Gorn in Rio – parte 2

26/Outubro, 2009

 

É meio dia quando eu acordei, não havia mais ninguém no dormitório. Tomei um banho rápido como só um banheiro imundo de albergue consegue te forçar e saí começar minhas aventuras pelo Rio de Janeiro. Mas, antes de sair, na recepção do albergue sou parado pelo recepcionista.

- Um minuto, você quem é?

Dou meu nome e ele.

(modo carioquês on) – Ah “cerrrto”, é que ta faltando você acertar sua “ixtadia” né?

Como assim, ta faltando acertar minha estadia? Explico que ao chegar, entreguei à menina que estava na recepção o comprovante de depósito, ele me replica que ela não avisou nada, eu insisto que está tudo certo, ajudo-o a localizar o comprovante, ele diz que não estava nominal mas ok, iria confirmar com ela. Quando eu acho que está tudo certo e já ponho um pé pra fora da porta, ele me chama de novo:

(modo carioquês on) – Então, mas falta ainda acerrrrrtar a ixtadia dax duax meninaxxx que estão com você.

- Comequié? Que duas meninas?

- Aquelax duax que chegaram contigo.

Pensei em responder “Peraí, meu amigo, não faço a menor idéia de que meninas você esteja falando, infelizmente estou sozinho, se estivesse com duas meninas teria o maior prazer em pagar a diária delas, mas não estou, Inclusive se eu tivesse dinheiro sobrando, pagaria só pra poder posar de o fodão que está acompanhado por duas meninas, mas infelizmente não é o caso, não conheço nenhuma menina, não tenho direito sobrando, então não vou pagar nada”, mas desisti.

- Não estou com ninguém.

Ele faz uma cara de quem não gostou muito, deu vontade de retrucar falando que também não tinha gostado dele, que a menina da manhã era bem mais bonita e simpática, mas desisti de novo e simplesmente me virei e fui embora. Nem sabia direito onde eu ia, só queria sair dali pra não arrumar bate boca, não tava mais levando na esportiva aquela visita ao Rio. Fazia no máximo três horas que eu estava na cidade e nada estava dando certo, parecia haver um complô contra mim. “Eu devo realmente ter muita cara de paulista e isso deve ser pegadinha, só pode. Primeiro dois malandros desarmados vêm me roubar, agora o pessoal do albergue quer levar um a mais. Tiraram o dia para zoar o paulista”, comecei a resmungar mentalmente, fazendo com eu meu humor piorasse a cada minuto. “Só falta encontrar a menina que vai ser minha guia e imediatamente ser brindado com uma história triste qualquer de como os ingressos foram extraviados e não iremos mais a jogo nenhum” . Incrível como nossa mente, quando estimulada, consegue formar os piores cenários possíveis, e eu já estava até levantando a hipótese de sequer conseguir encontrá-la quando passo por um bar onde uma turma enorme de são paulinos bebia animadamente. Rapidamente me entrosei com todos eles e, conversa vai, conversa vem, sou convidado a acompanhá-los ao Maracanã. Bom, dos males o menor, agora se tudo mais falhasse eu já tinha companhia pro estádio e, melhor de tudo, não andaria sozinho por aí para ser o único paulista a ser zuado. Agradeci o convite, mas segui em frente, pois ainda precisaria encontrar a minha desconhecida amiga, que acabava de me ligar dando as coordenadas de como fazer para chegar no apartamento dela. Pelo caminho a pé da Lapa até a Glória, enquanto passava por pessoas das mais estranhas possíveis, com seus panos estendidos na calçada, vendendo as coisas mais improváveis possíveis, me perguntava por que raios tinha me metido naquela aventura no Rio de Janeiro. Enquanto confirmava que havia chegado à rua indicada e buscava o número certo, eu ainda me reprovava mentalmente, definitivamente eu não era mais um moleque, esses arroubos de sair sozinho sem destino deveriam ficar no passado, mais ou menos uma década atrás, quando somos totalmente inconseqüentes. Onde, afinal, eu estava com a cabeça? Nesse exato momento cheguei ao prédio e vi minha amiga na porta me esperando. Ela abriu um sorriso tão sorriso que na hora eu me lembrei do motivo que me trouxe ao Rio.

