As férias da Redenção – parte 9

15/junho, 2011

Acordei nove e quarena, justo a tempo de ver que a mesa d café tinha acabado de ser tirada e eu tinha predido o desjejum. Deu um pulo na piscina do hostel (ótimo hostel por sinal, só fica ruim no final da tarde quando os pernilongos atacam impiedosamente) pra tirar aquela ressaquinha residual da noite e arrumei a mala para partir para Porto e Galinhas. O ônibus que ia para Porto saía do aeroporto e, para não ter que contar com o fator “cobrador”, fiz questão de pegar uma linha cujo ponto final fosse no aeroporto.  Cheguei a Porto, deixei as malas no albergue e fui para a praia, lindíssima por sinal. Casais e mais casais povoavam a areia, e por estar sozinho nenhum jangadeiro queria fazer o passeio pelas piscinas naturais só comigo, não compensava sair com um passageiro só. Nem me abalei, mais cedo mais tarde eu faria amizade com alguém 9ou alguém0 e esse problema estaria contornado. Resolvi que depois da andação pra cima e pra baixo em Recife no dia anterior eu agora merecia realmente me sentir de férias e mergulhar no ócio contemplativo, praticando ativamente o nadismo, preguiçosamente coçando a barriga enquanto tomava cerveja e comia porções variadas de isca de peixe ou camarão. E foi o que fiz.

O sol foi embora e com ele eu também. Para coroar com chave de ouro esse dia de marasmo, nada melhor que uma msoneca. Acordei perto das nove da noite, tomei um banho e saí pelo vilarejo. Nnão era porque eu não tinha feito absolutamente nada durante o dia que eu continuaria na inércia durante a noite, ainda tinha uma tarefa a cumprir. Desanimei quando vi que só casais andavam abraçados para lá e para cá, mulher solteira, nyet. Talvez não tenha sido a minha escolha mais sábia programar uma visita sozinho a praia paradisíaca bem no final de semana do dia dos namorados, pensei. Na entrada do vilarejo achei um butecão, o Jangadeiros, que era frequentado só pelos locais, as mesas espalhadas pelo que podia ser chamado de calçada com uma grande dose de boa vontade, e o forró comendo solto lá dentro. Sentei em uma mesa, pedi uma cerveja e passei os minutos seguintes olhando o movimento, avaliando possíveis alvos e pesando minhas opções. Pedi outra cerveja. Nada ali parecia ser minimamente encarável sem oito litros de pinga na cabeça. Será que dar outra volta pelo centrinho, rezando pra encontrar uma perdida? Ou voltar para o hostel cantando Chico “amanhããããã vai ser outra dia” e dormir? O Senhor haveria de me perdoar, mas eu ainda não estava pronto para começar a minha redenção, então o Jangadeiros não era uma opção. Eterno otimista, resolvi dar outra volta à caça de alguma perdida. E não é que achei uma mesa com três mulheres (no velho clichê uma linda, outra passável e outra horrenda) num buteco com mpb ao vivo? Passei alguns segundos me questionando “será? E se eu andar um pouco mais e voltar aqui depois?” e dois cara sentaram em uma mesa perto das mulheres. Ah não, se eu andar e voltar epois eu vou perder essa oportunidade. Mais que rapidamente sentei na única mesa disponível do lado delas e pedi uma cerveja. Fiquei ali de ouvidos e olhos atentos, buscando qualquer informação ou brecha para engatar papo. Mas veio a segunda cerveja e nenhuma das três sequer esboçou qualquer olhada para mim. Chegar na mesa do nada eu provavelmente daria um susto nelas, o que dificultaria bastante qualquer chance de sucesso. Pensei nos dois caras que estavam sentados na outra mesa perto elas. Eles em dois, eu em um, elas em três, a matemática era perfeita. Com eles foi mais fácil, ouvi um falar ” blá blá blá a mina blá blá blá”, emendei um “opa, são e São Paulo?” e em minutos eu já tinha trocado de mesa e conersávamos como velhos amigos, basicamente sobre mulher e férias e, por que não?, mais mulher.

Luiz e Max, advogados da Mooca, mais novos que eu (isso tem sido preocupante; ultimamente todo mundo tem sido mais novo que eu na balada) confessaram que, assim como eu, sentaram ali pelo trio de mulheres, as únicas solteiras que viram pelos arredores. Entramos em acordo que seria mais fácil conseguirmos algo que juntássemos as mesas e tentássemos formar três casais. Tá certo que uma delas era horrenda, mas firmamos o pacto que aquele para o qual ela sobrasse teria que encarar com honra, pelo bem dos outros dois. Passamos mais um tempo bebendo cerveja e tentando captar qualquer brecha na conversa delas que permitisse uma aproximação, mas nada, até que a horrenda percebeu nossa mesa com três simpáticos rapazes solteiros e disponíveis, e passou a olhar seguidamente para um mde nós. para o meu alívio, não era para mim: Max foi o premiado. Lembramos do acordo de encarar a horrenda de cabeça erguida, ele concordou meio a contragosto. A horrenda chamou a atenção da passável, que olhou pra nós e fixou o olhar no Luiz. Pronto, elas escolheram e a mais linda havia sobrado para mim, seria o corte mais rápido da história ou uma conquista e tanto.

