Para Esquecer um Grande Amor – final

6/março, 2012

- Posso saber por que o senhor não falou nada hoje?

A voz era grave e autoritária, em nada parecida com o tom suave que eu tinha ouvido de Eunice pouco tempo antes. A cara era a mesma, apesar de um pouco mais contorcida por caretas. O pior é que não havia a menor possibilidade dela não estar falando comigo. Eu estava sozinho nas cadeiras. A resposta era óbvia. Eu sabia, ele sabia, nós sabíamos o motivo de estar ali. Tinha sido rejeitado e me tornara obssessivo já havia meses e esse sofrimento não passava. Minha vida havia se tornado insuportável, não comia, não dormia, não trabalhava, não me divertia, nada eu fazia direito. O Joca esperava que ali eu achasse uma cura.

- Não, não. Eu falei sim tudo o que tinha para falar. – foi o que eu consegui balbuciar, meio gaguejando e tropeçando nas palavras. Ele me mediu de cima abaixo e, fulminando com o olhar, como quem conhecesse todos os meus segredos mais íntimos e secretos, disse apenas

- Você vai voltar aqui outras vezes, ah se vai!E da próxima vez é bom falar tudo o que passa aí -  apontou para o meu coração – Só assim que a gente pode ajudar você.

Ela voltou para o cercadinho e chamou o próximo e voltou a atender quem precisava. Prescrutei o ambiente em busca do Joca, mas ele já não estava por ali, Fui encontrá-lo perto da porta de saída. Quando, a caminho de casa, contei o ocorrido, ele me xingou por ter sido tão burro e me fez prometer que voltaria com ele na outra semana.

E assim foi, na semana seguinte eu voltei, menos pela promessa ao Joca ou para realizar o vaticínio do Pai Nelinho, e mais para ver a morena de cabelos negros, roupa branca e olhos verdes que não tinha saído da minha cabeça. Foi até engraçado, mas foi uma semana em que eu passei  a pensar bem menos na mulher que nem preciso mencionar, que eu consegui até dormir algumas noites e até voltei a me comportar como agia antes da desilusão amorosa. Ao chegar na mesma casinha simples e ajeitada, fomos recebidos por – meu coração quase parou – ninguém mais ninguém menos que a morena. Deu-nos as boas-vindas com um sorriso enorme, tão branco quanto a sua roupa. Joca apressou-se a dar um abraço caloroso de “há quanto tempo” nela e me apresentou:

- Essa é a Patrícia. Patrícia, esse aqui é o Paulo, segunda vez que vem aqui.

- É mesmo? Que bom, espero que venha mais – falou sem parar de sorrir um minuto. Pensei em alguma bobagem como ela, Patrícia, não ser Poeta, ser a própria poesia, mas achei que não seria algo muito adequado a se falar, mesmo explicando que era um elogio e tanto, então retribuí apenas com um sorriso sem jeito. Começamos a conversar e, impressionante como é essa coisa de sintonia entre duas almas feitas uma para a outra, quando vi já estava na hora de começar a cerimônia. Ela foi para o meio junto com os outros de branco, começaram os atabaques, as palmas, a cantoria. Eu ajudava nas palmas e sorria satisfeito, sem tirar os olhos da Patrícia. Entrou Eunice, veio o Pai Nelinho e os cavalos começaram a receber suas entidades. Como já disse, não é uma ciência exata e nem sempre todos incorporam. Aquele dia Patrícia não recebeu ninguém e, quando chegou a minha vez, a única pessoa disponível era Eunice, ou melhor, Pai Nelinho. Engoli a seco e fui. Para minha surpresa, nem cheguei a abrir a boca, nossa conversa foi um monólogo:

- Você voltou mesmo, não? Sabia que voltaria. Mas fica sossegado que agora nem precisa dizer nada não. Continua assim que seu problema já está acabado.

Simples assim. Me girou, bateu com um galhinho de arruda nos ombros, no peito e nas costas, me deu um gole de cachaça (por que sempre me dão cachaça?) e me liberou. Como Patrícia não tinha incorporado aquele dia, não precisou descansar depois dos trabalhos e estava na entrada da casa, se despedindo de todos que iam embora. Me aproximei e engatei conversa, que fluiu uma beleza até chegar o Joca, que foi quando fomos embora. Não sem antes eu prometer que voltaria, “especialmente para vê-la”, frisei. E continuei voltando, umas três semanas se eu não me engano, até que eu consegui convencer a Patrícia a enconrá-la fora dali. A partir daquele momento, eu não precisava ir mais ao Centro, já tinha conseguido o que tinha ido buscar: uma cura para minha obsessão. Para esquecer um grande amor, nada melhor do que se apaixonar de novo.