(continua)


Gorn in Rio – parte 1

18/Outubro, 2009

Depois de uma hora parado no trânsito, enfim chego à rodoviária. Desembarco em meio a um mundaréu de passageiros. Uma chuva fina bastou para transformar em caos partidas e chegadas, e dezenas de pessoas aguardam para partir em ônibus que já deveriam ter saído ou para receber seus conhecidos que ainda não chegaram em ônibus que já eram pra estar lá há tempos. Vendo aquele tumulto todo, resolvo comprar o quanto antes a minha passagem de volta, o que me demora mais uns quarenta minutos na fila do guichê. Assim que consigo ouço alguém às minhas costas: “Não acredito! Chuchu?” Me viro e vejo uma amiga que há tempos não encontrava, sorrindo para mim. Pausa na narração. Esclarecimento importante: “chuchu” é um termo carinhoso ao qual alguns anos atrás eu usava para me referir a toda e qualquer mulher que eu conhecia. Não se tratava de menosprezar dizendo que era sem gosto, era simplesmente uma forma mais fácil de eu não ter que tentar gravar nomes e, repetidamente, fracassar. Claro que elas sempre me chamavam de “chuchu” de volta e, até hoje, ainda trombo com quem me chame assim. Voltemos à narração. Minha amiga está com mais uma menina num albergue em Copabacana e combinamos de fazer algo mais à noite, apesar de estarmos longe um do outro. Elas vão embora num táxi, em sentido inverso ao meu caminho, e eu tomo um ônibus. Pronto, se tudo mais der errado, pelo menos um rosto conhecido eu tenho no Rio. Incrível como quando você está sozinho, procura conversar e fazer amizade com todo mundo: no ônibus que eu pego para a Cinelândia conheço um casal de paulistas, que está procurando albergue pra ficar. Quando expliquei com empolgação do meu achado na Lapa, ao lado da boemia e da farra, eles gentilmente agradecem e vão para outro lugar “queremos ver monumentos e arquitetura”. Bom, cada um com suas prioridades, desço sozinho na Cinelândia e sigo caminhando para o albergue. A chuva não para de cair e me vem à mente a cena-cichê do cara que acaba de chegar na cidade e é surrado, roubado e deixado sem nada desacordado na chuva. Rio da minha idéia besta, mas me convenço de que bandido não sai pra assaltar sete e meia da manhã, e na chuva, certo? Errado. Lá longe vejo vindo na mesmo calçada na minha direção dois típicos malandros de morro. “Vai dar merda” pensei, ao ver que na rua éramos só nós três. “É só manter a calma, vou atravessar a rua e assim, sutilmente, fugir deles.”  Atravesso a rua e, adivinha? Eles também. “É, realmente vai dar merda” voltei a pensar, enquanto eles estavam chegando cada vez mais perto. “Só passar por eles rapidamente, não parar, e rezar pra nada acontecer”, me instruí.  Eles vindo, eu indo, “vai dar merda mesmo” eles mais perto, eu mais perto, “qualquer coisa eu saio correndo”, nenhum dos três dá sinais que vai desviar do caminho, o encontro é iminente, um deles desacelera, o outro passa  já pega na minha mochila e se dirige a mim (mode carioquês on): “Ae, guerrero, perrrdeu.” O da frente já me segura pela camiseta “Seguinte, é um assalto, passa tudo ou te encho de facada”. Olho pra ambos e não vejo arma nenhuma. Se tivessem armaods, levariam o que quisessem, mas já passei da idade de ser intimidado só no grito, forcei a passagem e saí correndo. Eles não vieram atrás e eu só parei quando vi uma viatura de polícia parada. Mas aí eu já estava realmente perto do albergue, que rapidamente achei e entrei. A moça da recepção, muito simpática, enquanto fazia meu cadastro e pegava o comprovante de depósito das diárias, engatou aquele papinho de “primeira vez aqui, etc etc etc” e terminou com um “Você vai ver, vai gostar do Rio, tem muita coisa maneira aqui”. Pensei se deveria responder “É, tenho certeza que será ótimo, até me assaltar já tentaram”, mas achei uma resposta por demais ranzinza, ia contribuir pra ela falar mal dos paulistas, então me contive e virei para o lado, onde tinha um cartaz “Don´t be a gringo. Be a local” que oferecia excursões na favela. “Pronto, tudo certo, seu quarto é subindo a escada, primeira porta a direita”. Subi as escadas e entrei no quarto, onde imperava uma orquestra de roncos. Três beliches estavam ocupados e só um lá no canto tinha um colchão vago. Me acomodei o melhor que pude e resolvi dormir um pouco, para me refazer da madrugada insone no ônibus.