Mas claro que nada é tão simples e chegou um homem na mesa delas. Homem só no tipo físico, era claramente bicha e só não estava de cachecol porque era Porto de Galinhas e mesmo áquela hora, umas 11 da noite, o clima estava quente. Fiz questão de frisar que o pacto “encarar pelo bem maior” só dizia a respeito à horrenda, e não ao viado, e abordamos a mesa.

Eles foram simpáticos, a horrenda era dali, as mais bonitas eram argentinas que moravam ali já há algum tempo e o viado, que realmente era viado, era de Recife e amigo delas de longa data. Tentamos engatar um papo mas, apesar dos olhares dados minutos antes, elas foram incisivas que tinham que ir embora, teriam que trabalhar no dia seguinte, acabaram a cerveja e se foram. Com nossa última (e única) esperança sumindo ao longe, so´nos restou continuar bebendo cerveja e falando de mulher. Ainda fizemos amizade com o cantor de mpb, que nos disse alguns lugares onde no dia seguinte nossa procura poderia ser mais profícua. Quando o buteco fechou, voltei para a pousada cantando Chico “amanhãããã vai ser outro dia.”

(continua)

 


Clássico

20/agosto, 2009

Depois de uma madrugada em que o mundo desabou, ele acordou no domingo e não acreditou que estivesse vendo o sol. Tá certo que um sol tímido, mas, convenhamos, muito melhor que chuva. Era um domingo especial, pois no Morumbi iriam jogar São Paulo e Corinthians. Sim, ele gostava de jogo, ia sempre aos estádios e o São Paulo era o líder do campeonato. Mas não era a perspectiva de mais uma vitória, ainda mais sobre o Corinthians, que o animava. O que tornava esse dia tão especial era o fato de que, enfim, ele iria sair com ela. Ela era linda, charmosa, cheirosa, inteligente, simpática e muito mais. Tudo, enfim, o que ele sempre sonhou. Mas como nem tudo pode ser perfeito, além de corintiana, ela tinha mais três defeitos: o pai e os dois irmãos, que faziam marcação cerrada e a vigiavam de perto. Como todos eram corintianos fanáticos, a saída foi chamar todos para o jogo entre São Paulo e Corinthians. O pai disse que estava velho demais para ir a estádios, mas que ela poderia ir se os irmãos a acompanhassem.

Perto da uma da tarde ele passou na casa da família corintiana e foi com todos para o estádio. Ela estava deslumbrante, até com a camisa do Corinthians ficava linda. Ficou quieto o trajeto inteiro, enquanto os dois cunhados faziam a maior zona e xingavam todos os tricolores de bambis. Fazer o que, ela valia a pena.

Chegando no Morumbi foi só usar de alguma lábia para convencer os irmãos de que a arquibancada é sem dúvida o melhor lugar para ver o jogo, mas que a irmã deveria ser protegida, e por isso ele iria com ela para a numerada. Irmãos e irmã concordaram sem muita dificuldade e, enfim, ele iria conseguir um tempo a sós com ela. Um tempo, não, dois. E com intervalo. Era tudo o que ele queria.