Para Esquecer um Grande Amor – 3ª parte

6/março, 2012

Cutuquei com o cotovelo o Joca, sem tirar os olhos do Pai Nelinho, que me encarava. Quando o Joca perguntou “Que?”, Pai Nelinho já tinha virado para o lado e foi acender um charuto. Foi quando os ajudantes que estavam batendo palma e cantando começaram a, um a um, entrar em transe e incorporar outras entidades. Não era uma ciência exata, não tinha ordem definida, “Você não escolhe o santo, o santo escolhe você” me explicou o Joca depois. A certa altura, de trás da mulher de cabelos cacheados que eu evitava olhar, saiu dançando uma morena. Não tinha reparado antes justamente por ela estar no meu ponto cego, no lugar onde eu preferia não reparar. Na hora e que a morena saiu dançando para o meio do terreiro, me recriminei por não tê-la notado antes. Não era uma morena qualquer, era A morena. Alta, olhos verdes, cabelo preto bem liso e tremendamente gostosa. Peitos, bunda, coxas, até a nuca chamava a atenção. Não bastasse isso, estava toda de branco. E é algo universalmente aceito que uma mulher de calça branca multiplica por 118 a libido de um homem. Resultado: fiquei completamente hipnotizado. As pessoas começaram a ser chamadas para passarem pelas consultas para aconselhamento que tinham ido buscar. Era, tal qual a incorporação dos cavalos pelos santos, algo aleatório: as pessoas entravam no terreiro e dirigiam-se a um incorporado, falavam as suas aflições, recebiam conselhos, eram ungidos com um ramo, ou com cachaça, ou com ambos, e iam embora. O próximo entrava no terreiro e dirigia-se ao santo “livre”. A consulta durava o tempo que tinha que durar, diferente para cada pessoa e cada problema, portanto. Comecei a torcer para que eu tivesse alguma sorte e que, na minha vez, a morena espetacular estivesse livre e que eu pudesse me aconselhar com ela. Meus devaneios foram interrompidos por Pai Nelinho, que começou a bradar em altíssimo e bom som, para todo o terreiro ouvir, como a mulher que ela estava aconselhando era uma fraca porque não denunciava o marido que batia nela. Passou alguns bons minutos nesse tom de voz próximo ao grito, achicalhando a passividade da mulher e dando aquele esporro.

Agora, mais do que passar pela morena sensacionalmente gostosa, eu queria mesmo era NÃO ser atendido pelo Pai Nelinho. O que será que ele gritaria para todo mundo ouvir? Que eu era um idiota por ficar obcecado por alguém que não estava nem aí pra mim? Ia bradar que todo mundo é rejeitado na vida, ordenar que eu virasse homem, parasse de me lamentar e seguisse minha vida? Eu gelei. As entidades são assim, tudo vêem e tudo sabem. E agora tinha acabado de me ocorrer que, ao conversar com a morena, a entidade que a dirigia fatalmente perceberia que eu estava doido para comer seu cavalo. Seria isso um desrespeito? Como eu deveria me portar? O que seria melhor? Tomar esporro do Pai Nelinho ou da morena gostosa? Graças a Deus (e a sei lá mais quais entidades enolvidas) quando chegou a minha vez nem a morena nem o Pai Nelinho estavam disponíveis, fui atendido por um senhor que falava baixo e que custei um pouco a entender. Me perguntou o que eu tinha e eu, até agora não sei por que, ao invés de contar minha mega desilusão amorosa, disse que nada, que estava tudo bem. Ele tornou a perguntar se eu não precisava de nada, reiterei que não, só a benção dele, que ele deu junto com um gole de cachaça e me liberou. Ao sair do cercadinho, sentei nas cadeiras, agora quase todas vazias, esperando o Joca. Respirava aliviado, pensando na sorte que eu tive por passar por ali sem nenhuma situação mais constrangedora, seja por medo do Pai Nelinho, seja pelo tesão incontrolável pela morena.

Foi aí que aconteceu o que eu não esperava. Pai Nelinho terminou de atender uma pessoa e, ao invés de solicitar que o próximo chegasse mais pero, ele se levantou e veio até a minha direção no cercadinho. Um semblante carregado, parecia extremamente insatisfeito.

(continua)


Para Esquecer um Grande Amor – 2ª parte

4/março, 2012

Era uma quarta-feira a noite, dia de futebol na tevê (outra das paixões que eu tinha abandonado simplesmente porque não via mais graça. Nem torcer contra o time dela eu conseguia). Joca me botou no carro e, enquanto dirigia seu velho Monza para algum lugar que eu não fazia ideia qual era, explicava:

- Isso aí não é paixão não. Isso é encosto e dos brabos. Pra corrigir isso, só tem uma solução. Meu irmão trabalha em um centro de umbanda, vamos pedir para o Pai Nelinho te ajudar.

Chegamos ao destino sem muita dificuldade, apesar de ser uma pequena e modesta casa perdida numa quebrada nos confins de Interlagos. Ao entrar, peguei uma ficha para atendimento e, como eu era marinheiro de primeira viagem no quesito visita a terreiros, o Joca foi me explicando cada detalhe, como se fosse o guia de uma excursão.

Entramos no terreiro e sentamos em umas das últimas cadeiras ainda vazias. As paredes ao redor eram decoradas com anjos católicos, africanos e temas náuticos, numa representação de “o que é sincretismo religioso” que você não acha em nenhum dicionário. Um cercadinho de madeira separava todos nós da parte onde um trio já tocava os atabaques e um círculo de pessoas, todas de branco, acompanhavam o ritmo batendo palmas e cantando. Óbvio que ao bater o olho no grupo, a terceira do lado esquerdo, com seu longo cabelo cacheado, imediatamente me fez lembrar dela, meu amor não correspondido. Tentei afastá-la para longe me concentrando na música. Devo confessar que sou imediatamente atraído por esse tipo de som e a cantilena era algo muito bom de se ouvir. Uma mulher passou pela multidão e Joca cumprimentou efusivamente. Quando falou algo ao seu ouvido, ela se virou pra mim, apertou a minha mão com suas duas mãos e, sorrindo amavelmente, procurou me tranquilizar.

- Olá, tudo bem? Seja bem-vindo. Eu sou a Eunice, responsável por essa casa. Já sabemos porque você está aqui, o Joca já falou do seu problema para mim. Nós vamos te ajudar.

Ainda rindo ela nos deixou e cruzou o cercadinho de madeira e entrou no meio do terreiro. Todos abriram caminho fazendo deferências. Ela caminhou até o fundo, virou-se de frente para todos nós, fechou os olhos, respirou fundo e assim permaneceu imóvel. Como que lendo meu olhar de interrogação, Joca apressou-se a responder:

- Sim, ela é o Pai Nelinho. Na verdade, ela é o cavalo dele, a pessoa que recebe a entidade. Quando Pai Nelinho e as outras entidades baixam, o cavalo que empresta o corpo não tem mais consciência nenhuma. Entra em transe e só retorna depois do ritual, sem se lembrar de nada. É com ele que você vai falar, não com a Eunice que você acabou de conhecer.

