- Posso saber por que o senhor não falou nada hoje?
A voz era grave e autoritária, em nada parecida com o tom suave que eu tinha ouvido de Eunice pouco tempo antes. A cara era a mesma, apesar de um pouco mais contorcida por caretas. O pior é que não havia a menor possibilidade dela não estar falando comigo. Eu estava sozinho nas cadeiras. A resposta era óbvia. Eu sabia, ele sabia, nós sabíamos o motivo de estar ali. Tinha sido rejeitado e me tornara obssessivo já havia meses e esse sofrimento não passava. Minha vida havia se tornado insuportável, não comia, não dormia, não trabalhava, não me divertia, nada eu fazia direito. O Joca esperava que ali eu achasse uma cura.
- Não, não. Eu falei sim tudo o que tinha para falar. – foi o que eu consegui balbuciar, meio gaguejando e tropeçando nas palavras. Ele me mediu de cima abaixo e, fulminando com o olhar, como quem conhecesse todos os meus segredos mais íntimos e secretos, disse apenas
- Você vai voltar aqui outras vezes, ah se vai!E da próxima vez é bom falar tudo o que passa aí - apontou para o meu coração – Só assim que a gente pode ajudar você.
Ela voltou para o cercadinho e chamou o próximo e voltou a atender quem precisava. Prescrutei o ambiente em busca do Joca, mas ele já não estava por ali, Fui encontrá-lo perto da porta de saída. Quando, a caminho de casa, contei o ocorrido, ele me xingou por ter sido tão burro e me fez prometer que voltaria com ele na outra semana.
E assim foi, na semana seguinte eu voltei, menos pela promessa ao Joca ou para realizar o vaticínio do Pai Nelinho, e mais para ver a morena de cabelos negros, roupa branca e olhos verdes que não tinha saído da minha cabeça. Foi até engraçado, mas foi uma semana em que eu passei a pensar bem menos na mulher que nem preciso mencionar, que eu consegui até dormir algumas noites e até voltei a me comportar como agia antes da desilusão amorosa. Ao chegar na mesma casinha simples e ajeitada, fomos recebidos por – meu coração quase parou – ninguém mais ninguém menos que a morena. Deu-nos as boas-vindas com um sorriso enorme, tão branco quanto a sua roupa. Joca apressou-se a dar um abraço caloroso de “há quanto tempo” nela e me apresentou:
- Essa é a Patrícia. Patrícia, esse aqui é o Paulo, segunda vez que vem aqui.
- É mesmo? Que bom, espero que venha mais – falou sem parar de sorrir um minuto. Pensei em alguma bobagem como ela, Patrícia, não ser Poeta, ser a própria poesia, mas achei que não seria algo muito adequado a se falar, mesmo explicando que era um elogio e tanto, então retribuí apenas com um sorriso sem jeito. Começamos a conversar e, impressionante como é essa coisa de sintonia entre duas almas feitas uma para a outra, quando vi já estava na hora de começar a cerimônia. Ela foi para o meio junto com os outros de branco, começaram os atabaques, as palmas, a cantoria. Eu ajudava nas palmas e sorria satisfeito, sem tirar os olhos da Patrícia. Entrou Eunice, veio o Pai Nelinho e os cavalos começaram a receber suas entidades. Como já disse, não é uma ciência exata e nem sempre todos incorporam. Aquele dia Patrícia não recebeu ninguém e, quando chegou a minha vez, a única pessoa disponível era Eunice, ou melhor, Pai Nelinho. Engoli a seco e fui. Para minha surpresa, nem cheguei a abrir a boca, nossa conversa foi um monólogo:
- Você voltou mesmo, não? Sabia que voltaria. Mas fica sossegado que agora nem precisa dizer nada não. Continua assim que seu problema já está acabado.
Simples assim. Me girou, bateu com um galhinho de arruda nos ombros, no peito e nas costas, me deu um gole de cachaça (por que sempre me dão cachaça?) e me liberou. Como Patrícia não tinha incorporado aquele dia, não precisou descansar depois dos trabalhos e estava na entrada da casa, se despedindo de todos que iam embora. Me aproximei e engatei conversa, que fluiu uma beleza até chegar o Joca, que foi quando fomos embora. Não sem antes eu prometer que voltaria, “especialmente para vê-la”, frisei. E continuei voltando, umas três semanas se eu não me engano, até que eu consegui convencer a Patrícia a enconrá-la fora dali. A partir daquele momento, eu não precisava ir mais ao Centro, já tinha conseguido o que tinha ido buscar: uma cura para minha obsessão. Para esquecer um grande amor, nada melhor do que se apaixonar de novo.
Escrito por Gorniak 