Sonhos (3 de 3)

Antes: I – ELA  e II – ELES

III

ELE

 

Ele quer morrer. Está sentado dentro do carro, no banco do motorista, parado, sem se mexer. O carro está no estacionamento subterrâneo do prédio de escritórios onde fica a editora. Ele arruma o espelho retrovisor. Se olha. Seus olhos parecem de peixe morto, sem vida. Ele quer morrer.

Essa vez não foi como das outras. Essa vez o editor não demorou mais do que três minutos e vinte e oito segundos para despachá-lo. Ele cronometrou. Aquele filho da mãe nem deixou que ele falasse. Que expusesse suas ideias, que descrevesse o universo complexo e entrelaçado que tinha em mente. Como os filmes do Tarantino. Os dois livros eram só o começo, ele explicaria. Muito mais havia por vir, para expandir, para enriquecer, para dar complexidade e profundidade.

O editor nem ouviu. Falou que a história não era de todo má, mas que os personagens, ah, os personagens… eram rasos, desinteressantes. Que ele trabalhasse muito mais os personagens e depois voltasse para apresentar o resultado.

Não é de hoje que ele ouve isso. Todos são unânimes em apontar que ele não sabe criar personagens. Que são uma merda. Sem profundidade, caricatos, toscos, rasos como um pires, disseram. Grandes personagens têm conflitos grandes, problemas sérios, disseram. Vêm de famílias desestruturadas. Sofrem abusos de pais controladores, violentos, autoritários. Tornam-se depressivos, autodestrutivos, suicidas.

Suicidas.

E se ele ligasse o carro, por quanto tempo deveria deixar o motor funcionando até que, naquele estacionamento subterrâneo, tivesse gás carbônico suficiente para aspirar, apagar e morrer? Você dorme e quando vê já foi, leu em algum lugar. Uma morte tranquila e indolor.

Não, nem pense nisso, ele pensa consigo mesmo. Eu só posso morrer depois de ver minhas obras publicadas. Não antes.

Ele precisa voltar para casa e mais uma vez reescrever tudo. Novos personagens. Mais interessantes. Com conflitos grandes, problemas sérios, disseram. Que vêm de famílias desestruturadas. Sofrem abusos de pais controladores, violentos, autoritários. Tornam-se depressivos, autodestrutivos, suicidas.

Mas como? Já fez todos os cursos de literatura que encontrou. Apurou todas as técnicas. Menos a construção de personagens. Como melhorar isso? Então, de súbito ele lembrou  um trecho da carta que Graciliano Ramos escreveu à sua irmã Marili, quando esta revelou o desejo de ser escritora e lhe mandou um texto para análise:

“Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. (…) As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos.”

E então ele teve a resposta.

Se não conseguia criar um personagem ficcional profundo, cheio de problemas e desajustes, depressivo, suicida, autodestrutivo, ele iria criar um real. E escreveria a partir dele.

Isso iria atrasar em vários anos sua carreira literária, claro. Talvez um par de décadas. Mas era a única saída. Criar, observar e relatar. E, de quebra, ele iria realizar o grande sonho da esposa. Era o plano perfeito: ele iria ter um filho.

 

FIM

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Sonhos (2 de 3)

Antes: I – ELA

II

ELES

 

Ele está parado na soleira da porta. Nem guardou as chaves da casa no bolso ainda. Não mostra qualquer sinal de lipemania como das outras vezes. Ao contrário, pode-se dizer que ele está esboçando um ligeiro sorriso. Tímido, quase imperceptível, mas um sorriso. Então ele fala:

– Meu amor, vamos ter nosso filho.

E a abraça. Um abraço longo, apertado, cheio de afeto. Ela não se contém e chora. Mas é choro de felicidade. Um filho é tudo o que ela sempre quis. Ou dois. Ou três. A única coisa que impedia-os de constituir a tão sonhada família era a carreira de escritor dele, que precisava decolar antes. “Se ele quer ter um filho, é porque conseguiu convencer o editor a publicar alguma de suas obras. Ou as duas, por que não?  Até que enfim não foi como das outras vezes”  ela suspira aliviada.