O barulho dos atabaques aumentou em volume e em ritmo e as palmas acompanharam. A cantoria também ficou mais alta e o clima todo era irresistível. Subitamente Eunice sai da inércia e se inclina violentamente para a frente. Começa a cantar e rir e a dançar. Já era Pai Nelinho que estava no comando. E não sei se era porque eu estava dando muita bandeira olhando tudo de um jeito de criança imensamente curiosa, ou porque era uma cara nova ali, ou porque minha obsessão por aquela que me rejeitou era forte mesmo, mas assim que parou de dançar e rodopiar e cantar, Pai Nelinho me olhou diretamente no olho. E um calafrio percorreu minha espinha.

(continua)


Para Esquecer um Grande Amor – 1ª parte

1/março, 2012

Rejeição é uma coisa engraçada. Você pode nem gostar tanto da pessoa, pode ser apenas um daqueles casinhos divertidos, e nada mais, igual a qualquer um desses que você teve aos montes nesses anos. Ou pode ser que ela seja tão diferente de você, mas tão diferente, que está na cara que qualquer comprometimento maior, qualquer pitada de intimidade e convivência no dia a dia se encarregam de destruir o carinho e admiração que você tem por ela. Ou, pior ainda, está na cara que ela não vale nada, que só vai te fazer sofrer, não tem como acabar bem. Não importa. Basta que ela não queria nada contigo, ou que você ouça um “não te quero mais” ou que ela simplesmente suma sem dar nenhuma explicação, para que o mundo acabe, a tristeza se instale na sua vida e você comece a se sentir a última das pessoas.

Um dia ela chegou para mim e disse “Olha, gostei muito, foi bom pra caramba de verdade, mas não quero mais”. Diante da minha cara de bobo e perplexo, reforçou: “passou, acabou, descurti”. Como eu continuei sem me mover, sem esboçar qualquer reação, só observando-a com um misto de perplexidade e “É pegadinha do malandro?”, ela foi embora, sem mais nada dizer ou explicar.

E aí eu vi como é engraçada a rejeição. Não vou negar que realmente era legal estar com ela e ter passado o que passamos, mas a paixão nem de longe era avassaladora, amor então nem sequer deve ser cogitado. Mas bastou eu ter sido rejeitado que tudo adquiriu uma dimensão insuportável. Eu não conseguia parar de pensar nela, não conseguia parar de lembrar das suas gírias, do seu tom de voz. Seu perfume eu sentia em todo lugar, em qualquer pessoa. Nas ruas, no metrô, na Avenida Paulista, qualquer mulher de vestido ou qualquer cabelo comprido mais cacheado era ela.

Fui atacado por crises terríveis de insônia, onde ela passava a noite inteira comigo, nos meus pensamentos. As poucas vezes que eu dormia não eram melhores, já que meus sonhos eram inexoravelmente dirigidos a ela. E tinham caráter sexual, ainda por cima.

O trabalho ficou seriamente comprometido. Só conseguia pensar nela e em por que raios ela simplesmente “descurtiu” sem mais nem menos. Sem concentração, foco ou criatividade, não fazia nada que prestasse. Para quem vive de produzir ideias, isso era deveras preocupante. Sem mencionar, claro, o aspecto físico: sem dormir, desleixado com as roupas e com a aparência, fiquei mais perto de um figurante dos filmes do George Romero do que propriamente de um ser humano ativo e sociável.

Tentei de tudo. Tomei porres homéricos, mas que só me fizeram chorar no ombro de amigos e protagonizar outras situações vexatórias. Procurei um psicólogo, mas eu dfinitivamente não saía melhor do consultório depois de uma hora falando só dela, pensando nela, comentando dela. Viajei e vi lugares, mas eles eram desinteressantes simplesmente pelo fato de ela não estar ali comigo. Conheci pessoas, muitas pessoas, mas nenhuma era tão legal ou charmosa ou chata ou implicante quanto ela. Em resumo, ninguém chegava nem perto dela, para o bem e para o mal.

Sim, a rejeição acabou me tornou obsessivo por ela. E essa obssessão já durava por volta de uns três meses, com todos os amigos (e amigas) já tendo feito de tudo para me animar, quando apareceu em casa o Joca e sentenciou: “Tenho a solução certa pra ti. Vem comigo”.

(continua)


As férias da Redenção – prólogo parte 2

8/junho, 2011

- Quem está aí? – a insônia estava definitivamente começando a me fazer mal. Além de delirar, estava conversando com meu delírio.

- Sou Eu, oras. Você Me perguntou e Eu respondi. “Ò Senhor, porque eu pego tanta mulher feia?”

Fiquei quieto. Lembrei de um filme do Spielberg chamado “O enigma da pirâmede” em que as pessoas, ao serem atingidas por um dardo envenenado, tinham alucinações super reais e acabavam, em pânico, se matando. Não era o meu caso, mas eu me prometi não me matar, então só fiquei no mais absoluto silêncio.

- Você pega tanta mulher feia porque precisa – continuou a voz, vindo sabe-se lá de onde. Acredita em karma? Missão na Terra? Resgate de vidas passadas? Evolução do espírito? Então, é por causa disso. Antes de você nascer, combinamos que essa seria a sua missão. Você tem uma obrigação a cumprir, uma cota de mulher feia a pegar, uma meta a bater.

Pa, peralá – não me contive – que papo é esse de cota? De meta? Corta essa! É só ver o que já fiz até hoje. Em quantidade e qualidade de mulher feia eu já bati qualquer cota que porventura tenha sido acordada. É só olhar aí. Pode ver.

