O sábado à noite é dos bêbados – final

17/setembro, 2009

- Oi

Ela olhou pra mim com um misto de desinteresse e mau-humor, como se pensasse “Ih, lá vem mais um”. Dei o meu melhor sorriso, aperfeiçoado diariamente com creme dental branqueador, mas que acho que não foi suficiente, porque ela não respondeu nada.

- Tem alguém aqui ou posso me sentar?

Ela me mediu de cima abaixo, sem grande entusiasmo. Até que viu a garrafa de água com gás da minha mão (especulação minha) e viu que eu não era mais um dos bêbados puxadores de cabelo e assentiu:

- Não tem ninguém. Se você quiser…

No “quiser” eu já estava sentado, mais temendo o fato de que a minha ansiedade me fizesse sair correndo dali do que qualquer outra coisa. Bonita mesmo a menina, seus vinte e (bem) poucos anos, começamos a conversar amenidades, ela até que se mostrou receptiva, mostrei a água, pra reafirmar o conceito de “eu não sou bêbado” e comentei como estava quente o lugar, ela falou de como tinha gente, estava muito cheio, eu concordei e, como pra quebrar o gelo não há nada melhor que uma piada, mesmo que besta, emendei:

- Pois é, cheio mesmo. Se eu fosse o Belchior, viria aqui tranqüilo, que com certeza ninguém me acharia.

Encarei-a esperando a risada, que seria o sinal de “é, você é engraçado e legal”, mas ao invés disso só vi no rosto dela um ponto de interrogação gigante. Pela idade ela não fazia idéia de quem era Belchior e com certeza não devia imaginar que ele tinha sumido. Bola fora minha. Eu confesso que a piadinha não era boa, mas algum risinho, mesmo de “que merda” deveria arrancar dela, mas ela simplesmente não entendeu. Eu fiquei sem graça, ela continuou sem entender nada e, durante uns três segundos que passamos olhando um para o outro, uma bola de feno rolou do nosso lado. Dei um sorriso amarelo, tomei um gole da água com gás, agora já não tão gelada, pedi licença e fui embora. Pronto agora isso… precisava achar uma mulher mais nova (ou seja, em melhores condições estéticas) do que a cinquentona e uma mulher mais velha (ou seja, em melhores condições cultuais). E tudo isso sóbrio. Passei um tempo vagando pelos inúmeros ambientes da casa, sem sucesso. Até que eu me toquei que, o tipo de mulher que eu queria era suficientemente esperta para não estar ali, no meio daquela muvuca interminável, era sábado a noite e ela deveria estar fazendo algo bem mais interessante. Isso me fez pensar “E o que eu, então, estou fazendo aqui?” A resposta não veio, então eu fui embora e dormi, com uma grande lição aprendida: o sábado à noite é dos bêbados.


O sábado à noite é dos bêbados – parte 3

15/setembro, 2009

A aglomeração e o empurra-empurra da entrada já começavam a me dar saudade e parecer um fim de semana tranqüilo no campo enquanto eu tentava abrir espaço num mar de gente. Como é que eu conseguia andar nesse rebuliço com tanta desenvoltura antes? Meu amigo viu uma menina vindo no fluxo contrário naquele espreme-espreme, fez sua melhor cara de pedreiro e, quando ela emparelhou, pegou no cabelo e deu uma fungada no melhor estilo “mim-tarzan-you-jane”. Senti uma vergonha alheia absurda e já me preparava para um “desculpa ele, ta bêbado”, vi que ela olhou para trás e sorriu! Sorriu! Perae, minha gente, em que mundo estamos? Será que, pra  xaveco, estilo homem das cavernas agora é vintage? Meu amigo, que não tava nem aí para as minhas considerações filosóficas, sumiu atrás da sorridente garota e eu permaneci ali, atônito. Olhei ao redor e, para meu desespero, quase todos abordavam as mulheres desse jeito. Ta certo que pelo espaço disponível não havia muito mais o que fazer, mas mesmo assim não dava pra concordar com aquele tipo de abordagem. Bom, é como telemarketing, se existe é porque funciona com alguém. Encostei no balcão do bar e pedi uma água com gás. Odeio água com gás, mas eu merecia me penitenciar por estar naquele lugar. Não consegui abordar uma alma viva sequer, só consegui constatar que, com o senso crítico lá em cima, minha capacidade de ver mulher feia era tremenda. Isso me fez temer pelas outras dezenas de vezes que eu já tinha ido naquele lugar. Uma coisa é você falar “Já fiz muita merda, já peguei muita mulher feia”, outra é ter a comprovação disso. Resolvi sair do meio daquela multidão e me estabelecer um lugar mais calmo. Acabei indo parar num andar superior que nos meus tempos de cachaceiro encachaçado eu não me lembrava de ter visitado. Ali acabou se revelando o lugar que eu estava procurando: bem mais tranqüilo, com várias mesas onde se viam mulheres sozinhas e que, pela cara, desprezavam o approach “vem cá minha nega” do puxão de cabelo. E, melhor de tudo: era suficientemente escuro! Isso de penumbra sempre me agradou, por me fazer parecer melhor do que eu realmente sou. Vasculhando o ambiente, elegi como alvo uma menina até que bem bonita que estava a pouco metros sentada sozinha. Esperei algum tempo pra ver se realmente não estava acompanhada e, como ninguém apareceu depois de algum tempo, resolvi chegar mais perto e falar oi. Bom, mais fácil pensar do que fazer, descobri porque o álcool era tão bom. Ensaiei uma vez, duas vezes, três vezes e… não saí do lugar. Comecei a mentalizar mantras e chacras e energias e tudo mais o que podia me ajudar a tomar coragem, “Vai Paulo que você consegue”, “Vai Paulo que você pode”, respirei fundo, dei um grande gole na água com gás, fiz uma careta porque o troço é ruim mesmo e fui.