(continua)


Gorn in Rio – Prólogo

16/Outubro, 2009

Eu nunca havia estado mais do que um dia no Rio de Janeiro. O “nunca”, que fique bem entendido, significa “não com idade suficiente para aproveitar o que o Rio tem de melhor, a saber: samba, chope brahma e mulheres-com-sotaque-carioca, não nessa ordem”. Pois eis que, numa conjunção de fatores que muitos diriam ser obra de Deus, a) a cidade é escolhida como sede das Olimpíadas de 2016; b) eu descubro que no mesmo fim de semana do feriado do dia das crianças (não sou católico, 12 de outubro é, portanto, dia das crianças) o São Paulo vai jogar no Maracanã e c) uma amiga convida “vem pra cá”, oferecendo-se ainda para ser minha guia ao descobrir (e, como todo carioca, ficar indignado) que eu não conheço praticamente nada da cidade dela. Como prova ainda maior da sua boa vontade, ela monta uma programação regada de samba e chopp brahma e arruma ingressos para o jogo no Maracanã. Tendo acontecido esse alinhamento cósmico, como poderia eu dizer “não”? A única coisa que eu deveria providenciar era a estadia, e, sorte das sortes, encontro um albergue de 20 reais por dia, de frente para os arcos da Lapa. O que mais poderia querer? Pausa na narrativa 1: nunca tendo visto os famosos arcos da Lapa e sabendo que ali é, por tradição, o reduto boêmio, bairro de samba e de bamba, me parecia o lugar perfeito, dado inclusive o valor. Pausa na narrativa 2: um ou outro leitor pode estar pensando “que mané você rapá! A menina te chama pra ir pro Rio, se oferece de guia, te compra ingresso pro maraca e tú não vai pra casa dela?” Esclareço que eu sequer a conhecia, é amiga de um cara que trabalhava comigo e isso de guia + estádio ela faz pra todo mundo, não era porque eu estava com a bola toda. Definidos esses pontos, só para não dar a impressão de que eu sou mais bobo do que realmente sou, posso dar despausa na narrativa.

Eis que chega a sexta-feira a noite, arrumo minha malinha, me meto num ônibus rumo ao Rio e, precisamente sete da manhã do sábado, chego na rodoviária da Cidade Maravilhosa.

(continua)


Clássico

20/Agosto, 2009

Depois de uma madrugada em que o mundo desabou, ele acordou no domingo e não acreditou que estivesse vendo o sol. Tá certo que um sol tímido, mas, convenhamos, muito melhor que chuva. Era um domingo especial, pois no Morumbi iriam jogar São Paulo e Corinthians. Sim, ele gostava de jogo, ia sempre aos estádios e o São Paulo era o líder do campeonato. Mas não era a perspectiva de mais uma vitória, ainda mais sobre o Corinthians, que o animava. O que tornava esse dia tão especial era o fato de que, enfim, ele iria sair com ela. Ela era linda, charmosa, cheirosa, inteligente, simpática e muito mais. Tudo, enfim, o que ele sempre sonhou. Mas como nem tudo pode ser perfeito, além de corintiana, ela tinha mais três defeitos: o pai e os dois irmãos, que faziam marcação cerrada e a vigiavam de perto. Como todos eram corintianos fanáticos, a saída foi chamar todos para o jogo entre São Paulo e Corinthians. O pai disse que estava velho demais para ir a estádios, mas que ela poderia ir se os irmãos a acompanhassem.

Perto da uma da tarde ele passou na casa da família corintiana e foi com todos para o estádio. Ela estava deslumbrante, até com a camisa do Corinthians ficava linda. Ficou quieto o trajeto inteiro, enquanto os dois cunhados faziam a maior zona e xingavam todos os tricolores de bambis. Fazer o que, ela valia a pena.

Chegando no Morumbi foi só usar de alguma lábia para convencer os irmãos de que a arquibancada é sem dúvida o melhor lugar para ver o jogo, mas que a irmã deveria ser protegida, e por isso ele iria com ela para a numerada. Irmãos e irmã concordaram sem muita dificuldade e, enfim, ele iria conseguir um tempo a sós com ela. Um tempo, não, dois. E com intervalo. Era tudo o que ele queria.