- Hum – retrucou a voz, pensativa. Tem razão, a lista é impressionante. O problema é que seu resgate kármico é muito grande, ainda não foi o suficiente. Tá perto, não falta muito, mas você ainda tem trabalho a fazer, sem sombra de dúvida.

- Tá perto pra acabar então? Sério?

- Sim sim, não falta muito. Pelos meus cálculos, mais um aninho ou dois, você cumpre sua parte no acordo.

- E, acordo cumprido, o que acontece? A maré melhora? Só mulher bonita na área?

- Exatamente. Eu me encarregarei pessoalmente para que chova na sua horta. A não ser que pref ira continuar pegando as feias. Livre arbítrio tá aí pra ser exercido né?

- Bom, e se eu fizer um intensivão? Me esforçar sobramaneira e ir fundo em dragão, jaburu e toda a sorte de mulher feia?

- Bom, quanto antes você bater a sua meta, antes as coisas melhoram para você. Mas já falei demais, era só pra dar uma passada rápida aqui. Ainda tenho muito o que fazer em outra parte. Mas guarde isso. Ouanto mais mulher feia você pegar, mais cedo se livra da obrigação que acertamos antes de você nascer. Pense nisso e agora durma.

Imediatamente eu caí no sono e dormi profundamente, chegando a acordar atrasado para o trabalho no dia seguie. Lembrei do sonho na noite anterior no ônibus quando uma feia atravessou a catraca, achei loucura e provavelmente não levaria muito a sério, só como um sonho doido msmo, quando lembrei das palavras do que minha avó, a velha Venina, sempre dizia: “Não ignore seus sonhos. Eles trazem sinais poderosos.” Isso marcou porque uma noite ela sonhou que morria e pouco depois, morreu. Resolvi não brincar com isso, aproveitei no trabalho que tinha alguns dias de férias para tirar e marquei uma viagem pelo nordeste e pelo norte do Brasil. Ia aproveitar essa inspiração divina para conhecer as Festas de São João de Caruaru e Campina Grande, a festa do boi de Parintins e, de quebra, passar o rodo em mulher feia para quitar minha dívida com Deus. Essas seriam as férias da redenção.

(fim do prólogo, início da história)


As férias da Redenção – prólogo parte 1

7/junho, 2011

Aviso importante!

1 – Eu não sou bonito. No máximo, no máximo, posso me considerar um gordinho gente fina.

2 – Meu conceito de bonito, aliás, é bem, digamos, maleável. Em outras palavras, eu pego sim mulher feia, e daí?

Levando em conta essas duas prerrogativas acima, fico então bem à vontade para escrever e falar, com propriedade, sobre gente feia.

Spoiler: se não sabe entender um texto como entretenimento, que não tem a menor intenção de desrespeitar ninguém, pessoa, grupo ou etnia em especial, se acha que pode ficar ofendido com comentários sobre beleza e feiúra, por favor pare de ler por aqui. Você provavelmente é feio, e se serve de consolo, tenha certeza que vai encontrar alguém que não te ache tão feio assim, ou que não ligue pra essas coisas. Agora, se você, como eu, sabe rir dos seus defeitos, boa leitura. Fim do spoiler.

Outro dia tive insônia. Quem já teve sabe o inferno que é. Acontece que tive insônia numa noite em que não havia energia elétrica em casa. Pior que insônia é insônia sem ouvir música, sem ver tevê, sem ligar o computador e sem ter uma luz sequer para ler um manual jurídico que seja (eles sempre dão sono). Era só eu e o teto do quarto, o quarto do teto e eu. É nessa hora em que parece que o relógio congelou e o tempo não passa que surgem os pensamentos mais estranhos, e uma pergunta surgiu e ficou ali incomodando e estorvando e atormentando, que nem o irmão menor daquela menina que você quer beijar e que apareece bem na hora em que você consegue ficar sozinho com ela. A pergunta era “Por que eu pego tanta mulher feia?”.  Já fiquei com muita mulher bonita, daquela que dá orgulho andar do lado só pro pessoal se perguntar “Mas como é que ele conseguiu ficar com ela? Só pode ser rico.” Ou neguinho perguntar se eu tava pagando a menina que eu dizia ser minha namorada para me fazer companhia. O problema é que, na mesma quantidade de mulher bonita, existiu na minha vida as mulheres feias. E não são poucas, parei outro dia para pensar. E minha dúvida foi exatamente essa: Ó Senhor, se eu consigo mulher bonita, porque raios vou atrás das feias também?

- Por que você precisa – uma voz respondeu.

Gelei. Até onde sabia, estava sozinho no meu quarto. A insônia estava começando a me fazer mal.

(continua)


A acompanhante inesperada (ou “O Ano Novo de 2011”) – Parte 14

2/maio, 2011

Parte 14 – Enfim, mulheres na história

Apesar de dormir apenas umas cinco horas, acordamos cedo para chegar o mais rápido possível a Guarapari. Apesar de ter inúmeras praias bem bonitas para se visitar, concordamos que dessa vez não iríamos conhecer nenhuma delas, sinto muito, fica paa uma próxima. Nosso périplo de ano novo já tinha deixado há tempos de ser uma viagem meramente turística, com visitação às belezas naturais, artísticas e arquitetônicas, para nos transformar-se em uma caça sem tréguas tão e unicamente às belezas femininas.E a coisa não estava boa pro nosso lado, com todos os quatro zerados até então. Mas esse quadro estava prestes a mudar pois tínhamos uma chance de ouro, um mezzo show mezzo micareta com Asa de Águia e Maria Cecília e Rodolfo. Preferências musicais à parte, éramos obrigados a concordar que o volume esperado de mulheres no evento desses tornava imperativa a nossa presença.

