O cara metade

20/Setembro, 2008

 

Ele era um bom rapaz. Trabalhador, estudioso, inteligente e, principalmente, divertido. Entretanto, ele tinha uma característica muito peculiar. Ele não terminava nada. Sua mente viajava muito e, tão logo começasse algo, já perdia o foco e se distraia, passando para outra ação. Tudo acabava ficando sempre pela metade. Cada novo projeto era abraçado com grande entusiasmo e paixão. E com a mesma intensidade com que abraçava esses novos projetos, ele abandonava-os.

Era assim também com seus amores. Entregava-se completamente a cada mulher que se envolvia. Entretanto, logo abandonava o relacionamento para começar um novo com outra mulher, e assim sucessivamente.

Era escritor, ele. E quando percebeu seu TDA*, resolveu sentar e escrever algo a respeito. Uma crônica, talvez. Então ele começou a escrever sobre isso e

 

 

* O mal não é dislexia, como estava antes, e sim Transtorno do Déficit de Atenção, de acordo com a análise altamente gabaritada da Silvia.


Da série “Como surgiu essa música”

26/Julho, 2008

United States, anos atrás. Chovia muito. Dois americans conversavam em um bar, enquanto bebiam suas beers. Na mesa ao lado, Gloria Gaynor tentava rabiscar algo para escrever uma música. Mas sua mente estava tão branca como o guardanapo. Um american falava ao outro que ainda bem que não teria que levar sua mulher num daqueles encontros comunitários da igreja. O outro responde:

- Programa comunitário da igreja? Nada mais boring. Mas por que você não a levou?

- It´s raining, man. Alleluia!


Fábula

26/Julho, 2008

Era o livro do momento. As vendas estouradas. De um escritor gringo, palestrante internacional. Foi capa de Veja, entrevistado no Jô. reportagem do Fantástico. Estava já na 32a edição e não parava nas prateleiras, apesar de ser caríssimo, quase mil reais. Estava na boca de todo mundo. Era uma fábula e tanto, diziam. Mas quem lia não emprestava, queimava. Livro pequeno, menos que 50 páginas. Quem leu, leu, quem não leu tá por fora. O diabo é que, sem exceção, todos que liam queimavam e recusavam-se a comentar. Tudo o que ele sabia é que era uma fábula. Trabalhou o mês inteiro, não saiu de balada, atrasou a segunda parcela do seguro do carro e não foi com a namorada nem uma vez no cinema. Estava economizando pra comprar o livro. Queria saber que fábula era aquela. Enfim, mil reais na mão, foi à livraria. Relutou. Mil reais num livro de umas quarenta e tantas páginas? Vale a pena? Claro que valia, era uma tremenda fábula. A curiosidade foi maior que a avareza e ele comprou o livro. Não esperou nem chegar em casa, abriu o pacote e foi lendo no metrô mesmo. Uma história confusa, sobre tangerinas, fotos digitais, piscinas, o óculos do Ray Charles e a Teoria da Relatividade. Ficou extremamente desapontado, gastara mil reais, não tinha entendido nada. Por fim, o último capítulo, intitulado “A moral da Fábula”. Ufa, até que enfim, pelo menos o dinheiro gasto vai valer a pena. Transcrevo o último capítulo, de apenas uma linha:

“A grande fábula da qual você até agora se pergunta não podia ser outra: o dinheiro gasto. Mil reais, meu amigo, é uma fábula!”

Subiu-lhe um ódio mortal. Saiu do metrô e queimou a porra do livro. Em algum lugar do planeta, o escritor e o editor riram.


Arnaldinho e o machado

5/Junho, 2008

Arnaldinho e o Machado

Dona Elvira tinha orgulho do filho. Menino muito bom, estudioso, apesar de introvertido. Não se abria nunca, quase não tinha amigos e era constantemente motivo de zombaria dos colegas da escola. Um dia Dona Elvira chegou em casa e viu um recado em cima da mesa: ” Fui pra escola e volto tarde. Não me esperem para o jantar pois tenho pela frente uma longa discussão com alguns colegas. Levei um machado do papai. Espero que entendam. Beijos.” Seu sangue gelou nas veias. Ligou imediatamente para o marido:

- Arnaldo, vem correndo que nesse momento pode estar acontecendo uma desgraça! – e caiu em prantos sem conseguir dizer mais nada.

Dez minutos depois, chega o marido em casa, branco:

- Que que aconteceu, mulher?

E a mulher, entre um soluço e outro, deu umgole num copo de água com açúcar:

- O Arnaldinho, seu filho, pegou um machado e foi pra escola discutir com alguns colegas!

- Como é qui é?

- Olha aqui. Ele foi fazer alguma bobagem, Arnaldo! – e esticou o recado para o pai.

- Não acredito, nosso filho… Tão quieto, tão bonzinho… É incapaz de fazer mal a uma mosca!

- Arnaldo, até parece que você não lembra daquela história nos Estados Unidos, quando dois meninos, quietinhos e inofensivos como o nosso Arnaldinho, entraram num colégio atirando e mataram um monte de coleguinhas. Imagina ele com um machado… Vai ser uma carnificina! Ele vai ser preso, vai pra uma prisão horrível e vai sair nas capas de revista como um maníaco! É o fim, Arnaldo, o fim do nosso filhinho!

- Precisamos ir até a escola agora!

E sairam para a rua e pegaram um táxi. A mulher chorava copiosamente, o marido sempre a consolar

- Calma, Elvira, calma. Quem sabe ele não matou ninguém, só cortou um braço ou uma perna.”

- Meu Arnoldinho! Onde foi que eu errei? – caía em prantos a mãe.

- A culpa não é sua, amor. Você deve entender que esses desvios psicóticos não dependem da criação da pessoa… Meu Deus… um machado! – suspirou o pai

E seguiram os dois até a escola, a mãe em prantos balbuciando “onde foi que errei?” e “Arnaldinho, meu filho” e o pai pensando na carnificina que o filho estaria fazendo: machadada na testa de amigos, tripas prum lado, sangue pelos corredores da escola, em braço e uma perna na entrada da escola, professores e crianças apavoradas, correndo deseperadamente gritando “Ele enlouqueceu! Salvem-se!”.

Mas. ao chegar lá, tudo estava estranhamente muito calmo. Ninguém parecia saber que o filho deles estava descendo o machado em todo mundo. Entraram no colégio e foram até a classe dele. Nada. Nenhum corpo mutilado, nenhuma marca de sangue, nada. Foram então para o único lugar onde seu filho poderia estar: a biblioteca. E, ao chegar, o que eles viram deixou-os boquiabertos: sei filho, estava discutindo com uma roda de colegas em volta, com o Machado na mão. Ele lia um trecho de Dom Casmurro e defendia que Capitu tinha sim, traído Bentinho.