Goiânia – Prólogo

28/Agosto, 2009

Era pouco antes do almoço, dia normal, trabalho normal, já pensando no que poderia ser feito a partir das 19h. Um amigo me liga e solta:

- Vamos pra Goiânia?

Assim, pego de surpresa, fiz a primeira pergunta que vem à cabeça, aquela mais óbvia e importante:

- Quando?

- Hoje. E voltamos domingo

Parei para pensar. Era sexta-feira. Seria um final de semana inteiro. Não é porque eu sou saudosista ou defendo minha terra natal, mas Goiânia é conhecida, e reconhecida, pelo monte de mulher linda que tem por lá. Só isso seria motivo pra eu ir. Mas ainda assim fiz um “Hummmm” interno de quem avalia as possibilidades de uma jornada maluca. Coisas da idade. Meu amigo percebeu minha hesitação e reforçou:

- Você, como bom goiano, sabe que lá é a capital das mulheres lindas.

Ponto pra ele, assim fica difícil argumentar. Tentei arrumar um empecilho.

- Como vamos?

- De ônibus.

Isso! Acabava de se abrir a mim um excelente motivo pra declinar do convite (apesar das morenas de cabelos negros escorridos não me saírem da cabeça): a viagem é cansativa, não sei se teria paciência pra umas 12 horas de percurso.

- O ônibus é open bar – emendou.

Bom, esse foi o argumento final, tudo o mais era irrelevante. Seja quanto fosse que essa brincadeira custasse, valia à pena. Seja lá o que fôssemos fazer, haveria mulher bonita em profusão.

- Tô dentro. Me passa o horário e o local de partida do ônibus.

No lugar e hora marcados, lá estava eu, mochilinha de viagem em punho contendo o necessário para um banho, perfume, desodorante e a melhor muda de roupa que consegui encontrar no armário. Como iria encontrar só mulher linda pela frente, não custa nada caprichar, certo? E graças a Deus dessa vez, se tudo corresse como planejado, não precisaria ficar procurando colchão, pois eu não pretendia dormir.

Encontrei meu amigo, descobri que era uma excursão para ver uma micareta, o que, ao meu ver, era mais ou menos garantia de mulheres já na viagem. “Melhor ainda,” pensei. “Nada como começar aqui treinando pra encarar as goianas depois”. Subimos no ônibus, nos acomodamos nos bancos e foi chegando o pessoal que ia junto. Quando fechou a porta e o ônibus pôs-se em movimento, pude fazer a contagem: 28 homens e 6 mulheres. Média de quase 5 barbados por garota. Ou seja, minhas chances de passar doze horas de viagem sozinho no ônibus eram enormes. Isso não era nada bom.

Fim do prólogo


Clássico

20/Agosto, 2009

Depois de uma madrugada em que o mundo desabou, ele acordou no domingo e não acreditou que estivesse vendo o sol. Tá certo que um sol tímido, mas, convenhamos, muito melhor que chuva. Era um domingo especial, pois no Morumbi iriam jogar São Paulo e Corinthians. Sim, ele gostava de jogo, ia sempre aos estádios e o São Paulo era o líder do campeonato. Mas não era a perspectiva de mais uma vitória, ainda mais sobre o Corinthians, que o animava. O que tornava esse dia tão especial era o fato de que, enfim, ele iria sair com ela. Ela era linda, charmosa, cheirosa, inteligente, simpática e muito mais. Tudo, enfim, o que ele sempre sonhou. Mas como nem tudo pode ser perfeito, além de corintiana, ela tinha mais três defeitos: o pai e os dois irmãos, que faziam marcação cerrada e a vigiavam de perto. Como todos eram corintianos fanáticos, a saída foi chamar todos para o jogo entre São Paulo e Corinthians. O pai disse que estava velho demais para ir a estádios, mas que ela poderia ir se os irmãos a acompanhassem.

Perto da uma da tarde ele passou na casa da família corintiana e foi com todos para o estádio. Ela estava deslumbrante, até com a camisa do Corinthians ficava linda. Ficou quieto o trajeto inteiro, enquanto os dois cunhados faziam a maior zona e xingavam todos os tricolores de bambis. Fazer o que, ela valia a pena.