Com a chuva como presença constante desde o início da viagem, foi uma agradável surpresa ver que o dia amanheceu com sol, o que só serviu para dar um ânimo extra. Ouvindo uma coletânea de sambas enredo, que era o que mais próximo tínhamos de axé, rapidinho chegamos na cidade. E aí, o que fazer? Procurar onde ficar ou procurar ingressos para o show? Por ordem de importância, claro que era o ingresso. Mas convenhamos que não era nenhum show do Paul MacCartney, então não havia motivo para muito pânico. Então fomos procurar um cafofo qualquer para chamar de nosso e, seguindo o método já experimentado e consagrado nas outras cidades, paramos num boteco. Ratificando a infabilidade do método, antes da terceira cerveja já tínhamos um endereço com indicação de onde ficar. O único risco desse método era que às vezes a indicação não é lá das melhores. Foi o caso. Fomos parar num prédio no centro da cidade, que outrora foi uma pensão, agora transformada em pousada de baixo custo, o típico cenário de filmes de terror da década de 80 que costumavam passar no Super Cine, com corredores longos e mal iluminados. Mas isso era o de menos, se conseguíssemos o ingresso pro show que era garantia de altíssima concentração de mulheres, poderíamos encarar numa boa qualquer serial killer que pudesse aparecer no fim da noite, quando voltaríamos para dormir.

Uma passada rápida no supermercado e, um cooler cheio de cervejas, uma garrafa de pinga e um pote de mel depois, estávamos na frente do Parque Aquático onde aconteceria o show. Constatamos que, como eu havia previsto, não seria nada difícil comprar os ingressos, era só esperar a bilheteria abrir. Com isso, tivemos tempo e sobra para voltar para a cidade e comer algo. Nada melhor do que retomar o espírito de desbravar a culinária local, tão enfatica e glutonicamente exercido na nossa primeira parada em Minas. A escolha ago ra, no Espírito Santo, não poderia ser outra que não a moqueca capixaba. É uma questão de gosto, alguns preferem a baiana e dizem que a capixaba tem muito coentro, mas pra mim estava ótima e na dúvida, entre baiana e capixaba, eu fico com as duas.

Gula satiseita, passamos um bom tempo praticando o nadismo, para satisfazer também à preguiça (cá entre nós, dois dos três mais nobres pecados capitais). Era pouco ais de cinco da tarde, de um show previsto pra começar 8 da noite, quando voltamos para a frente do Parque Aquático. Naquela hora, só nós e os ambulantes com cerveja estavam ali por perto. Correção: nós, os ambulantes com cerveja e uma dupla de meninas, que estavam paradas bem junto à bilheteria. Quando fomos comprar nossos ingressos, descobrimos que eles ganharam várias cortesias e tinham algumas ali pra vender, e perguntaram se não queríamso comprar delas. É difícil eu falar “não” a um para aquele par de olhos castanhos daquele rostinho de anjo que me oferecia as entradas. E, além do mais, não era nenhum show do Paul MacCartney para ter ingreso falsificado, acabei comprando.

- Mas, só por garantia, vocês vão entrar com a gente, né? – me certifiquei, antes de entregar o dinheiro a elas. Eu sou assim, duro, impiedoso, insensível. Não é só porque ela tinha lindos olhos castanhos e uma carinha de anjo que eu me deixaria levar pelo impulso. Ela assentiu e, para ajudar o tempo passar, convidamos as duas para ficar tomando cerveja conosco do lado do nosso carro (bendito seja o cooler). Vendo em sua frente tão belos e simpáticos garotos, é óbvio que elas aceitaram. E foi aí que a magia de uma micareta mostrou o seu valor. O tempo ia passando, o pessoal ia chaegando e nós ali, bate papo, cerveja, piadas, pinga com mel, gracejos, mais cervejas, uando me dei conta já tinha escurecido e eu estava encostado na parte traseira do carro, beijando a minha anja dos olhos castanhos. E isso porque o show nwm tinha começado, não tinhamos sequer entrado no Parque Aquático ainda. Obrigado, Guarapari. Obrigado Assa de Águia e Maria Cecília & Rodolfo: lhes serei eternamente grato por beijar a minha primeira caprichada.

Descobrimos que as cortesias que minha angelical carpichada de olhos castanhos tinha em mãos precisava ser trocada pelo abadá no guichê, e lá fomos nós fazer a troca. Uma fila imensa de pessoas que aguardavam para pegar seu abadá andava a passos de tartaruga quando um desconhecido me chama:

- Posso entrar com você nessa fila? Preciso pegar o abadá pra todo mundo da turma e eu, como único homem, fui escalado pra fazer isso. E essa fila tá foda.

Nessa hora, mesmo tendo uma caprichada angelical de olhos castanhos para chamar de sua, é impossível não prestar atenção a certas palavras, como  “turma” e “único homem”. Na hora fiz um teatrinho de “Nossa, você! Quanto tempo hein?” e prontamente trouxe para junto de nós na fila. Na conversa que se seguiu ele confirmou que estava com um grupo de seis amigas e só ele de homem. O fiz prometer que, em retribuição à minha gratidão na fila, ele levaria todo o comboio de mulheres para beber uma cerveja lá no nosso carro. Fizemos a troca, saímos da muvuca e eu apontei para ele a direção do carro. Ele se despediu agradecendo e prometendo que apareceria para tomar a cerveja.