Rapidamente, a pretexto de seguir para as numeradas, ele puxou-a para longe da vista dos irmãos. E ali, entre um monte de torcedor suado, cambistas, vendedores de cerveja, policiais a cavalo e barracas de lanche de pernil, ele conseguiu beijá-la. Pronto, não precisava nem mais ter jogo, podia acabar o mundo! Mas o mundo não acabou e eles entraram no estádio para o começo da partida. Bola rolando e atenção total de ambos no campo partida, um desdenhando e secando e xingando o time do outro. Até falando palavrão ela fica linda. Como é que pode? Ela não percebeu, mas dentro dele uma briga monstruosa acontecia: para quem ele torceria pra fazer o gol primeiro? São Paulo ele comemoraria. Corinthians, ele comemoraria abraçando-a. Ficou decidido internamente que ele torceria para o jogo ser quatro a três. Para o São Paulo, claro, Afinal, mulher, mulher, resultados de futebol a parte. E que o alvinegro fizesse os três primeiro, para que ele pudesse tirar uma casquinha boa. Findo o primeiro tempo, zero a zero, e antes que ela começasse a comentar muito o jogo, ele já partiu para o ataque e fez valer cada minuto daqueles quinze de intervalo. Começou o segundo tempo e, na empolgação de estar com ela, ele fingiu que não viu e foi advertido, fingiu que não era com ele e tomou um amarelo. “Sossega aí no seu canto que eu quero ver o jogo”. Aí ele se deu por vencido e voltou também sua atenção para o que acontecia no gramado. Deve ser acrescentado que manter a concentração no jogo lá embaixo era extremamente difícil. Ele só conseguia sentir o perfume dela e ver o cabelo dela solto balançando com o vento. Quase que não vê o gol do São Paulo. Ela se recusou a comemorar com ele, ele não deu bola e virou para o outro lado e comemorou com os outros torcedores. Daí pra frente a atenção voltou toda para a partida que, assim como a perspectiva de novos beijos até o fim do segundo tempo, ficou bem ruim. Mas, a esperança é a última que morre, os 4X3 ainda podem acontecer, pensou ele. Só que nada aconteceu até o finalzinho quando, no último minuto, pênalti para o Corinthians. Nessa hora ele percebeu que se o Corinthians fizesse o gol, empataria a partida, tirando a vitória certa do São Paulo. Mas, por outro lado, ele comemoraria com ela e a greve de beijo estaria acabada. Os dois pensamentos voltaram a lutar dentro dele: empate e beijo ou vitória do São Paulo? Empate e beijo ou vitória do São Paulo? Ah, quer saber, que se dane! E ele rezou loucamente pra bola sair ou para o goleiro defender. O anjo da guarda dele estava passando por perto essa hora, ouviu o pedido e resolveu atender: o goleiro pegou o pênalti. Ele quase rola arquibancada abaixo de tanta felicidade. Claro que ela não gostou nem um pouco e recusou-se a confraternizar no final do jogo, não houve troca de camisas. Ele tentou um deixa diso, futebol é uma caixinha de surpresas e partiu para o ataque. Mais uma vez foi advertido, tomou o segundo amarelo e acabou expulso. Voltou para casa quieto, apesar da vitória, e terminou indo para o chuveiro sozinho. É como dizem, sorte no jogo…


Ao comemorar, não buzine

3/junho, 2008

Domingo, 04 de maio de 2008. 19h37.

Palmeiras acaba de se sagrar campeão paulista, com uma indefectível goleada sobre a Ponte Preta. Estou passando de carro pela Paulista. A torcida está fazendo festa por toda a cidade. Não é pra menos, ganharam um título depois de quase 10 anos de jejum. E forma incontestável, ainda por cima. Entro no clima de festa, afinal, se não pode vencê-los, junte-se a eles. Além do mais, rivalidade só na hora do jogo. Depois, o melhor é fazer festa mesmo. e estou com palmeirense dentro do carro. Durante todo o trajeto pela Paulista, buzino de forma ritmada, mexendo com todo mundo que passa. Quem olha, tem certeza que sou palmeirense. Independente de time e cor, vamos nos divertir, isso éo que importa.

 

Terça-feira, 03 de junho de 2008. 20h12

Chego em casa moído e, para a minha surpresa, logo de cara encontro uma multa em cima da mesa. Minha multa. Abro para ver que merda que eu fiz agora: velocidade? Farol vermelho? Falta de hyabilidade ao dirigir? Não, nada di8sso. Tomei uma multa por “Uso excessivo e de modo desnecessário da buzina.” Eu mereço. Adianta recorrer falando que o título nem do meu time era? Será que eu pego um marronzinho palmeirense?


Blogorniak – As Mil Faces do Gorniak

29/maio, 2008

Senhoras e senhores, terráqueos e marcianos.

Bem-vindos ao meu segundo blog. O primeiro eu pensei que ninguém lia. Aí, para minha surpresa, descobri que liam. E plagiavam haha. Fiquei puto e execrei o infeliz “Cacete, por que raios tem que copiar tudo o que eu escrevo?”. Mas ao mesmo tempo fiquei lisongeado, porque se copiam é porque é bom. Então, resolvi insistir com esse negócio de blog e montei um maior, melhor e mais legal. (na verdade, espero que seja assim).

Quero aqui postar os textos de cada uma das minhas múltiplas identidades, cada um espacializado (ou não) em algum assunto. (aliás, alguém já assistiu aquele filme Identidade, com o John Cusack? O cara, que nasceu dia 10 de maio, tinha várias personalidades. Coincidência?)

Abaixo alguns dos Gorniaks que escreverão nesse espaço. Estava pensando em nomeá-los como “O Cronista”, “o Trovador”, “O Político”, “O Amante” e “O Malandro”, mas outro cara de olhos verdes já tinha feito isso antes. Então, tive que escolher outros personagens.

Nós todos esperamos que os leitores divirtam-se ao ler tanto quanto nos divertimos ao escrever. E não plageiem, por favor.

 

           

               


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