– Então quer dizer que deu certo? Eles aceitaram? Vão publicar seus livros?

Ele para de abraçá-la e olha no fundo dos olhos dela, que estão vermelhos de choro. Os dele, verdes como nunca antes. Com toda a serenidade do mundo, ele responde:

– Não.

Longa pausa. Ela para e chorar.

– Não vão publicar nada.

– Como assim?

Ela fica confusa. Tenta ordenar seus pensamentos.

– Como não vão publicar? Você chegou aqui dizendo para termos um filho. Enfim vamos formar a família que eu sempre quis! Isso quer dizer que o seu sonho também vai acontecer. Significa que o editor gostou do que viu e aceitou publicar seus livros.

– Não, ele não gostou. Ele disse que nem pensar. Como das outras vezes.

Ele senta no sofá e puxa-a com as duas mãos para que sente ao lado dele.

– Ele pediu para que eu voltasse para casa e trabalhasse um pouco mais as ideias e os personagens. Principalmente os personagens. Disse que toda boa história tem bons personagens, e que os meus ainda são meio rasos, meio comuns. Como das outras vezes.

– Mas eu não estou entendendo. Então por que vamos ter um filho se você não conseguiu virar escritor?

– Porque enquanto eu dirigia para casa, eu vim pensando. Não estou sendo justo com você.

Ela não fala nada. Nem sabe o que dizer. Ele continua:

– Eu condicionei termos filhos à minha carreira de escritor. E você foi muito mais compreensiva do que eu seria, se estivéssemos em lados opostos. Mas o fato é que eu tentei virar escritor e não rolou. Não tentei nem uma, nem duas, nem dez vezes. E nenhuma delas deu certo. Não dou para a coisa.

– Não fala assim. É questão de tempo. Você vai conseguir. Tem que continuar tentando.

– Você vive me apoiando, e eu te amo por causa disso. Mas nem você acredita no que está dizendo.

– Claro que acredito!

– No fundo não acredita não. Quer uma prova? Esse cheiro de coentro. Você estava cozinhando, não?

– Sim.

– Moqueca, não é?

Ela assente.

– Você sabia que eu chegaria triste, melancólico, sorumbático, deprimido. Como das outras vezes.

Silêncio.

– E estava fazendo meu prato preferido para me animar. Como das outras vezes.

Ela ameaça falar algo, mas é interrompida.

– Não, não, está tudo bem. Você tem razão em duvidar. Eu vim no caminho para cá pensando e cheguei a conclusão que nunca serei um escritor. E não é justo atrasar seu sonho por um meu que nunca vai acontecer. Então decidi que dane-se ser escritor. Vou pensar em outra coisa. Agora, nesse momento, eu quero ser pai.

Ela o encara novamente. Os olhos verdes como nunca antes. Ela recomeça a chorar.

– Meu amor… obrigada, meu amor…

Eles se abraçam. Ela tem certeza que o futuro será ótimo. Eles terão uma família e serão muito felizes. O futuro será cheio de emoções, ela tem certeza. E ele também.

(continua)

Sonhos (1 de 3)

I

ELA

O cheiro de coentro se espalha pela cozinha. Há tempos ela não faz uma moqueca. É o prato preferido do seu marido e, portanto, só deve ser preparada em ocasiões muito especiais. Hoje, infelizmente, é um desses dias.

Porque ela sabe que ele vai chegar em casa arrasado. Como das outras vezes. E uma bela moqueca vai ajudar a animá-lo. Como das outras vezes.

Novamente ele foi para uma reunião com um editor. Foi mostrar seus escritos, na esperança de que alguém se interesse em publicá-los. Ele já tem dois livros prontos e várias ideias para muitos outros mais. É todo um universo de histórias interligadas. “Tipo o Tarantino, cujos filmes se cruzam”, ele costuma dizer. “Eu só preciso de uma chance, que o primeiro dos livros seja publicado.” Ele tem certeza que será um sucesso e a partir daí a coisa vai deslanchar.

O problema é que ninguém acredita nele. Ninguém acha o trabalho dele bom o suficiente. Nem mesmo ela. E ela se sente culpada por isso. Como esposa, ela deveria apoiar. Sempre e incondicionalmente, não? Não é isso o que os cônjuges fazem? Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nas obras geniais e nas porcarias?