(continua)


O sábado à noite é dos bêbados – parte 2

11/setembro, 2009

Fila, empurra-empurra, gente de todo tipo, mezzo bêbados mezzo alegres, se acotovelavam e avançavam aos magotes para dentro. No caixa eu cheguei a balbuciar um “Quanto é pra não entrar? Pago o que for preciso pra fugir daqui”, mas na algazarra ninguém ouviu, a mulher achou que eu tava querendo era uma entrada e, sorridente, me esticou uma pulseirinha e o meu troco. Fiquei sem saber exatamente o que fazer, assim que entrei. A casa era grande, várias pistas de dança, palcos, lounges e outros tantos ambientes com todo o nome que você queira dar. O fato é que a vida toda, ao entrar em qualquer lugar, eu me dirigia para o bar. Agora, sem beber, o que fazer? Pela simples razão de estar seguindo meu amigo, acabei no bar de qualquer forma, e comprei uma água porque, mesmo que não fosse uma lata de cerveja, as mãos reclamavam a falta de algo para segurar. No balcão do bar meu amigo puxa conversa com a primeira que está do nosso lado e me apresenta. Eu só consigo imaginar um motivo para um homem bêbado começar uma conversa com uma mulher e apresentá-la a você. Quando ela se virou e me disse “oi”, vi que tinha acertado: ela era feia, bem feia. Uma senhora em torno dos seus 50 anos, cujas marcas no rosto faziam crer que eram bem vividos. Com toda a simpatia eu Deus me deu, conversei amenidades com ela enquanto pegava minha água. Ela gostou do papo e parecia disposta a continuá-lo pelo tempo que fosse preciso, quando lembrei do Leão da Montanha e gentilmente armei minha saída pela esquerda:

- Muito bom conhecer a senhora, desculpa, você, ma tenho que levar essa água aqui para minha namorada, tá?

Ela fez uma cara de muxoxo quando ouviu “namorada” e eu me surpreendi por ao menos uma vez usar o “tenho namorado” que milhares de vezes ouvi de mulheres por todo o Brasil. É aí que chega meu amigo e complica (afinal, para que servem os amigos?):

- Namorada? Que namorada?

A simpática senhora me olha com uma cara de quem caba de pegar alguém no pulo.

- É, bom, não é bem namorada, é mais ficante, tomara que ela não ouça que a chamei de namorada, senão vai querer oficializar…

E já fui saindo com sorriso amarelo, puxando meu amigo, que não parecia satisfeito:

- Que história é essa de namorada?

- Achei mais elegante isso do que “Olha tia, se tu fosse uma Vera Fischer, até que eu encarava, mas não é, então desculpa”.

Ele ficou resmungando que eu tinha jogado fora um ótima oportunidade, que ele tinha feito um favorzão para mim, e nos embrenhamos no meio da multidão.

(continua)


O sábado à noite é dos bêbados – parte 1

7/setembro, 2009

Um belo sábado, liga um amigo meu todo choroso “Paulo, briguei feio com a minha namorada, quero sair, quero beber, vamo pra balada?”. Desde tempos imemoriais, parte pelo meu excessivo desapego aos relacionamentos, e parte pelo meu excessivo apego à noite, às mulheres e à bebida, transformei-me numa espécie de Disque-Afoga-Mágoas, onde qualquer pessoa com qualquer tipo de desacerto amoroso encontraria um copo amigo e um ombro cheio, ou algo assim. Mas não naquele sábado. Por uma convergência de fatores tão rara quanto a passagem do cometa Halley nas cercanias da Terra, eu decidi que, durante tempo indeterminado, daria um tempo com a bebida e começaria a campanha Álcool Zero. Tentei explicar isso a ele, ma ele não conseguiu acreditar. Bares e churrascos e demais eventos sociais como aniversários e casamentos, oquei, eu tinha me saído bem, mas balada era forçar demais. Mas tanto ele fez, tanta chantagem emocional estilo “Poxa, sempre estive do seu lado, agora que preciso você nega fogo” ou “Quem te carregou aquela vez que você caiu de bêbado, hein? hein? E agora você me deixa na mão?” que não tive outra opção a não ser aceitar. “Mas com uma condição: só você vai beber. Eu vou continuar no Programa Álcool Zero”. Ele aceitou, mesmo porque não tinha outro jeito eu acompanha-lo. Na frente do lugar, o bom e velho esquenta nas barraquinhas apinhadas de garrafas dos mais diversos conteúdos etílicos e isopores forrados de cervejas meio-geladas, meio-mornas. Resisti bravamente aos constantes convites de “bebe só hoje por mim, amanhã você para de novo”, “toma só uma latinha”, “dá só um golinho desse vinho” e “uma tequilinha só vai”. Me contentei apenas com um energético, enquanto olhava aquela multidão e me amaldiçoava por ter topado e empreitada. Comecei a achar que o sábado a noite é dos bêbados e de ninguém mais.Tentei dar meia volta e ir embora antes que fosse tarde demais, mas meu amigo, que já estava bastante ébrio depois de cervejas e vinhos e tequilas, me empurrou para dentro da casa noturna. Bom, seja o que Deus quiser, aquela seria a minha provação.

(continua)


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.