Chegando no Morumbi foi só usar de alguma lábia para convencer os irmãos de que a arquibancada é sem dúvida o melhor lugar para ver o jogo, mas que a irmã deveria ser protegida, e por isso ele iria com ela para a numerada. Irmãos e irmã concordaram sem muita dificuldade e, enfim, ele iria conseguir um tempo a sós com ela. Um tempo, não, dois. E com intervalo. Era tudo o que ele queria.

Rapidamente, a pretexto de seguir para as numeradas, ele puxou-a para longe da vista dos irmãos. E ali, entre um monte de torcedor suado, cambistas, vendedores de cerveja, policiais a cavalo e barracas de lanche de pernil, ele conseguiu beijá-la. Pronto, não precisava nem mais ter jogo, podia acabar o mundo! Mas o mundo não acabou e eles entraram no estádio para o começo da partida. Bola rolando e atenção total de ambos no campo partida, um desdenhando e secando e xingando o time do outro. Até falando palavrão ela fica linda. Como é que pode? Ela não percebeu, mas dentro dele uma briga monstruosa acontecia: para quem ele torceria pra fazer o gol primeiro? São Paulo ele comemoraria. Corinthians, ele comemoraria abraçando-a. Ficou decidido internamente que ele torceria para o jogo ser quatro a três. Para o São Paulo, claro, Afinal, mulher, mulher, resultados de futebol a parte. E que o alvinegro fizesse os três primeiro, para que ele pudesse tirar uma casquinha boa. Findo o primeiro tempo, zero a zero, e antes que ela começasse a comentar muito o jogo, ele já partiu para o ataque e fez valer cada minuto daqueles quinze de intervalo. Começou o segundo tempo e, na empolgação de estar com ela, ele fingiu que não viu e foi advertido, fingiu que não era com ele e tomou um amarelo. “Sossega aí no seu canto que eu quero ver o jogo”. Aí ele se deu por vencido e voltou também sua atenção para o que acontecia no gramado. Deve ser acrescentado que manter a concentração no jogo lá embaixo era extremamente difícil. Ele só conseguia sentir o perfume dela e ver o cabelo dela solto balançando com o vento. Quase que não vê o gol do São Paulo. Ela se recusou a comemorar com ele, ele não deu bola e virou para o outro lado e comemorou com os outros torcedores. Daí pra frente a atenção voltou toda para a partida que, assim como a perspectiva de novos beijos até o fim do segundo tempo, ficou bem ruim. Mas, a esperança é a última que morre, os 4X3 ainda podem acontecer, pensou ele. Só que nada aconteceu até o finalzinho quando, no último minuto, pênalti para o Corinthians. Nessa hora ele percebeu que se o Corinthians fizesse o gol, empataria a partida, tirando a vitória certa do São Paulo. Mas, por outro lado, ele comemoraria com ela e a greve de beijo estaria acabada. Os dois pensamentos voltaram a lutar dentro dele: empate e beijo ou vitória do São Paulo? Empate e beijo ou vitória do São Paulo? Ah, quer saber, que se dane! E ele rezou loucamente pra bola sair ou para o goleiro defender. O anjo da guarda dele estava passando por perto essa hora, ouviu o pedido e resolveu atender: o goleiro pegou o pênalti. Ele quase rola arquibancada abaixo de tanta felicidade. Claro que ela não gostou nem um pouco e recusou-se a confraternizar no final do jogo, não houve troca de camisas. Ele tentou um deixa diso, futebol é uma caixinha de surpresas e partiu para o ataque. Mais uma vez foi advertido, tomou o segundo amarelo e acabou expulso. Voltou para casa quieto, apesar da vitória, e terminou indo para o chuveiro sozinho. É como dizem, sorte no jogo…


Vamo ali?

17/Agosto, 2009

Os dois conversam no bar. Ela acaba de chegar de Florianópolis para um congresso em São Paulo. Ele, mais do que rapidamente, se ofereceu para entretê-la pela cidade.

- Estranho ninguém fumando.

- É, nova lei, multa pesada, pessoal tá respeitando mesmo. Pra fumar, só saindo ali pra rua.

- Poxa, mas é tão chato. Sei que é um vício besta e tal, mas sempre que tem álcool eu curto dar umas tragadinhas.

- É, incomoda mesmo. O pior é que, em alguns lugares, se sair na rua até corre o risco de assalto, sei lá.

- Mas e aí, como faz? Ninguém fuma?

- Bom, o que temos feito é ir em motel. Lá é o único local fechado que pode fumar.

- Não acredito, jura?