As duas obras que ela pôde ler em primeira mão até que não são tão ruins. Mas também não são boas. Ela queria, do fundo do coração, ter gostado mais. Mas as histórias não empolgam, não têm aquela emoção que te prende, aquele tchans que te faz pensar neles por semanas depois de terminar, que te obriga a indicar para os amigos. “Cara, você não sabe o que eu li…”. Ela não sabe explicar por quê, não entende nada disso de escrever. Só sabe que falta alguma coisa.

Hoje ele foi tentar de novo. Mais uma reunião, mais um editor. Quantos foram já mesmo? Ela perdeu a conta. Parou na décima vez. Ele sempre sai animado “Hoje é o grande dia. Estou sentindo que agora vai”, e volta arrasado, deprimido, mal humorado.

O pior é que enquanto esse sonho ser escritor, o grande sonho da vida dele, não se realizar, ela não vai poder realizar o grande sonho dela: ser mãe. Ele já deixou claro e os dois já discutiram inúmeras vezes, algumas bem feias até. Mas não teve jeito, ele foi intransigente: enquanto não se firmar como escritor, não quer nem pensar em ser pai. A explicação é que uma criança exige dedicação e atenção absolutas, e ele não teria nem tempo e nem foco para escrever. Ou seja, ele precisaria ter seus livros publicados antes disso. Faz até certo sentido. Crianças precisam mesmo de dedicação e atenção absolutas. Ela não esperaria nada menos do que isso dele. Por isso aceitou postergar seu sonho, enquanto ele não alcançar o dele. A hora há de chegar. No momento é preocupar para não errar na moqueca.

Então, ela ouve a chave girando na porta da entrada.

Ele está chegando!

Não é possível! Ele veio muito mais cedo do que o previsto. O encontro de hoje deve ter sido pior do que ela imaginava. Ou talvez nem teve encontro! Meu Deus! De qualquer forma ele estará extremamente deprimido. E o prato preferido dele nem está pronto.

Ela limpa as mãos no avental e corre para recebê-lo.

“Não fica assim. Algum dia vão perceber o seu valor. Você vai ver.” São as palavras que ela se prepara para dizer. Como das outras vezes.

A porta se abre. Ele a encara. Sua feição não mostra lipemania como das outras vezes. Ao contrário, ela acha que vê até um ligeiro sorriso. Tímido, quase imperceptível, mas um sorriso. Aquilo a anima. E a alegria fica ainda maior quando ele fala:

– Meu amor, vamos ter nosso filho.

(continua)

Cíclico

Se você já viveu anos suficientes, já notou que os noticiários trazem sempre as mesmas notícias.

 

O mais novo milionário da megasena da virada. O trânsito de volta da praia. Os impostos de início de ano. O aumento do material escolar. Os favoritos do Oscar. As enchentes causadas pelas chuvas de verão. Os temas das escolas de samba. O trânsito na saída para o carnaval. A campeã do carnaval. O trânsito na volta. Os ganhadores do Oscar. O valor abusivo dos ovos de Páscoa. O campeão estadual. Sugestões de presentes para o dia das mães. Sugestões de presentes para o dia dos namorados. Ocasionalmente a Copa. A poluição, a inversão térmica e as doenças respiratórias. A falta de chuvas do inverno. As baixas temperaturas. Campos do Jordão. As férias escolares. O campeão da Libertadores. Ocasionalmente olímpíadas. A chegada da primavera e a cidade mais colorida. Ocasionalmente eleiçoes. Debates. Dia das crianças. O trânsito da saída do feriado. O trânsito da volta do feriado. Novos políticos eleitos. Finados. Novo feriado, mesmo trânsito. O campeão brasileiro. O que fazer com o décimo-terceiro. As decorações de natal. As compras de natal. Etiqueta na festa da firma. Cuidados com o sol. A restrospectiva dos fatos mais marcantes do ano. As tomadas ao vivo sobre o trânsito de ida para a praia. O sorteio dos números da megasena da virada.

O tempo é cíclico. A vida é cíclica. Tudo sempre acontece de novo.