Rapidamente, a pretexto de seguir para as numeradas, ele puxou-a para longe da vista dos irmãos. E ali, entre um monte de torcedor suado, cambistas, vendedores de cerveja, policiais a cavalo e barracas de lanche de pernil, ele conseguiu beijá-la. Pronto, não precisava nem mais ter jogo, podia acabar o mundo! Mas o mundo não acabou e eles entraram no estádio para o começo da partida. Bola rolando e atenção total de ambos no campo partida, um desdenhando e secando e xingando o time do outro. Até falando palavrão ela fica linda. Como é que pode? Ela não percebeu, mas dentro dele uma briga monstruosa acontecia: para quem ele torceria pra fazer o gol primeiro? São Paulo ele comemoraria. Corinthians, ele comemoraria abraçando-a. Ficou decidido internamente que ele torceria para o jogo ser quatro a três. Para o São Paulo, claro, Afinal, mulher, mulher, resultados de futebol a parte. E que o alvinegro fizesse os três primeiro, para que ele pudesse tirar uma casquinha boa. Findo o primeiro tempo, zero a zero, e antes que ela começasse a comentar muito o jogo, ele já partiu para o ataque e fez valer cada minuto daqueles quinze de intervalo. Começou o segundo tempo e, na empolgação de estar com ela, ele fingiu que não viu e foi advertido, fingiu que não era com ele e tomou um amarelo. “Sossega aí no seu canto que eu quero ver o jogo”. Aí ele se deu por vencido e voltou também sua atenção para o que acontecia no gramado. Deve ser acrescentado que manter a concentração no jogo lá embaixo era extremamente difícil. Ele só conseguia sentir o perfume dela e ver o cabelo dela solto balançando com o vento. Quase que não vê o gol do São Paulo. Ela se recusou a comemorar com ele, ele não deu bola e virou para o outro lado e comemorou com os outros torcedores. Daí pra frente a atenção voltou toda para a partida que, assim como a perspectiva de novos beijos até o fim do segundo tempo, ficou bem ruim. Mas, a esperança é a última que morre, os 4X3 ainda podem acontecer, pensou ele. Só que nada aconteceu até o finalzinho quando, no último minuto, pênalti para o Corinthians. Nessa hora ele percebeu que se o Corinthians fizesse o gol, empataria a partida, tirando a vitória certa do São Paulo. Mas, por outro lado, ele comemoraria com ela e a greve de beijo estaria acabada. Os dois pensamentos voltaram a lutar dentro dele: empate e beijo ou vitória do São Paulo? Empate e beijo ou vitória do São Paulo? Ah, quer saber, que se dane! E ele rezou loucamente pra bola sair ou para o goleiro defender. O anjo da guarda dele estava passando por perto essa hora, ouviu o pedido e resolveu atender: o goleiro pegou o pênalti. Ele quase rola arquibancada abaixo de tanta felicidade. Claro que ela não gostou nem um pouco e recusou-se a confraternizar no final do jogo, não houve troca de camisas. Ele tentou um deixa diso, futebol é uma caixinha de surpresas e partiu para o ataque. Mais uma vez foi advertido, tomou o segundo amarelo e acabou expulso. Voltou para casa quieto, apesar da vitória, e terminou indo para o chuveiro sozinho. É como dizem, sorte no jogo…


Músicas e Musas 2

21/Julho, 2009

Nada como ouvir algumas músicas que imediatamente te fazem lembrar de alguém que te marcou. A essas inesquecíveis e incomparáveis musas, minha singela homenagem.

Do Seu Lado – Jota Quest

Sempre brinquei que uma esteticista devia entender de beleza e, portanto, jamais daria bola pra mim. Mas você não ligava e ria, assim como não ligava e ria pra um monte de convenções ou pra opinião alheia. Seu jeito inconseqüente e livre foi música para meus ouvidos. Inúmeros foram nossos porres juntos, mas aquele no show do Jota Quest, em que você terminou com o joelho arrebentado e eu sem camisa (e até hoje não sabemos como), foi sensacional. Ainda sinto falta de dormir no tapete da sua sala e não sinto falta nenhuma dos muitos dvds que alugamos e não assistimos.

