Arnaldinho e o Machado
Dona Elvira tinha orgulho do filho. Menino muito bom, estudioso, apesar de introvertido. Não se abria nunca, quase não tinha amigos e era constantemente motivo de zombaria dos colegas da escola. Um dia Dona Elvira chegou em casa e viu um recado em cima da mesa: ” Fui pra escola e volto tarde. Não me esperem para o jantar pois tenho pela frente uma longa discussão com alguns colegas. Levei um machado do papai. Espero que entendam. Beijos.” Seu sangue gelou nas veias. Ligou imediatamente para o marido:
- Arnaldo, vem correndo que nesse momento pode estar acontecendo uma desgraça! – e caiu em prantos sem conseguir dizer mais nada.
Dez minutos depois, chega o marido em casa, branco:
- Que que aconteceu, mulher?
E a mulher, entre um soluço e outro, deu umgole num copo de água com açúcar:
- O Arnaldinho, seu filho, pegou um machado e foi pra escola discutir com alguns colegas!
- Como é qui é?
- Olha aqui. Ele foi fazer alguma bobagem, Arnaldo! – e esticou o recado para o pai.
- Não acredito, nosso filho… Tão quieto, tão bonzinho… É incapaz de fazer mal a uma mosca!
- Arnaldo, até parece que você não lembra daquela história nos Estados Unidos, quando dois meninos, quietinhos e inofensivos como o nosso Arnaldinho, entraram num colégio atirando e mataram um monte de coleguinhas. Imagina ele com um machado… Vai ser uma carnificina! Ele vai ser preso, vai pra uma prisão horrível e vai sair nas capas de revista como um maníaco! É o fim, Arnaldo, o fim do nosso filhinho!
- Precisamos ir até a escola agora!
E sairam para a rua e pegaram um táxi. A mulher chorava copiosamente, o marido sempre a consolar
- Calma, Elvira, calma. Quem sabe ele não matou ninguém, só cortou um braço ou uma perna.”
- Meu Arnoldinho! Onde foi que eu errei? – caía em prantos a mãe.
- A culpa não é sua, amor. Você deve entender que esses desvios psicóticos não dependem da criação da pessoa… Meu Deus… um machado! – suspirou o pai
E seguiram os dois até a escola, a mãe em prantos balbuciando “onde foi que errei?” e “Arnaldinho, meu filho” e o pai pensando na carnificina que o filho estaria fazendo: machadada na testa de amigos, tripas prum lado, sangue pelos corredores da escola, em braço e uma perna na entrada da escola, professores e crianças apavoradas, correndo deseperadamente gritando “Ele enlouqueceu! Salvem-se!”.
Mas. ao chegar lá, tudo estava estranhamente muito calmo. Ninguém parecia saber que o filho deles estava descendo o machado em todo mundo. Entraram no colégio e foram até a classe dele. Nada. Nenhum corpo mutilado, nenhuma marca de sangue, nada. Foram então para o único lugar onde seu filho poderia estar: a biblioteca. E, ao chegar, o que eles viram deixou-os boquiabertos: sei filho, estava discutindo com uma roda de colegas em volta, com o Machado na mão. Ele lia um trecho de Dom Casmurro e defendia que Capitu tinha sim, traído Bentinho.