Não é de se espantar, portanto, que eu siga ano após ano, teimosamente, me apaixonando por você.

“Não tinha outro jeito, a gente precisa né?”

Todo dezembro (ou quase todo) tem uma crônica de fim de ano. (Se você não acredita, veja aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Mas esse ano eu estava sem inspiração. Sobre o que vou escrever? Qual história vale a pena contar? Que mensagem quero compartilhar?

Nada interessante me ocorria.

E o natal vinha vindo.

E nada de ter alguma ideia.

E o natal chegando.

Justo em um ano em que mudei de país, mudei de emprego, fiquei longe da família – mudei de vida, enfim – eu não teria sequer uma mensagenzinha, um aprendizado para passar?

“Não, realmente não tem nada de relevante”, parecia querer me dizer meu cérebro.

E o natal quase ali.

A neve chegou, deixando branca a paisagem. Tão branca quanto a página do word que eu encarava, pensando nesse texto.

Eu já estava resignado a não ter nada para escrever – pronto para dar a desculpa de “sabe como é mudei de país, aquela confusão toda”. Até que, para comemorar o aniversário da esposa, fomos – eu e ela, ela e eu – para Nashville. Lá vivi uma situação que caiu como uma luva para essas reflexões de fim de ano.

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Nashville é a capital americana do country, e na sua rua principal enfileiram-se lado a lado mais de duas dezenas de bares com música ao vivo. Depois de passar o dia rodando a cidade, resolvemos que o sábado a noite era o momento ideal para aproveitar todo aquele clima musical-festivo e, por que não?, tomar umas (ou várias) cervejas.  Assim, seres responsáveis que somos, optamos por deixar o carro no hotel e pegar um táxi. Aliás, táxi não, Uber, que é bem mais barato. Chamei no aplicativo e um carro rapidamente respondeu. Estaria na porta do hotel em três minutos. Legal dessas modernidade tudo que a tecnologia oferece é que você pode acompanhar na tela do celular onde está o carro, o caminho que ele está fazendo, etc.

Assisti o carrinho vindo, três quadras, duas quadras, tá chegando e… passou direto. Eita, o que será que aconteceu? Bom, ele vai fazer a volta.

Aí o carrinho realmente fez a volta, mas uma muito maior do que a esperada, passando por um outro quarteirão mais distante.

Mas ok, agora está na rota certa.

Aí ele entrou em uma rua e foi em outro sentido.

Caceta, por que? O lado ruim dessas  modernidade tudo que a tecnologia oferece é que a gente acaba se tornando muito mais impaciente, quer tudo na hora.

O carro voltou a acertar o prumo. Calma, relaxa, ele está vindo.

Aí o carrinho na tela parou. E ficou parado. Um, dois, três minutos.

Ah, agora é demais. Foda-se. Vou cancelar essa merda e chamar outro.

Mas antes de eu fazer qualquer coisa o carrinho voltou a andar e veio para o hotel. Saímos na rua para esperá-lo – vai que ele passa direto de novo – e juntei mais um motivo para reclamar do motorista: ter que encarar o frio de lascar de quatro graus negativos.

Entramos no carro e eu já estava preparado para comentar, nada gentilmente, sobre a demora. O motorista, um senhor de cabelos e bigode cinza-esbranquiçados,  brigava com o celular e o aplicativo, tentando colocar alguma informação no gps. Ee fez uma cara de quem tinha falhado miseravelmente e virou-se para mim, num inglês sofrível:

– Pronde? (numa tradução aproximada)

– Broadway, por favor.

– Broadway? (numa tradução aproximada)

– Sim. Broadway. No centro, sabe?

Claramente tenso, fez que sim com a cabeça e voltou a lutar com o gps. Alguns segundos se passaram e nada dele se resolver com o aparelhinho. Um carro atrás de nós enfiou a mão na buzina – o nosso veículo estava parado no meio da rua. O senhor deu um sobressalto de susto e saiu dirigindo. “O cara tá mais perdido do que não sei o que. Não dá para brigar com um senhor, ainda mais com um senhor perdido. Mas claramente não foi uma ideia pegar esse Uber”, pensei já com minha fúria arrefecida. Foi então que minha esposa, sempre muito mais atenta e rápida de raciocínio do que eu, falou (no espanhol irrepreensível dela):

– Você fala espanhol?