Tão logo estávamos todos com abadás na mão, garantia de que entraríamos, minha caprichada angelical de olhos castanhos sugeriu que entrássemos. Como havia ainda uma parte do cooler de cerveja a ser terminada, com lágrimas nos olhos eu dise que ainda não podia, nos despedimos e eu voltei para o carro. Qual não foi minha surpresa ao chegar lá e constatar que nosso arsenal etílico, além da pinga com mel e das cervejas, tinha sido reforçado por uma garrafa de Red Label e alguns energéticos. Radiante, Thiago eplicou que trombou com um ambulante que ofereceu a garrafa e mais quatro energéticos por cinquenta reais. Nem entrei no mérito de que só a garrafa original custava mais que isso. Era promoção de ocasião e tpinhamos que aproveitar. Mais espantoso ainda do que uma garrafa supostamente original de Red Label e quatro energéticos a cinquenta reais foi o súbito aparecimento do meu amigo desconhecido da fila. Cumprindo a sua promessa, ele chegou com toda a sua trupe de amigas, que foram recebidas calorosamente por nós, cervejas, pinga com mel e whisky. Claro que não precisou de muito tempo e papo para todo mundo estar enroscado  com uma e, o fato de ter beijado duas antes sequer de entrar para o show, me deixava especialmente animado para o que poderia acontecer no restante da noite. Só resolvemos entrar quando acabou toda a bebida lá fora.

(continua)


A acompanhante inesperada (ou “O Ano Novo de 2011”) – Parte 13

26/abril, 2011

Parte 13 – E quem não ama a lama?

Fazia exatamente três dias, dezesseis horas e oito minutos que tinha saído com Luciano, Thiago e Fábio de São Paulo para uma viagem pé na estrada, pingando de cidade em cidade pelos estados da Região Sudeste, durante o exíguo período que posso chamar de férias conseguido entre o Natal e o Ano Novo. Passamos por São João Del Rei, Tiradentes, Ouro Preto e Cachoeiro do Itapemirim e, só em Vitória é que eu estava frente a frente com uma menina, naquele momento em que você sente que”já ganhou”, que a princesa está convencida a beijar o sapo e vocês dois serão felizes para sempre (pelo menos até o dia seguinte). Três dias, dezesseis horas e nove minutos e eu sorrio por dentro. Já não era sem tempo.

Mas estou me adiantando. Voltemos a narrativa um pouco, mais precisamente centro e trinta e um minutos, quando chegamos à Rua da Lama. A Rua da Lama na verdade não chama Rua da Lama, tampouco tem lama, é um apelido carinhoso do pessoal que frequenta seus inúmeros barzinhos. Diferentemente do Tirângulo das Bermudas,onde os bares são “botecos chiques” mais arrumadinhos, na Rua da Lama, com certeza devido à proximidade com a Universidade Federal do Espírito Santo, a coisa é mais despojada, mesas de plástico na calçada, copos americanos de limpeza meio duvidosa, alguém com um violão emendando um forró num funk e depois num samba e uma balbúrdia generalizada de pessoas andando pra lá e pra cá, pessoas dançando, pessoas se beijando e garçons fazendo malabarismos para atnder todo mundo. Em resumo, no Triângulo das Bermudas você leva a menina no primeiro encontro pra impressionar. Na Rua da Lama você a leva todos os outros que acontecerem, pra deixar claro que aquilo ali é a sua realidade, é nesse ambiente que você se sente em casa. Se gostou, ótimo, se não gostou, que pena, foi bom enquanto durou.

Apesar da maioria dos bares estarem fechados, era período de férias na universidade, alguns poucos estavam firmes e fortes de portas abertas, e com uma ótima quantidade de pessoas bebendo e conversando e cantando e dançando e beijando. Dois tocavam música ao vivo: um, rock clássico, daqueles sempre bons de se ouvir, mas que infelizmente não foi páreo para o outro, que mandava ver num sambão e onde o pessoal estava mais animado. Claro que era também o bar mais cheio e disputado, o que tornava a busca por uma messa uma tarefa árdua, porém obrigatória: eles não serviam pessoas que não estivessem numa mesa. Fomos cada um para um lado e roda e procura e conversa com garçom, e pede licença aqui, “vocês estão usando essa mesa?”, e conversa com outro garçom, e teima e lima e sofre e sua, enfim uma menina se dispôs a doar uma das mesas de plástico que o grupo dela estava usando. “Fica com essa mesa aqui do lado ó, que a gente se acomoda nessas duas outras. Tá todo mundo de pé e dançando mesmo, não vai ser problema.” Claro que teve gente no gupo dela que tentou reclamar, mas eu já agradecia efusivamente enquanto puxava a mesa um pouquinho de lado e sentava numa cadeira, oficializando a posse. Chamei todo mundo, nos acomodamos e as cervejas começaram a vir em profusão. Era hora de começar a atirar para todo lado. Eu me concentrei no óbvio: a menina que tinha me oferecido a mesa. A Etapa 1 do Manual de como se Aproximar de Mulheres Desonhecidas em Botecos Desconhecidos exige observação. Eu precisava ter certeza de que ela não estava acompanhada, para não arrumar confusão à toa. Nesse sentido, em alguns minutos já tinha minha resposta. Um dos caras que estava no grupo abordava-a insistentemente, tentando conseguir um beijo.Para minha satisfação, em aproximadamente dez minutos ele tomou uma meia dúzia de nãos e chega pra lá. Beleza, se ele pode, por que não eu? Na primeira oportunidade que o insistente pretendente saiu de perto, cheguei como quem não quer nada, com uma cerveja cheia em agradecimento à boa vontade de ceder uma mesa. É uma verdade universalmente aceita que pagar cerveja é uma excelente forma de comprar a simpatia de um grupo que está num boteco, e rapidinho fiz amizade com todo mundo. Para meu júbilo e regozijo, inclusive a menina se mostrou simpática e receptiva e o bate-papo engatou que foi uma beleza, a ponto de sentarmos só nós dois na mesa, deixando todo o resto do grupo para lá, de tão boa que estava nossa conversa. E foi aí,  exatamente três dias, dezesseis horas e nove minutos depois de iniciada a viagem, que eu tive certeza que a maré ia virar e eu ia me dar bem, mulheiristicamente falando.

