Ser – Zeca Pagodinho

Até hoje eu me lembro da sua expressão quando te mostrei essa música e disse “Eu sou isso aqui, vai mesmo encarar?” Apesar de você ser linda de doer, o que mais me chamava atenção era o enorme senso de humor e o quanto era divertida. Encarava numa boa qualquer coisa que eu inventasse. Instrumentadora cirúrgica, sempre sabia me dar exatamente o que eu estava precisando em cada momento que estivemos juntos, fosse um carinho, um olhar, um sorriso ou uma bronca. Seus enormes olhos de anime japonês e seus beijos de tirar o fôlego são coisas que vou carregar pra sempre.

Nosso Amor é Ouro – Zezé Di Carmargo e Luciano

Aposto que ficaria furiosa se soubesse que um sertanejo me lembra você. Mas na época era muito difícil, e hoje parece impossível, não associá-la à cabocla da novela das seis. Minha pequena notável, longos cabelos pretos escorridos e tez levemente morena, conseguia me encantar totalmente sem fazer força. Seu doce perfume e nossa paixão pelo São Paulo ecoam até agora na minha cabeça. Bem como aquele óculos que dava a você uma cara de quem sabia tudo e sempre estava certa. Nunca mais assisti Lilo & Stich ou falei tupi-guarani.

Iris – Goo Goo Dolls

Você era uma pessoa muito ativa, animada, inteligente, sacada, fácil de gostar e de ser gostada, que não parava um minuto quieta. Talvez por isso que tudo com você era sempre muito intenso, dor ou amor. Seu alto astral, que superava até o meu, foi um combustível para mim por diversas vezes. Me chamava de anjo, e dizia que eu não tinha a cara de bobo do Nicolas Cage, porque eu perdoava seu horrível gosto pelo cigarro. Na verdade, eu perdoava por causa do seu gosto ainda maior por cerveja, e pela sua insistência em sempre terminarmos a noite tomando uma no Bar dos Amigos.

(continua… sempre continua)


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