Para o senhor, ouvir algo na língua dele foi mágico. A tensão se esvaiu imediatamente e ele se soltou aquele “ufa” tranquilizador.

– Sim, falo! (no espanhol irrepreensível dele)

Daí para frente a conversa foi outra (para começo de conversa, houve uma conversa). Indicamos o trajeto – pois ele não conseguiu traçar a rota pelo gps – e, enquanto dirigia, o senhor soltou a língua. Pelo que pude depreender com o meu parco conhecimento em espanhol, era seu primeiro dia como motorista de Uber, e ele não conhecia nada da cidade. Tinha vindo da Venezuela, quebrada e com grande parte da população miserável, para que o filho estudasse nos Estados Unidos e tivesse chance de ser alguma coisa. Motorista de Uber foi a única possibilidade que ele encontrou para trabalhar, e mesmo sem conhecer nada ou sem falar uma palavra em inglês, meteu as caras. “Não tinha outro jeito, a gente precisa né?”.

Chegamos no nosso destino e, além de um “boa sorte”, deixamos uma gorjeta de 50% da corrida e demos 5 estrelas na avaliação do Uber – ele com certeza vai precisar.

A lição que ficou – e que quero compartilhar nesse textão de fim de ano – não foi só uma, mas várias:

Primeiro, eu queria ter ao menos uma partezinha da coragem do senhor venezuelano (o qual me fugiu o nome). Mesmo cheio de dificuldades e perrengues, está tocando em frente como dá porque “a gente precisa, né?”;

Em segundo, agradecer por tudo que eu tenho e ver que estou muitíssimo melhor do que uma enorme parte das pessoas. E tentar me lembrar disso quando algo não der certo.

E, por fim, ser mais paciente e tolerante com os outros em 2017. Grande parte das vezes “não sabemos da missa nem a metade”, como dizia meu avô, o velho Stan.

Junto  com os desejos de feliz natal e ótimo ano novo, estendo mais esses três desejos a todo mundo que está lendo isso, para que possamos seguir em frente cada vez melhores.

Há 19 anos eu tinha 19 anos

Há 19 anos eu tinha 19 anos.

Foi quando aconteceu aquele que é o fato mais marcante da minha vida (até agora): enxergar, pela primeira vez, o mundo como ele é.

Nasci com uma doença genética (nem tão incomum) conhecida como ceratocone agudo. A córnea, ao invés de permanecer esférica como uma lente de contato, vai ficando cônica, pontuda, com o passar do tempo. E, quanto mais pontuda, mais distorce a luz que entra por ela e mais cagada fica a visão. Todo o resto do olho permanece intacto: nervo óptico, cristalino, retina, tudo ok, novinho. Só a córnea mesmo é que vai ficando mais e mais defeituosa.

Então, todo oftalmo sabe que quem é portador dessa condição vai, gradativamente, perdendo a visão, até que a única saída é fazer um transplante de córnea.

(E aqui vai um agradecimento especial aos meus pais. Passaram todo o tempo ao meu lado, me apoiando, correndo atrás de médicos e gastando uma pequena fortuna em colírios e pomadas e remédios.  Eles nunca me deixaram na mão nessa via crúcis que foram os primeiros 19 anos. Era um entra e sai de consultório oftalmológico, um Deus nos acuda a cada ataque alérgico – porque o ceratocone não vem só, traz sempre consigo uma forte alergia a pó, fumaça, pólen e basicamente tudo que exista em suspensão no ar.  Antes de mais nada, obrigado a vocês. Sem esse apoio irrestrito, os (até agora) 19 anos seguintes indubitavelmente não teriam sido tão bons).

Mas então, numa bela tarde 19 anos atrás, numa sala de cirurgia do Hospital das Clínicas em São Paulo, eu ganhei uma nova córnea de presente. E, com ela, a capacidade de ver o mundo de um jeito que eu nunca tinha visto.

