Você está na sua casa. O dia não foi nada bom. Teve que ouvir muita merda, arbitrariedade, agüentou injustiças e abuso de poder. Você sente o ódio e a frustração te consumirem. Agora chega, você precisa fazer algo, mostrar pro mundo como se sente, eles sentirão a sua fúria. Você sai pra rua com a sua escopeta. Passa uma mulher na calçada e esbarra em você. Ela sequer pede desculpas, sai resmungando. Você nunca a viu, mas não tolera mais esse tipo de atitude. Engatilha a arma, faz mira e atira. BLAM! O corpo da mulher é violentamente arremessado para o meio da rua, onde cai já sem vida. Por isso, não faz a menor diferença o carro que não consegue frear a tempo e passa por cima daquela massa de músculos e sangue. O motorista para e sai em pânico, horrorizado pela cena. Ele olha para você, que ainda está dominado pela raiva. Agora não há volta, você pensa, é minha danação. BLAM! O tiro acerta em cheio o motorista. Um táxi vem atrás e para. Você só tem o tempo de virar e fazer mira. BLAM! Dessa vez o tiro arrebenta o parabrisa e a cabeça do motorista. Sangue e miolos se espalham por todo o veículo. A passageira abre a porta e sai correndo desesperada. Você aponta para ela, que já vai ganhando distância, respira fundo e BLAM. O impacto do tiro nas costas joga a mulher no asfalto. Mais ao longe outros carros param e os motoristas, como os transeuntes, saem correndo. Ao longe já escuta sirenes, alguém chamou a polícia. Você pega um dos carros abandonados e parte em velocidade. A polícia está em seu encalço, já aparece no retrovisor. Em alta velocidade, você sobe a calçada e atropela três homens que estavam conversando. Um deles rola por cima do carro e o sangue espirra em todas as direções. Gritos de pânico misturam-se com o rock pesado que toca no rádio do carro. Novos carros surgem das transversais, e a única saída é a via expressa que leva à ponte. Você bate em um carro e atropela um motociclista, jogando-o contra o muro de proteção para conseguir pegar a saída certa. Agora são cinco, seis viaturas policiais na sua cola. À sua frente, o pedágio da ponte. Não dá para parar, então você acelera ainda mais e arrebenta a cancela. Você sai da ponte e volta às ruas da cidade. Seu ódio parece arrefecer, você já não sente mais aquela sede de vingança de antes. Sempre diziam que dar uns tiros era uma tremenda terapia, relaxava mesmo. Mas você foi longe demais, transformou um dia comum num banho de sangue. Os carros de polícia continuam com suas sirenes ensurdecedoras bem atrás de você. Ah, que se dane, você pensa, antes de dar um cavalo de pau e ficar frente a frente com as viaturas. Duas passam direto, você consegue pegar a sua metralhadora e dispara um sem número de tiros contra a terceira, que bate num poste. A quarta emparelha com você e toma uma chuva de tiros. O motorista é ferido e acaba por atravessar o canteiro central da avenida e bater de frente com um veículo que vinha em sentido contrário. Você engata a marcha e sai rasgando pela avenida. Ao fazer a curva a esquerda, perde o controle do carro, sobe na calçada, derruba um hidrante e arrasta uma carrocinha de cachorro quente, juntamente com seu proprietário. Você sai do carro, já bem amassado, e corre até um prédio garagem que está na sua frente. Na entrada do prédio você rende um motorista que estava entrando. Ele fica paralisado de medo dentro do carro, você não tem tempo para isso e puxa o gatilho. O barulho, a pólvora e o sangue estão se tornando por demais familiares a você. Com um movimento rápido você abre a porta do carro, arremessa o corpo inerte para fora e toma o volante. Mais carros de polícia aparecem na ponta da rua, vindo em grande velocidade em sua direção. Você sobe as rampas do estacionamento, até o terraço. O carros de polícia bloqueiam a rampa que é a sua única saída, você está irremediavelmente cercado, mas eles não te pegarão facilmente. Atiradores se posicionam e você se protege atrás do seu carro. Inúmeras balas começam a passar zunindo. Para confundir e tumultuar, você arremessa uma granada na direção das viaturas. Há uma explosão, duas viaturas vão pelos ares, você aproveita faz mira e metralha os policiais. Outra viatura explode e inúmeros policiais morrem. Quando você percebe, um helicóptero da polícia dá um rasante e um atirador procura fazer mira. É a hora certa para o lançador de mísseis, que você prepara e dispara. O míssil deixa uma trilha de fumaça e acerta em cheio o helicóptero, que explode e desaba na avenida abaixo. Os policiais na rampa do estacionamento se reagrupam, novas viaturas chegam, o cerco se aperta. Você toma consciência de que não há escapatória, mas eles jamais o pegarão com vida. Outro helicóptero se aproxima, os tiros Vem de todo o lado. Só há uma coisa a fazer. Você sai correndo se joga do parapeito do edifício. Nos milésimos de segundo em que flutua você abre um sorriso e se sente mais leve, mal se lembra do porquê começou toda essa confusão.
Você morre, mas com a sensação de dever cumprido, já se sente bem mais tranqüilo. Desliga o videogame e vai fazer alguma outra coisa.
Escrito por Gorniak
Escrito por Gorniak
Escrito por Gorniak