- Juro. Mesmo porque tem bebida, tem música e dá pra fumar. E não precisa necessariamente rolar sacanagem.

- Você tá falando sério?

- Ô. Virou até piada a expressão “levar fumo”. Agora o pessoal vai no motel e só usa no sentido literal mesmo.

- Você tá tirando com a  minha cara.

- Tô não, se quiser eu te mostro. Tem um aqui pertinho bem legal.

Ela olha desconfiada. Ele tira um maço do bolso e estica para ela.

- Vamos? Não há nada que podemos fazer aqui que não podemos fazer lá. E lá tem cigarro.

- Você tá de papinho, mas gostei da ideia. Não que vá rolar nada, que fique bem claro. Ouviu? Nada de graça.

- Claro, claro, nem pensei nisso.

Três horas depois, os dois estão deitados na cama, ela pega um cigarro do maço que ele ofereceu, puxa um e acende.

- Nem vou te oferecer porque sei que você não fuma.

- Mas você sabia?

- Claro. Ou você acha que essa conversa de “vamo ali” ia enganar alguém?


Os milagres da fé

13/Agosto, 2009

Minha sobrinha nasceu. Quando fui no hospital visitá-la, a família inteira já estava lá. Assim que cheguei, meu sobrinho, agora com 9 anos, veio ao meu encontro, os olhinhos brilhando.

- Tio! Tio! Se você quiser alguma coisa, é só pedir pra ela que ela te dá. Funciona mesmo!

Olhei para o que ele me esticava: era o santinho, daqueles tradicionais com imagem na frente e oração no verso, de Santa Rita de Cássia.

- É mesmo? Que bom, vou pedir sim, muito obrigado.

A empolgação dele me impediu de amassar e jogar fora imediatamente. Eis que aparece meu pai e conta o episódio acontecido minutos antes. Eles estavam lá esperando notícias sobre o parto já há bastante tempo e nada acontecia, as crianças começando a ficar impacientes. Meu sobrinho achou uma pilha de santinhos de Santa Rita de Cássia e foi perguntar ao meu pai o que erra aquilo. Ele explicou que era um símbolo de fé, que se ele quisesse alguma coisa, era para pegar um daqueles folhetos e rezar pedindo. E assim meu sobrinho fez, foi para um canto falar com a santa e ficou lá, quietinho e compenetrado. Algum tempo depois, meu pai, olhando o relógio, viu que já era tarde e que as crianças ainda não tinham comido nada. Lembrou-se de ter visto uma lanchonete na entrada do hospital (daquelas lanchonetes de entrada de hospital) que servia salgados, inclusive pão de queijo, que meu sobrinho era fanático.

- Khevin, você quer comer um pão de queijo?

Ele olha espantado para meu pai

- Nossa, essa santa é boa mesmo!

Taí uma amostra dos milagres que a fé pode proporcionar, para quem acredita.


Músicas e Musas 3

3/Agosto, 2009

Nada como ouvir algumas músicas que imediatamente te fazem lembrar de alguém que te marcou. A essas inesquecíveis e incomparáveis musas, minha singela homenagem.

Fico Assim Sem Você – Adriana Calcanhoto

Ainda bem que insisti. Acabei descobrindo que a resposta seca e indiferente à primeira tentativa de aproximação não era antipatia, mas uma forma de selecionar aqueles que estariam ao seu lado. Linda, alegre, divertida, inteligente, marketeira e torcedora do São Paulo, realmente podia se dar a esse luxo. A cara de séria era só enganação, pois se derretia ao ouvir essa música um tanto boba. Sempre charmosa e deliciosamente arrumada, mesmo quando tomava chuva e aparecia despenteada e descalça. Passear na Beira Mar de mãos dadas, aquela lua alaranjada ao fundo, eu não esquecerei nunca.

Ela disse Adeus – Paralamas do Sucesso

Essa viagem eu jamais vou esquecer porque foi onde eu conheci você. Poucas noites foram como aquela, à beira da piscina tomando água de coco. Titanic só não foi um filme qualquer por causa das mais de três horas de cafuné. Nunca vou esquecer das tardes preciosas e longas noites pendurados no telefone, falando sobre as pequenas coisas da vida que valem à pena. Seus beijos sem pressa só não eram melhores que o sorriso sem graça e cheio de vergonha que ela dava quando eu dizia que ela era a coisa mais linda do mundo. Foi um ano só, mas que ano. E ela disse adeus.