Ainda demorou uns bons dois meses, mais ou menos, até que eu enfim me recuperasse da cirurgia o suficiente para sair do quarto, tirar o curativo e ver tudo claramente. Mas o momento decisivo, a operação de corte e costura, foi há exatos 19 anos, quando eu tinha 19 anos.

Muito em breve poderei comemorar, orgulhoso, que já passei mais da metade da minha vida enxergando. (ok, muitos dirão “enxergando mas não tão bem assim”, e eu sou obrigado a concordar. Mas creiam-me, isso é muito, muito mais do que eu jamais fui capaz antes da cirurgia.)

Lá se vão quase duas décadas, e até hoje eu me lembro o que mais me chamou a atenção quando passei a enxergar com (quase) perfeição: os detalhes. Fiquei simplesmente maravilhado com a quantidade de detalhes que há no mundo. Eu enfim conseguia perceber uma gota de água numa superfície. Eu discernia as espinhas e as pintas e as marcas no meu rosto. Eu identificava os pêlos eriçados de um gato. Eu via os gomos de uma laranja. Eu não só lia as placas de sinalização, como notava a pintura descascada ou a ferrugem. Que incrível foi perceber o mundo dessa forma!

Jamais poderei agradecer totalmente ao Dr. Marcos, o oftalmo que me vê há mais de 35 anos,  nem à doutora Amarillys, que fez a cirurgia. E, principalmente, à família do doador, ou doadora, que num momento horrível de perda teve a nobreza de doar a córnea do ente querido.

Vira e mexe eu me lembro do filme “O Resgate do Soldado Ryan”, em que o personagem do Matt Damon visita o túmulo do capitão que deu a vida para salvá-lo – e faz questão de mostrar que viveu uma vida digna e buscou honrar e ser merecedor do sacrifício. Nessa hora eu olho para o céu – o Universo, o infinito ou sabe-se lá para onde vamos depois que morremos – e agradeço ao meu doador.

Espero que, onde quer que ele esteja, ele consiga me ver – e ver quão bem estou vendo por causa dele. E que, apesar de todas as merdas que eu fiz, faço e farei, ele concorde comigo quando sussurro que sou merecedor dessa sorte, dessa oportunidade, dessa córnea.

Obrigado. Nos veremos algum dia.

Nova Paixão

Você sempre ouviu falar dela. O quanto era cativante, interessante, fantástica. Um dia você comentou com os amigos que queria conhecê-la. “Não faça isso”, disseram alguns. Você vai se apaixonar e ela vai te deixar a ver navios. Você vai invariavelemnte acabar sofrendo” disseram alguns. “Bobagem”, retrucou você, “Isso pode ter acontecido com outros, mas não comigo.”

E então você conheceu-a. E, sim, se apaixonou de cara. Linda, intensa, forte, surpreendente. Você entendeu porquê falavam tanto dela. E curtiu cada minuto que esteve com ela.

Mas um dia belo ela avisou “Vou sumir por uns tempos. Sinto muito. Não é você. Sou eu. Preciso disso, você entende?” Você entendia, mas não aceitava. Desde o começo você sabia que isso aconteceria, era só uma questão de tempo. Você sofreu. O fato de seus amigos terem avisado que isso aconteceria não diminuiu a intensidade da perda. Você se uniu a tantos outros que passavam os dias lamentando a falta dela, relembrando cada detalhe dos dias em que estiveram juntos.

As pessoas têm te consolado, garantindo que ela voltará. Daqui a um ano, mais ou menos. Você sabe que é verdade. Se ela disse que voltará, então ela volta.  E você estará aqui, esperando por ela. Para passar mais noites na sua companhia. Chorando, sorrindo, em êxtase, como se esse tempo separados nunca tivesse acontecido.

Alguém te encoraja a, nesse meio tempo, procurar conhecer outras. Na pior das hipóteses te ajudará a passar o tempo e, na melhor, você pode até se apaixonar de novo. Você resiste um pouco a princípio mas depois se deixa levar. Por que não? Afinal, séries de tevê não têm ciúmes.

E não é que, para a minha surpresa, tão logo o interregno da sexta temporada de Game of Thrones começou, eu já estou fixado em outra? Obrigado HBO por me presentear com The Night of.