Tanto – Skank

Ah, a bióloga mais charmosa e carinhosa do mundo. Até hoje eu não sei quem de nós dois gostava mais de colo e cafuné e carinho e lareira e vinho. É ouvir essa música do Skank que na hora me vem o seu perfume e seu abraço. Cada passeio naquele chevette vermelho era uma aventura, mesmo que fosse só para ir até a padaria. Adorava nela o fato de que tudo e cada coisa parecia especial e inesquecível. Nunca consegui ficar bravo com ela, nem mesmo no dia em que recebeu uma excelente proposta de emprego e me trocou pelas tartarugas marinhas do Projeto Tamar

I Wish You Were Here – Pink Floyd

Tínhamos tanta coisa em comum, eu e ela. A única coisa que tínhamos de diferente é que ela era linda. E ressalto isso porque era ruiva e, uma ruiva bonita é sempre merecedor de nota. De resto éramos iguais. Ela, como eu, era redatora, divertida, sacada, inteligente, gostava de arte e livros. Assim como eu, gostava de piadas, cerveja, bom papo em botecos, música e amigos. Se não demos certo, foi provavelmente devido ao fato de que ela, assim como eu, era uma pessoa bem difícil de se relacionar. Mas, assim como eu disse um dia, eu gostaria que ela estivesse aqui.

(continua, sempre continua…)


Músicas e Musas 1

19/Julho, 2009

Nada como ouvir algumas músicas que imediatamente te fazem lembrar de alguém que te marcou. A essas inesquecíveis e incomparáveis musas, minha singela homenagem.

Meu Modo de Ser – Zeca Pagodinho

Até hoje eu me lembro da sua expressão quando te mostrei essa música e disse “Eu sou isso aqui, vai mesmo encarar?” Apesar de você ser linda de doer, o que mais me chamava atenção era o enorme senso de humor e o quanto era divertida. Encarava numa boa qualquer coisa que eu inventasse. Instrumentadora cirúrgica, sempre sabia me dar exatamente o que eu estava precisando em cada momento que estivemos juntos, fosse um carinho, um olhar, um sorriso ou uma bronca. Seus enormes olhos de anime japonês e seus beijos de tirar o fôlego são coisas que vou carregar pra sempre.

Nosso Amor é Ouro – Zezé Di Carmargo e Luciano

Aposto que ficaria furiosa se soubesse que um sertanejo me lembra você. Mas na época era muito difícil, e hoje parece impossível, não associá-la à cabocla da novela das seis. Minha pequena notável, longos cabelos pretos escorridos e tez levemente morena, conseguia me encantar totalmente sem fazer força. Seu doce perfume e nossa paixão pelo São Paulo ecoam até agora na minha cabeça. Bem como aquele óculos que dava a você uma cara de quem sabia tudo e sempre estava certa. Nunca mais assisti Lilo & Stich ou falei tupi-guarani.

Iris – Goo Goo Dolls

Você era uma pessoa muito ativa, animada, inteligente, sacada, fácil de gostar e de ser gostada, que não parava um minuto quieta. Talvez por isso que tudo com você era sempre muito intenso, dor ou amor. Seu alto astral, que superava até o meu, foi um combustível para mim por diversas vezes. Me chamava de anjo, e dizia que eu não tinha a cara de bobo do Nicolas Cage, porque eu perdoava seu horrível gosto pelo cigarro. Na verdade, eu perdoava por causa do seu gosto ainda maior por cerveja, e pela sua insistência em sempre terminarmos a noite tomando uma no Bar dos Amigos.

(continua… sempre continua)


Falta de Sorte

23/Abril, 2009


(uma homenagem às inúmeras mulheres que já me disseram não, e àquelas incontáveis outras que ainda dirão)

Se eu tivesse sorte, você gostaria de mim e deixaria eu gostar de você. Aí a você não desgrudaria de mim e eu não desgrudaria de você, você iria me ensinar esse monte de coisa sobre artes e filósofos e literatura que você sabe, e eu ia te levar prum estádio e ia te ensinar a vibrar com uma simples partida de futebol, você ia me explicar semiótica russa como se fosse a coisa mais natural do mundo, e eu ia te falar que bom mesmo é encher a cara num dia de sol num quiosque na praia, você ia tentar parar de fumar e eu ia tentar ouvir as suas músicas preferidas, você ia passar a gostar de comer manga e eu ia comer linhaça sem fazer piada, você iria mostrar as coisas erradas da vida e me fazer ficar indignado querendo mudá-las e eu ia fazer você rir mais do mundo e de si mesma, você iria me tornar uma pessoa melhor e eu iria te mostrar o quão fantástica você é, você riria dos meus amigos estranhíssimos, mas faria de tudo para que também fossem seus amigos, e eu riria dos seus amigos estranhíssimos, mas faria de tudo para que também fossem meus amigos.