Don´t Know Why – Norah Jones

Algumas crianças se apaixonam pela professora quando ainda estão no pré. Eu tive mais sorte e me apaixonei depois de grande por uma professora. Jeito de menina, carinha de anjo e diabólica quando queria, alegre como só ela, encarava qualquer coisa junto comigo, e sorria sapeca, com uma inocência que lhe era genuína. O mais legal era nos encontrarmos e agirmos como se nada nunca tivesse acontecido, afinal o pai ciumento jamais poderia desconfiar. Nada apaga seu abraço apertado e sua vontade de não me soltar nunca, como se ali, juntos, o tempo fosse parar.

(continua, sempre continua)


Músicas e Musas 2

21/Julho, 2009

Nada como ouvir algumas músicas que imediatamente te fazem lembrar de alguém que te marcou. A essas inesquecíveis e incomparáveis musas, minha singela homenagem.

Do Seu Lado – Jota Quest

Sempre brinquei que uma esteticista devia entender de beleza e, portanto, jamais daria bola pra mim. Mas você não ligava e ria, assim como não ligava e ria pra um monte de convenções ou pra opinião alheia. Seu jeito inconseqüente e livre foi música para meus ouvidos. Inúmeros foram nossos porres juntos, mas aquele no show do Jota Quest, em que você terminou com o joelho arrebentado e eu sem camisa (e até hoje não sabemos como), foi sensacional. Ainda sinto falta de dormir no tapete da sua sala e não sinto falta nenhuma dos muitos dvds que alugamos e não assistimos.

Tanto – Skank

Ah, a bióloga mais charmosa e carinhosa do mundo. Até hoje eu não sei quem de nós dois gostava mais de colo e cafuné e carinho e lareira e vinho. É ouvir essa música do Skank que na hora me vem o seu perfume e seu abraço. Cada passeio naquele chevette vermelho era uma aventura, mesmo que fosse só para ir até a padaria. Adorava nela o fato de que tudo e cada coisa parecia especial e inesquecível. Nunca consegui ficar bravo com ela, nem mesmo no dia em que recebeu uma excelente proposta de emprego e me trocou pelas tartarugas marinhas do Projeto Tamar

I Wish You Were Here – Pink Floyd

Tínhamos tanta coisa em comum, eu e ela. A única coisa que tínhamos de diferente é que ela era linda. E ressalto isso porque era ruiva e, uma ruiva bonita é sempre merecedor de nota. De resto éramos iguais. Ela, como eu, era redatora, divertida, sacada, inteligente, gostava de arte e livros. Assim como eu, gostava de piadas, cerveja, bom papo em botecos, música e amigos. Se não demos certo, foi provavelmente devido ao fato de que ela, assim como eu, era uma pessoa bem difícil de se relacionar. Mas, assim como eu disse um dia, eu gostaria que ela estivesse aqui.

(continua, sempre continua…)


Músicas e Musas 1

19/Julho, 2009

Nada como ouvir algumas músicas que imediatamente te fazem lembrar de alguém que te marcou. A essas inesquecíveis e incomparáveis musas, minha singela homenagem.

Meu Modo de Ser – Zeca Pagodinho

Até hoje eu me lembro da sua expressão quando te mostrei essa música e disse “Eu sou isso aqui, vai mesmo encarar?” Apesar de você ser linda de doer, o que mais me chamava atenção era o enorme senso de humor e o quanto era divertida. Encarava numa boa qualquer coisa que eu inventasse. Instrumentadora cirúrgica, sempre sabia me dar exatamente o que eu estava precisando em cada momento que estivemos juntos, fosse um carinho, um olhar, um sorriso ou uma bronca. Seus enormes olhos de anime japonês e seus beijos de tirar o fôlego são coisas que vou carregar pra sempre.

Nosso Amor é Ouro – Zezé Di Carmargo e Luciano

Aposto que ficaria furiosa se soubesse que um sertanejo me lembra você. Mas na época era muito difícil, e hoje parece impossível, não associá-la à cabocla da novela das seis. Minha pequena notável, longos cabelos pretos escorridos e tez levemente morena, conseguia me encantar totalmente sem fazer força. Seu doce perfume e nossa paixão pelo São Paulo ecoam até agora na minha cabeça. Bem como aquele óculos que dava a você uma cara de quem sabia tudo e sempre estava certa. Nunca mais assisti Lilo & Stich ou falei tupi-guarani.