Acontece que a vida é uma caixinha de surpresas, e de Don Juan eu rapidamente me senti o próprio Joseph Klimber, a quem o destino não cansa de pregar peças. Tinha esquecido completamente do pretendente insistente, mas ele é claro não tinha esquecido dela, muito menos desistido. Ao ver que poderia perder o objeto de sua afeição para um turista gordinho qualquer, e já com uma taxa de álcool bem elevada no sangue, ensaiou arrumar uma confusão. Uma parte da turma chegou no deixa disso e a menina, constrangida, pediu desculpa e disse que era melhor levá-lo para casa, ele tinha vindo com ela, era responsabilidade dela, etc etc etc. Antes de sumir na noite com o pretendente insistente, me deu o msn e prometeu que tentaria voltar ao bar. Não voltou, claro, quem voltou foi a chuva, e o msn foi o máximo que consegui no final das contas. Meu humor só não ficou péssimo por dois motivos: Thiago e Luciano, conversando com sei lá quem no meio do povo descobriram que a) no dia seguinte haveria uma micareta com Asa de Águia em Guarapari e b) mais de um cara havia garantido, afimado e jurado que o ano novo na cidade de Piúma, na divisa do Espírito Santo com o Rio de Janeiro, era uma farra desmedida, com trios elétricos na ruae muita pegação no estilo “vamos beijar e comemorar o novo ano”. Com isso, já tínhamos destino para os próximos dias e voltamos para o hotel para dormir.

(continua)


Show do Paul – parte 2

29/novembro, 2010

 

Foi só as luzes do palco se acenderem plenamente que a gritaria começou, e se tornou insuportável quando ele, o mito, a lenda, o Paul, apareceu. De onde eu estava, com a minha visão privilegiada, eu só via pouco mais que um ponto, mas ainda assim era um ponto mito, um ponto lenda, o ponto Paul. O barulho e agitação que pareciam ser impossíveis de aumentar, aumentaram quando ele abriu a boca e cumprimentou a galera em português e cresceram ainda mais quando começou a primeira música. Nessa hora eu já não via mais nada, pois era um mar de braços pro alto, impressionante como tem nego alto no mundo (e olha que eu tenho 1,85m). Eu quase fiquei com pena das pessoas mais baixinhas, que com certeza não viam bulhufas. Quase. Só não sinto realmente dó porque esses verticalmente desfavorecidos desenvolveram a vingança ideal: passam o show inteiro (eu disse INTEIRO) com celulares e máquinas fotográficas lá no alto, tal qual o periscópio de um submarino, bem acima das suas cabeças (e, consequentemente, na nossa linha de visão) filmando e fotografando o tempo todo. Você pode estar se perguntando “Mas você não leva máquina também? Não tira foto?”. Não, não levo máquina, não filmo, não tiro foto. Descobri que as memórias que você guarda na sua cabeça são sempre melhores que as fotos que você tirou, quando resolve revisitá-las, anos depois.

A chuva recomeçou e eu, espremido no meio da multidão, tentei recolocar aquela capa de plástico sem vergonha que eu tinha tirado e enfiado no bolso. E tome enfiar braço aqui, cabeça acolá, me esticar e perceber que acabei colocando a capa ao contrário e o lado que outrora tinha sido o de fora e estava molhado, agora era o de dentro. Ou seja, pra me proteger da chuva eu me molhei do mesmo jeito. Mas tudo bem, isso não era nada perto de ver o Paul ao vivo e… peraí, tô olhando pro telão e ele acaba de tirar o paletó e mostrar o seu suspensório última moda. Mas o ponto que eu estou seguindo no palco não tirou nada, ainda está de paletó. Só então eu percebo que, com quase uma hora de show, eu estava seguindo a pessoa errada no palco, Paul McCartney estava um pouco mais à direita (devo repetir que eu não ienxergo bulhufas e estava longe do palco?). Daí pra frente parecia que o show ia ficar enfim perfeito. A massa de mãos baixou, eu achei o ponto certo a acompanhar e a chuva parou. Cheguei até a cantar “Something” de olhinho fechado (coisa que você só faz quando tá tão envolvido que não liga de pagar esse mico, segundo Hugh Grant em “Grande Garoto”). Mas é claro que sempre, sempre pode piorar.

O público desses shows é um organismo vivo, ele muda, se transforma. Não sei como mas, sem que eu saísse um milímetro do meu lugar, de repente todas as pessoas à minha volta tinham mudado. Nada muito digno de nota se não fosse o fato de que exatamente na minha frente cismou de parar um ruivo de dois metros de altura. Cacete, com uma pista do tamanho do estádio do Morumbi, um curupira gigante tinha que aparecer justo na minha frente? Eis que Obla Di Obla Da e Back in URSS são tocadas na sequência e, mais animadinhas, tiram o público do chão. Pulando, eu aproveitei pra dar um chega pra lá no obelisco de cabelo vermelho e ganhei novamente visão total do show, agora uma reta limpinha, sem uma mísera cabecinha ou bracinho-com-maquininha-fotograficazinha na minha frente.