Se eu tivesse sorte, você gostaria de mim e deixaria eu gostar de você. Aí a gente ficaria horas olhando um pro outro, a gente correria juntos da chuva na paulista, a gente falaria dos problemas um para o outro, a gente ouviria os problemas um do outro e diria que vai ficar tudo bem, eu to aqui, a gente ia fazer amor até cansar e continuar fazendo mais, a gente comeria paçoca cuspindo e fazendo porquice, a gente jogaria playstation madrugada adentro, a gente ia ficar trocando mensagens no celular no jantar em família mesmo estando de frente um pro outro na mesa, a gente falaria mal de filmes e músicas que todo mundo fala bem, a gente falaria bem de filmes e músicas que todos falam mal, a gente morreria de ciúmes um do outro, mas a gente deixaria o outro dar uma olhadinha para outra pessoa, afinal olhar de leve, por quase dois segundos não arranca pedaço, a gente sairia separados, cada um com seus amigos, mas sempre pensando no outro, a gente ia visitar parente distante e no caminho parar em qualquer lugar inusitado e fazer amor, a gente ia concordar em muita coisa, a gente ia discordar em mais coisas ainda, a gente ia confessar segredos inconfessáveis e riríamos falando que é isso, não tem problema nenhum, e a gente ia chorar no colo do outro por qualquer um daqueles motivo que valem a pena chorar, enquanto o outro faz cafuné e diz xiu, a gente ia aprender a dançar alguma dança, a gente ia dormir abraçados no sofá e acordar com uma puta dor no corpo porque já não temos idade pra dormir abraçados no sofá, e antes de dormir no sofá a gente ia fazer amor sem prestar a mínima atenção no filme que a gente brigou tanto na locadora para alugar.

Mas o problema é que eu não tenho sorte e por isso você não gosta de mim e nem deixa eu gostar de você. Pela minha falta de sorte nós ainda não fizemos tudo o que poderíamos fazer. No final das contas, porque eu não tenho sorte, você também não tem.


Fugazes paixões eternas

16/Abril, 2009

9:00h -  Estou no ônibus indo trabalhar e lendo um livro, quando tenho minha atenção desviada para uma menina que acaba de entrar. Ela entra e fica ali, parada à minha frente. Uma graça, esbanja charme, e eu fico instantaneamente apaixonado pelos cabelos negros ondulados, ainda molhados, pela pele fresca do banho, meio assim cor de jambo (apesar de eu nunca ter visto jambo). O ônibus segue cada vez mais cheio e eu sigo cada vez mais apaixonado. Já imagino nós dois na mesa de bar e alguém perguntado “Como vocês se conheceram?’ Cuidado com a resposta, errar o número da linha do ônibus é crime maior do que esquecer o aniversário dela. A coisa fica séria e o meu primeiro presente é um carro. “Não quero que fique andando de ônibus com tanto vagabundo metido a Don Juan por aí”. Depois de algum tempo começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Nessa hora, o ônibus para no ponto e ela desce. Observo pela janela minha paixão sumir na multidão para nunca mais voltar. Volto ao livro.

9:30h - O elevador do prédio onde trabalho se enche de gente no térreo. Estou no fundo e, quando a porta se fecha e a massa se ajeita, noto uma nuca caprichosamente posicionada à minha frente. Me apaixono na hora. Os cabelos castanhos, brilhantes, meticulosamente presos, e apenas alguns fios soltos, colados à nuca. Já me vejo abraçando-a por trás e explorando aos beijos aquela nuca durante horas. E outras tantas horas contando uma por uma quantas sardas ela tem no rosto que, apesar de eu não estar vendo agora, sei que existem aos montes. A cena muda para nós dois na rede, numa tarde preguiçosa de começo de outono, com o sol se pondo, ela deitada no meu peito com aqueles cabelos todos espalhados, eu fazendo um cafuné interminável, a gente falando sobre nada e sobre tudo, ou melhor, no mais absoluto silêncio. Naquela hora começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Mas antes que eu diga isso para ela, a porta do elevador se abre e ela sai. Da minha paixão, só resta o perfume, enquanto o elevador sobe.

