Acordei nove e quarena, justo a tempo de ver que a mesa d café tinha acabado de ser tirada e eu tinha predido o desjejum. Deu um pulo na piscina do hostel (ótimo hostel por sinal, só fica ruim no final da tarde quando os pernilongos atacam impiedosamente) pra tirar aquela ressaquinha residual da noite e arrumei a mala para partir para Porto e Galinhas. O ônibus que ia para Porto saía do aeroporto e, para não ter que contar com o fator “cobrador”, fiz questão de pegar uma linha cujo ponto final fosse no aeroporto. Cheguei a Porto, deixei as malas no albergue e fui para a praia, lindíssima por sinal. Casais e mais casais povoavam a areia, e por estar sozinho nenhum jangadeiro queria fazer o passeio pelas piscinas naturais só comigo, não compensava sair com um passageiro só. Nem me abalei, mais cedo mais tarde eu faria amizade com alguém 9ou alguém0 e esse problema estaria contornado. Resolvi que depois da andação pra cima e pra baixo em Recife no dia anterior eu agora merecia realmente me sentir de férias e mergulhar no ócio contemplativo, praticando ativamente o nadismo, preguiçosamente coçando a barriga enquanto tomava cerveja e comia porções variadas de isca de peixe ou camarão. E foi o que fiz.
O sol foi embora e com ele eu também. Para coroar com chave de ouro esse dia de marasmo, nada melhor que uma msoneca. Acordei perto das nove da noite, tomei um banho e saí pelo vilarejo. Nnão era porque eu não tinha feito absolutamente nada durante o dia que eu continuaria na inércia durante a noite, ainda tinha uma tarefa a cumprir. Desanimei quando vi que só casais andavam abraçados para lá e para cá, mulher solteira, nyet. Talvez não tenha sido a minha escolha mais sábia programar uma visita sozinho a praia paradisíaca bem no final de semana do dia dos namorados, pensei. Na entrada do vilarejo achei um butecão, o Jangadeiros, que era frequentado só pelos locais, as mesas espalhadas pelo que podia ser chamado de calçada com uma grande dose de boa vontade, e o forró comendo solto lá dentro. Sentei em uma mesa, pedi uma cerveja e passei os minutos seguintes olhando o movimento, avaliando possíveis alvos e pesando minhas opções. Pedi outra cerveja. Nada ali parecia ser minimamente encarável sem oito litros de pinga na cabeça. Será que dar outra volta pelo centrinho, rezando pra encontrar uma perdida? Ou voltar para o hostel cantando Chico “amanhããããã vai ser outra dia” e dormir? O Senhor haveria de me perdoar, mas eu ainda não estava pronto para começar a minha redenção, então o Jangadeiros não era uma opção. Eterno otimista, resolvi dar outra volta à caça de alguma perdida. E não é que achei uma mesa com três mulheres (no velho clichê uma linda, outra passável e outra horrenda) num buteco com mpb ao vivo? Passei alguns segundos me questionando “será? E se eu andar um pouco mais e voltar aqui depois?” e dois cara sentaram em uma mesa perto das mulheres. Ah não, se eu andar e voltar epois eu vou perder essa oportunidade. Mais que rapidamente sentei na única mesa disponível do lado delas e pedi uma cerveja. Fiquei ali de ouvidos e olhos atentos, buscando qualquer informação ou brecha para engatar papo. Mas veio a segunda cerveja e nenhuma das três sequer esboçou qualquer olhada para mim. Chegar na mesa do nada eu provavelmente daria um susto nelas, o que dificultaria bastante qualquer chance de sucesso. Pensei nos dois caras que estavam sentados na outra mesa perto elas. Eles em dois, eu em um, elas em três, a matemática era perfeita. Com eles foi mais fácil, ouvi um falar ” blá blá blá a mina blá blá blá”, emendei um “opa, são e São Paulo?” e em minutos eu já tinha trocado de mesa e conersávamos como velhos amigos, basicamente sobre mulher e férias e, por que não?, mais mulher.
Luiz e Max, advogados da Mooca, mais novos que eu (isso tem sido preocupante; ultimamente todo mundo tem sido mais novo que eu na balada) confessaram que, assim como eu, sentaram ali pelo trio de mulheres, as únicas solteiras que viram pelos arredores. Entramos em acordo que seria mais fácil conseguirmos algo que juntássemos as mesas e tentássemos formar três casais. Tá certo que uma delas era horrenda, mas firmamos o pacto que aquele para o qual ela sobrasse teria que encarar com honra, pelo bem dos outros dois. Passamos mais um tempo bebendo cerveja e tentando captar qualquer brecha na conversa delas que permitisse uma aproximação, mas nada, até que a horrenda percebeu nossa mesa com três simpáticos rapazes solteiros e disponíveis, e passou a olhar seguidamente para um mde nós. para o meu alívio, não era para mim: Max foi o premiado. Lembramos do acordo de encarar a horrenda de cabeça erguida, ele concordou meio a contragosto. A horrenda chamou a atenção da passável, que olhou pra nós e fixou o olhar no Luiz. Pronto, elas escolheram e a mais linda havia sobrado para mim, seria o corte mais rápido da história ou uma conquista e tanto.
Mas claro que nada é tão simples e chegou um homem na mesa delas. Homem só no tipo físico, era claramente bicha e só não estava de cachecol porque era Porto de Galinhas e mesmo áquela hora, umas 11 da noite, o clima estava quente. Fiz questão de frisar que o pacto “encarar pelo bem maior” só dizia a respeito à horrenda, e não ao viado, e abordamos a mesa.
Eles foram simpáticos, a horrenda era dali, as mais bonitas eram argentinas que moravam ali já há algum tempo e o viado, que realmente era viado, era de Recife e amigo delas de longa data. Tentamos engatar um papo mas, apesar dos olhares dados minutos antes, elas foram incisivas que tinham que ir embora, teriam que trabalhar no dia seguinte, acabaram a cerveja e se foram. Com nossa última (e única) esperança sumindo ao longe, so´nos restou continuar bebendo cerveja e falando de mulher. Ainda fizemos amizade com o cantor de mpb, que nos disse alguns lugares onde no dia seguinte nossa procura poderia ser mais profícua. Quando o buteco fechou, voltei para a pousada cantando Chico “amanhãããã vai ser outro dia.”
(continua)

Escrito por Gorniak