Eu deveria a partir daí aproveitar o show, mas confesso que sou um coração mole e fui reparar se o ruivão não estava atrapalhando mais ninguém. E foi aí que eu notei uma loira linda, sozinha, indefesa, espremida e totalmente eclipsada pelo cara.  Com toda mímica que o exíguo espaço me permitia, fiz sinal pra ela apontando o ruivão e falei “Foda né? Não dá pra ver nada com ele na frente” ou algo assim, mas ela entendeu, tanto que respondeu “É, mas fazer o que, tem outro jeito?” ou algo assim. Eu, totalmente tocado com o drama dela, mais que rapidamente respondi de novo, com a mímica que dava pra fazer: “Vem cá, entra na minha frente que dá pra ver o show direitinho”. Se tem uma coisa que eu aprendi foi a ser cavalheiro e sempre buscar o bem de uma dama, principalmente se ela for loira e linda e estiver num show do Paul McCartney. E ela veio e ficou na minha frente. E aí que não resisti, música vai, música vem, trocamos algumas palavrinhas mas, quando ele emendou Let It Be com Live and Let Die com Hey Jude, a emoção foi demais, transbordou meu ser e eu quis compartilhar com a loira, então abracei-a. Ela não ficou muito feliz, me deu um chega pra lá e me deixou sozinho.

Mas tudo bem. Com os dois bises (é assim que se escreve) que ele tocou, e que eu voltei a cantar de olho fechado, o show terminou e imediatamente se tornou uma daquelas coisas inesquecíveis, que nunca terá o mesmo impacto pra quem quer que você conte, mas que fará você suspirar toda a vez que se lembrar.

Mesmo com chuva, mesmo com ruivo, mesmo sem mulher: thank you, Sir.


Epifania – parte 4

9/novembro, 2010

Saí do banheiro e, no meio do caminho até a minha mesa, estava sentada ela, a minha musa morena, daquelas Helenas que fazem você entender o porquê de ter havido a Guerra de Tróia. Linda desse jeito, era o exato oposto do bar em que estávamos, um boteco com B maiúsculo, daqueles que têm caixas de cerveja no caminho para o banheiro e que servem pinga com carangueijo dentro. O que ela estava fazendo ali, sozinha, em uma noite chuvosa de sábado eu já tinha deixado de tentar entender há tempos, era melhor ficar quieto e agradecer a Deus e torcer para que Ele não percebesse a anomalia. Lembrei de uma amiga que reclamava que não podia ir beber sozinha num bar que sempre achavam que ela estava ali procurando companhia e aparecia um babaca pra encher o saco. Pode ser mas, desculpe minha querida amiga, é mais forte que eu e agora eu seria esse babaca. Definitivamente, eu ia seguir o conselho do Almodovar e iria falar com ela. Não fazia nem ideia do que, aliás ainda bem que estávamos no começo do ano, porque senão eu provavelmente falaria algo estúpido como “setembro chove”, aproveitando o tempo lá fora. Fui pensando nesse tipo de bobagem enquanto me aproximava dela, para não perceber o que eu estava realmente fazendo, que era me aproximar dela e, quando vi, já estava em cima. Ou melhor, do lado da mesa da menina. Melhor assim, agir de impulso, sem pensar muito, e torcer para o que quer que você fale agrade a audiência:

- Oi.

Ela levantou os olhos da apostila e me encarou. Sério, ninguém está preparado para um olhar como aquele. Eu fiquei sem reação. Paralisado pelo olhar. Retiro o que eu disse sobre Vênus de Milo ou Helena de Tróia. Ela era a medusa. A medusa mais linda que poderia existir em qualquer lugar, e um cabelo preto, escorrido e brilhante ao invés de cobras, mas o efeito era o mesmo. Lutei para falar algo coerente:

- Éimpressãominhouvocêstáestudando?

- Oi?

Respirei fundo. Parei de olhar pros olhos dela. Ajudou bastante:

- É impressão minha ou você está estudando? Porque, se está, você está no nível maximo de pessoa que parece ser interessante. Não é todo mundo que vem estudar num bar.

Ela sorriu (ela sorriu!) e mostrou a capa da apostila rosa:

- É, história da arte.

- Mas está em espanhol.

- Vou prestar vestibular pra fotografia lá na Argentina. A prova é logo depois do carnaval e ainda tenho um montão de coisa para ler.

Bom, o corpo fala, e ela também. Apesar de ser simpática, não fechou a apostila e frisou que tem muito a estudar daqui até o carnaval. Ou seja, se eu forçar a barra, seguramente não terei chance nenhuma de continuar o papo. O melhor é deixar no ar um convite e contar com a sorte, a boa vontade dela e, principalmene, com Ele, que agora eu tenho certeza que existe e olha por mim:

- Olha, hoje é um sábado a noite, você merece relaxar. Estou sentado na mesa ali atrás e, se quiser bater um papo e se distrair um pouco, faço questão de te pagar uma cerveja.

- Obrigada. Já estou acabando aqui, e minha cerveja também. Quando terminar eu te chamo.

- Perfeito!

Fui pra minha mesa saltitando de felicidade, pensando com meus botões “Obrigado Senhor pela graça alcançada, mesmo que ela não se chame Graça”. Sentei na minha mesa e o futebol tinha sido substituído por Duro de Matar 4, que até que seviu de boa distração, evitando que eu olhasse para minha medusa musa morena a cada dois segundos enquanto ela estudava..

Terminei a primeira cerveja sozinho e já estava indo para a segunda, começando a duvidar da simpatia dela, quando ela subitamente fecha a apostila e me faz um sinal de “vem cá”, que eu vi com o rabo de olho. Fingi estar concentrado no filme e só “percebi” que ela tinha acabado um tempinho depois, claro. Ela não precisava sonhar com o meu desespero naquela noite.

- Terminou?

- Sim.

Então eis que eu, mais destemido que John McClane, mais galã que Bruce Willis, sento-me à mesa com ela, que sim, era simpática e tinha um sorriso tão hipnotizante quanto os olhos. Daí pra frente, já é outra história. O garçom do bar até hoje me cumprimenta quando me vê. E eu, até hoje  louvo o Senhor e espalho a Sua palavra: Ele existe.


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