9:32h - Entro no escritório onde trabalho. A recepcionista me olha e me cumprimenta com um “Bom dia” que é música para os meus ouvidos e um sorriso tão sorriso que eu me apaixono de imediato, sem resistência. Vem à minha mente a imagem de nós dois num quarto e, quando eu acordo ela está sorrindo aquele sorriso dela para mim, o que, junto com o sol da manhã que entra pela janela e os seus cabelos dourados, faz com que o quarto fique insuportavelmente iluminado. começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Mas aí vejo meu chefe acenando da sala ao lado e, antes que eu tenha a certeza de qualquer coisa, vou para a minha mesa trabalhar e a paixão fica ali na recepção.

Encaro o micro, mas só consigo pensar nas minhas três fugazes paixões daquela manhã. Num exercício mental, repito que preciso parar de me apaixonar assim. É quando eu ouço um “Oi Paulo” feminino atrás de mim. E sorrio antes mesmo de me virar.


Como me custa te esquecer

19/Agosto, 2008

 

Consultório do psicólogo. Estou deitado no pufe, o terapeuta está sentado em algum lugar fora do meu ângulo de visão, muito provavelmente na penumbra, já que todo o ambiente está à meia-luz. Os psicólogos realmente adoram ficar na penumbra ou são só os meus?

- Você ainda não esqueceu-a, né? – pergunta ele.

Porque raios eu tenho que falar de você? Respondo que claro que não, que mesmo depois desse tempo ainda penso muito em você. Mais do que deveria ou do que gostaria. E relato que, na noite anterior, estava eu andando de volta para casa, quando começa a tocar “Com Você Meu Mundo Ficaria Completo” no ipod. Imediatamente me lembrei de você. É a declaração que eu sempre quis fazer, mas nunca tive chance ou coragem. Nesse exato minuto, surge por detrás dos prédios a lua. Cheia, enorme, monumental. Lembrei da viagem que fizemos e a lua estava assim. Quando cruzamos nossos olhares, foi como se disséssemos ao mesmo tempo: “Olha a lua” e logo em seguida nos respondemos de novo ao mesmo tempo “É”, e rimos. Uma daquelas cenas difíceis de esquecer, sabe? Podia jurar que nessa hora, ouvindo a música e olhando a lua, mesmo caminhando por um posto de gasolina, eu sentia o seu perfume. Aquele que você usa sempre e que eu adorava tirar. “A mente nos prega cada peça”, o psicólogo concorda comigo.

Antes de acabar a consulta, ele ainda me vem com aquela ladainha de “vai passar” de sempre e faz algumas conjecturas. Mas eu só suspiro, revivendo o momento da noite anterior. Ele me chama à realidade quando sentencia:

- Hoje é dia de acertar o mês.

Enquanto eu preencho e assino o cheque, que não é baixo, você ainda ocupa meus pensamentos. Caramba, como me custa esquecer você!


Blogorniak – As Mil Faces do Gorniak

29/Maio, 2008

Senhoras e senhores, terráqueos e marcianos.

Bem-vindos ao meu segundo blog. O primeiro eu pensei que ninguém lia. Aí, para minha surpresa, descobri que liam. E plagiavam haha. Fiquei puto e execrei o infeliz “Cacete, por que raios tem que copiar tudo o que eu escrevo?”. Mas ao mesmo tempo fiquei lisongeado, porque se copiam é porque é bom. Então, resolvi insistir com esse negócio de blog e montei um maior, melhor e mais legal. (na verdade, espero que seja assim).

Quero aqui postar os textos de cada uma das minhas múltiplas identidades, cada um espacializado (ou não) em algum assunto. (aliás, alguém já assistiu aquele filme Identidade, com o John Cusack? O cara, que nasceu dia 10 de maio, tinha várias personalidades. Coincidência?)

Abaixo alguns dos Gorniaks que escreverão nesse espaço. Estava pensando em nomeá-los como “O Cronista”, “o Trovador”, “O Político”, “O Amante” e “O Malandro”, mas outro cara de olhos verdes já tinha feito isso antes. Então, tive que escolher outros personagens.

Nós todos esperamos que os leitores divirtam-se ao ler tanto quanto nos divertimos ao escrever. E não plageiem, por favor.