Iris – Goo Goo Dolls

Você era uma pessoa muito ativa, animada, inteligente, sacada, fácil de gostar e de ser gostada, que não parava um minuto quieta. Talvez por isso que tudo com você era sempre muito intenso, dor ou amor. Seu alto astral, que superava até o meu, foi um combustível para mim por diversas vezes. Me chamava de anjo, e dizia que eu não tinha a cara de bobo do Nicolas Cage, porque eu perdoava seu horrível gosto pelo cigarro. Na verdade, eu perdoava por causa do seu gosto ainda maior por cerveja, e pela sua insistência em sempre terminarmos a noite tomando uma no Bar dos Amigos.

(continua… sempre continua)


Correndo atrás – capítulo 6

14/Julho, 2009

Depois de um longo período, a saga “Correndo atrás” volta a ser publicada. Para quem perdeu, ou leu e não lembra, os primeiros cinco capítulos dessa “Emocionante história de superação” – Folha da Família Gorniak, “Brilhante! Sensacional e muito engraçada aventura” – Jornal dos Amigos de Gorniak, aqui está

parte 1

parte 2

parte 3

parte 4

parte 5

Agora sim, pode passar à continuação.

A Companhia

Domingo cedo, eu estava tomando um café da manhã rico em fibras e em frutas, com leite desnatado e suquinho e coisa e tal quando uma revelação extraordinariamente incrível subitamente me chocou. Não era o fato de eu estar tomando um café da manhã rico em fibras e em frutas, com leite desnatado e suquinho e coisa e tal, tampouco eu estar completando uma semana ininterrupta de saudáveis e emagrecedoras corridas no Ibirapuera. O que me deixou estupefato era que eu estava acordado num domingo de manhã! Sim, há vida no domingo de manhã, então! Pode parecer algo banal, mas depois de anos e anos saindo sábado à noite, o domingo passa a ser só aquele período do dia em que você acorda de tarde de ressaca e está passando o futebol na Globo e vai dormir de noite, ainda de ressaca, com os gols da rodada no Fantástico. Ou seja, você consegue se esquecer que existem as manhãs de domingo. Peguei o carro e rumei para o parque especialmente feliz e contente, pois pela primeira vez teria companhia para as minhas corridas. A Fê (vou usar abreviação para que o nome não seja deduzido), amiga de longa data, ficou sabendo da minha fase atleta e, entusiasta de atividades físicas ao ar livre, se ofereceu para me acompanhar. Ainda estava em dúvida se ela queria ter certeza que eu não estava mentindo ou se queria apenas rir do meu péssimo condicionamento físico, quando encontrei-a na entrada da pista de cooper. O sorriso com que ela me recebeu e o abraço apertado que me deu já fizeram valer à pena levantar da cama cedo. Pela camiseta folgada que usava, percebi que ela continuava imune ao frio.

- Juro que não acreditei que você viria – ela me olhou de cima abaixo, incrédula.

- Vim nem tanto pela corrida, mais pra te ver. – olhei para ela de cima abaixo, tentando não parecer incrédulo. Espantoso como o tempo para ela não fez um estrago sequer, ao contrário, deixou-a ainda mais radiante, ao passo que a mim transformou nessa pessoa fofa.

- E eu por acaso já combinei algo com você e furei? Ela ia responder “Claro, trocentas vezes”, mas preferi interromper.

- Vamos começar a correr?

- Você não vai se alongar, aquecer antes?

- Eu tenho uma quantidade limitada de energia pra gastar. Se eu alongar, canso e não corro. Prefiro aquecer já no meio do exercício.

E saí correndo pela pista de cooper. Meio contrariada, ela não teve muita escolha a não ser me seguir. Descobri esse dia que a coisa rende muito melhor se você não percebe que está correndo e fica batendo papo com outra pessoa. Ficamos conversando e lembramos de encontros memoráveis. Como da primeira vez que saímos, era uma madrugada fria e chuvosa de domingo e eu estava levando-a embora quando estoura o pneu, eu saio na chuva para trocá-lo e descubro que o estepe tinha sido roubado, sabe-se lá quanto tempo antes. Só me restou chamar um guincho pra levar o carro embora e o táxi reserva terminou de leva-la pra casa. Na saída seguinte, pra evitar qualquer imprevisto, combinamos de nos encontrar em algum supermercado, onde ela deixaria o carro. Assim, ficaria mais fácil dela voltar para casa. A noite transcorreu sem problemas até que, quando deixei-a no estacionamento do supermercado, ela foi tirar o carro e pumba!, bateu em outro carro. Aí dá-lhe conversa, faz BO, não faz, ta aqui meu telefone, faz orçamento e me liga e enfim foi todo mundo embora.

