Orra, Roraima! – dia 1

Capítulo anterior: prólogo

Dia 1

Oito da manhã o sol já brilhava maravilhoso num céu sem nuvens. Enquanto tomávamos café, pude conhecer um pouco mais meus companheiros pelos próximos dias. Éramos uma verdadeira Torre de Babel: dois argentinos que só falavam espanhol, duas suíças que só entendiam inglês, um brasileiro que só falava português, e eu, que não falava nem português, nem inglês e nem espanhol direito, mas enganava bem pra caralho. Entre as apresentações, “what’s your name?”, “De onde és?” e outras perguntinhas iniciais de reconhecimento mútuo, um dos argentinos deu uma sugestão a qual eu sou até agora grato. “Essa mala não tá muito grande? Não tem nada que você pode deixar aqui? Melhor levar só o essencial. Sabe como é, qualquer peso a menos facilita.” Não posso descrever como eu fico feliz hoje dele ter perguntado isso. Acabei tirando em torno de um terço do conteúdo, roupas e cacarecos dos quais não senti a menor falta, mas que teriam me feito sofrer e suar e bufar ainda mais na caminhada.

Antes de ir efetivamente, fizemos uma última parada para comprar provisões. “A gente gasta muita energia e desidrata muito, melhor comprar coisas para repor”, aconselhou o guia. Não vacilei e fiz uma compra de mês. Posso caminhar indefinidamente carregando peso, posso ficar molhado por horas, posso não dormir bem, tudo isso eu aguento sorrindo. Mas não me deixa com fome. O meu bom humor não resiste à fome. Então comprei biscoito recheado, bolacha água e sal, chocolate, bala, polvilho, goiabinha, água e gatorade (também aproveitando o fato de que a moeda local estava desvalorizadíssima em relação ao real e eu me sentia rico). Pronto, isso garantia que eu seria simpático por muito tempo.

Duas horas de estrada depois, chegamos a Parateipui. Paga a taxa de visitação, mostra o passaporte com o visto de entrada na Venezuela, ouve as recomendações do soldado, coloca o mochilão nas costas, ajeita o colchonete e o saco de dormir e pronto, estávamos aptos a começar a jornada. Passava do meio dia e o sol continuava brilhando maravilhoso num céu sem nuvens: dois minutos de caminhada e eu já estava suando, mas tudo bem, faz parte. Dez minutos e eu já suava absurdamente, tomei um gole de água e segui resiliente. Vinte minutos depois e eu já estava me perguntando o que estava fazendo ali. E a coisa piorou ainda mais antes de completarmos uma hora de percurso, ao nos depararmos com uma subida absurdamente íngreme e penosa, daquelas que até os índios que moravam no local, e que levavam as comidas e provisões para os acampamentos, tinham que parar para descansar ao alcançar o topo. Me amaldiçoei com todas as forças enquanto subia, “que ideia estúpida, eu sou estúpido, por que não ficou em casa ô animal?, agora sofre feladaputa, será que dá pra voltar?” e acabei descobrindo que o ódio é um ótimo combustível, quando eu vi tinha passado aquela etapa. Prometi a mim  mesmo se  todo o caminho fosse daquele jeito, eu voltaria, não estava apto para aquilo. Mas ainda bem que os outros doze quilômetros foram transpostos em quatro tranquilas horas de caminhada quase reta, uma subidinha aqui e outra acolá, mas nada comparado à parede de escalada do início.

Enfim chegamos no primeiro acampamento e nossas barracas já estavam montadas, eu dormiria com o brasileiro, um bombeiro de Brasília cheio de histórias para contar de outros trekkings. Foi o tempo certo de deixar a mochila na barraca e tomar um banho, gelado, no rio (que, depois de uma tarde andando e suando debaixo de sol, provou-se uma benção) e a tarde acabou e a noite caiu. Não me incomodou o fato de, como dito anteriormente ser uma mula e não ter levado lanterna, tampouco a ginástica de ter que me trocar no escuro. O inferno foram os mosquitos, que apareceram e atacaram sem dó, rindo do meu repelente. Chamados de puri-puri, eram tão pequenos que você dificilmente os via, mas o estrago era grande. Só quando apliquei três repelentes diferentes, um sobre o outro, pude ter um pouco de tranquilidade para jantar. Bucho cheio, até pensei em ficar contemplando as estrelas, mas sem o sol a temperatura caiu muito e quem dava conta de ficar fora do saco de dormir térmico? Coloquei todos os meus agasalhos, fiz um travesseiro da melhor forma possível e deitei naquele chão duro como pedra (afinal era realmente pedra) para dormir. Mas, para ser sincero, com essa combinação de chão duro / calor dentro do saco de dormir / frio fora/ puri-puri atacando, nem o cansaço do dia foi suficiente para me fazer apagar e dormir pesado. “Eu sou uma besta de ter vindo” foi algo que me ocorreu a noite inteira.

Continua no Dia 2

 

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