- Quando a gente se encontra sempre dá alguma coisa errada né?

- É, ainda bem que por enquanto nada aconteceu.

Isso acendeu uma luz e alerta. “Por enquanto” é uma expressão muito forte. Constatei que no bate papo tínhamos corrido quase o dobro do que eu estava acostumado, e eu sem fazer aquecimento prévio nem nada, melhor não abusar, sugeri pararmos. Aí continuamos conversando, tomamos uma água de coco e decidimos ir embora. “Eu te acompanho até seu carro”, sugeri, afinal eu posso não ter aprendido muitas coisas que meu pai me ensinou, mas cavalheiro eu sou. Estávamos comemorando o fato de terminar aquele dia sem maiores sustos quando, ao chegar no carro dela, cadê o carro? Meu Deus, roubaram meu carro, cadê o carro, ele tava aqui, juro que deixei aqui, desapareceu, calma, olha um policiais ali, vamos lá falar com eles. A situação não era tão preocupante porque ela tinha seguro, mas sempre é chato de ter algo roubado, ela deu a placa e as características para os policiais, que passaram um chamado por rádio e prometeram fazer buscas. Em alguns minutos a boa notícia: tinham achado o carro! Fomos de viatura até o local, ali perto, onde outra viatura já esperava. Aparentemente o carro não tinha nada, nenhum sinal de arrombamento ou de que a fechadura havia sido forçada, não levaram o rádio do porta-luvas, nada. Ela agradeceu aliviada aos policiais, com aquele sorriso de amolecer asfalto, entrou rapidamente no carro, fez sinal pra que eu entrasse, ligou o carro e partiu. Nesse meio tempo, eu reparei como aquela rua onde o caro foi “achado” era parecida com a que ele tinha sido “roubado”.

- Você tinha perdido o carro, né?

Ela nem respondeu nada, e eu quase nem consegui parar de rir para me despedir, quando ela chegou onde meu carro estava estacionado.

(continua)


Falta de Sorte

23/Abril, 2009


(uma homenagem às inúmeras mulheres que já me disseram não, e àquelas incontáveis outras que ainda dirão)

Se eu tivesse sorte, você gostaria de mim e deixaria eu gostar de você. Aí a você não desgrudaria de mim e eu não desgrudaria de você, você iria me ensinar esse monte de coisa sobre artes e filósofos e literatura que você sabe, e eu ia te levar prum estádio e ia te ensinar a vibrar com uma simples partida de futebol, você ia me explicar semiótica russa como se fosse a coisa mais natural do mundo, e eu ia te falar que bom mesmo é encher a cara num dia de sol num quiosque na praia, você ia tentar parar de fumar e eu ia tentar ouvir as suas músicas preferidas, você ia passar a gostar de comer manga e eu ia comer linhaça sem fazer piada, você iria mostrar as coisas erradas da vida e me fazer ficar indignado querendo mudá-las e eu ia fazer você rir mais do mundo e de si mesma, você iria me tornar uma pessoa melhor e eu iria te mostrar o quão fantástica você é, você riria dos meus amigos estranhíssimos, mas faria de tudo para que também fossem seus amigos, e eu riria dos seus amigos estranhíssimos, mas faria de tudo para que também fossem meus amigos.

Se eu tivesse sorte, você gostaria de mim e deixaria eu gostar de você. Aí a gente ficaria horas olhando um pro outro, a gente correria juntos da chuva na paulista, a gente falaria dos problemas um para o outro, a gente ouviria os problemas um do outro e diria que vai ficar tudo bem, eu to aqui, a gente ia fazer amor até cansar e continuar fazendo mais, a gente comeria paçoca cuspindo e fazendo porquice, a gente jogaria playstation madrugada adentro, a gente ia ficar trocando mensagens no celular no jantar em família mesmo estando de frente um pro outro na mesa, a gente falaria mal de filmes e músicas que todo mundo fala bem, a gente falaria bem de filmes e músicas que todos falam mal, a gente morreria de ciúmes um do outro, mas a gente deixaria o outro dar uma olhadinha para outra pessoa, afinal olhar de leve, por quase dois segundos não arranca pedaço, a gente sairia separados, cada um com seus amigos, mas sempre pensando no outro, a gente ia visitar parente distante e no caminho parar em qualquer lugar inusitado e fazer amor, a gente ia concordar em muita coisa, a gente ia discordar em mais coisas ainda, a gente ia confessar segredos inconfessáveis e riríamos falando que é isso, não tem problema nenhum, e a gente ia chorar no colo do outro por qualquer um daqueles motivo que valem a pena chorar, enquanto o outro faz cafuné e diz xiu, a gente ia aprender a dançar alguma dança, a gente ia dormir abraçados no sofá e acordar com uma puta dor no corpo porque já não temos idade pra dormir abraçados no sofá, e antes de dormir no sofá a gente ia fazer amor sem prestar a mínima atenção no filme que a gente brigou tanto na locadora para alugar.

Mas o problema é que eu não tenho sorte e por isso você não gosta de mim e nem deixa eu gostar de você. Pela minha falta de sorte nós ainda não fizemos tudo o que poderíamos fazer. No final das contas, porque eu não tenho sorte, você também não tem.


Fugazes paixões eternas

16/Abril, 2009

9:00h -  Estou no ônibus indo trabalhar e lendo um livro, quando tenho minha atenção desviada para uma menina que acaba de entrar. Ela entra e fica ali, parada à minha frente. Uma graça, esbanja charme, e eu fico instantaneamente apaixonado pelos cabelos negros ondulados, ainda molhados, pela pele fresca do banho, meio assim cor de jambo (apesar de eu nunca ter visto jambo). O ônibus segue cada vez mais cheio e eu sigo cada vez mais apaixonado. Já imagino nós dois na mesa de bar e alguém perguntado “Como vocês se conheceram?’ Cuidado com a resposta, errar o número da linha do ônibus é crime maior do que esquecer o aniversário dela. A coisa fica séria e o meu primeiro presente é um carro. “Não quero que fique andando de ônibus com tanto vagabundo metido a Don Juan por aí”. Depois de algum tempo começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Nessa hora, o ônibus para no ponto e ela desce. Observo pela janela minha paixão sumir na multidão para nunca mais voltar. Volto ao livro.

9:30h - O elevador do prédio onde trabalho se enche de gente no térreo. Estou no fundo e, quando a porta se fecha e a massa se ajeita, noto uma nuca caprichosamente posicionada à minha frente. Me apaixono na hora. Os cabelos castanhos, brilhantes, meticulosamente presos, e apenas alguns fios soltos, colados à nuca. Já me vejo abraçando-a por trás e explorando aos beijos aquela nuca durante horas. E outras tantas horas contando uma por uma quantas sardas ela tem no rosto que, apesar de eu não estar vendo agora, sei que existem aos montes. A cena muda para nós dois na rede, numa tarde preguiçosa de começo de outono, com o sol se pondo, ela deitada no meu peito com aqueles cabelos todos espalhados, eu fazendo um cafuné interminável, a gente falando sobre nada e sobre tudo, ou melhor, no mais absoluto silêncio. Naquela hora começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Mas antes que eu diga isso para ela, a porta do elevador se abre e ela sai. Da minha paixão, só resta o perfume, enquanto o elevador sobe.

9:32h - Entro no escritório onde trabalho. A recepcionista me olha e me cumprimenta com um “Bom dia” que é música para os meus ouvidos e um sorriso tão sorriso que eu me apaixono de imediato, sem resistência. Vem à minha mente a imagem de nós dois num quarto e, quando eu acordo ela está sorrindo aquele sorriso dela para mim, o que, junto com o sol da manhã que entra pela janela e os seus cabelos dourados, faz com que o quarto fique insuportavelmente iluminado. começo a achar que ela pode ser a mulher da minha vida. Mas aí vejo meu chefe acenando da sala ao lado e, antes que eu tenha a certeza de qualquer coisa, vou para a minha mesa trabalhar e a paixão fica ali na recepção.

Encaro o micro, mas só consigo pensar nas minhas três fugazes paixões daquela manhã. Num exercício mental, repito que preciso parar de me apaixonar assim. É quando eu ouço um “Oi Paulo” feminino atrás de mim. E sorrio antes mesmo de me virar.