Orra, Roraima! – prólogo

 

Tenho que admitir: sou uma besta.

Essa história de subir o Monte Roraima não foi uma decisão súbita, impulsiva. Eu não acordei um dia pensando “Que legal seria, né?” e fui. Não, nada disso.

A primeira vez que ouvi falar do Monte foi na visita a Boa Vista, capital de Roraima, durante meu périplo pelas capitais dos estados brasileiros. Isso faz uns bons quatro ou cinco anos, e à época eu não tinha nem tempo nem dinheiro para a jornada, mas aquilo ficou na cabeça, martelando, e acabou por virar um sonho de consumo. Ou seja, tempo não faltou para pesquisar e estudar e me preparar para a tarefa.

Mas claro que não fiz nada disso. Quando consegui conciliar tempo e dinheiro simplesmente pensei “agora vou”, comprei passagem e fechei pacote. Não tomei o cuidado, por exemplo, de comprar um calçado adequado para a escalada e para o terreno. Meti o meu Asics de corrida velho de guerra e fui. Exatamente o Asics verde-bandeira-com-azul-royal que o guia agora estava olhando, meio com cara de “perdoai-o, Senhor, ele não sabe o que faz”, enquanto repassava as orientações de segurança. O olhar dele me preocupou.

“Não tenho bota de escalada como os outros, mas com esse tênis dá pra subir de boa, não?” falei no meu macarrônico dialeto meio inglês, meio espanhol.

“Dá sim” respondeu Ric, o guia “nativo” (que depois eu vim a descobrir ser nativo mesmo é da Guiana). A expressão de reprovação durou apenas alguns segundos e ele logo voltou com o sorriso simpático que seria uma constante na viagem, mas eu já estava ressabiado. Principalmente quando, durante as explicações, ele frisou para que tivéssemos o máximo de cuidado, sempre, pois algum eventual acidente mais sério necessitaria um resgate de helicóptero, o que custaria uma bagatela de uns 10 mil dólares.

O detalhe do tênis foi só a primeira, de muitas outras constatações de que eu sou realmente uma besta, que tive no decorrer de toda a aventura. Mas isso, é claro, eu só soube depois.

Mesmo sem bota adequada para escalada minha empolgação com a aventura era enorme. Um sentimento que não contagiou ninguém do grupo de futuros colegas de caminhada, pois nenhum dos cinco topou tomar umas cervejas quando eu sugeri, depois de terminada a reunião preparatória. “Mas é noite de sábado, vamos descontrair um pouco”, insisti. Não convenceu ninguém, todos preferiram dormir pois “Amanhã a gente sai cedo e você não vai querer andar 14 quilômetros em terreno irregular e pedregoso com sono e de ressaca”, um deles me deu um pito de leve. “Nunca fiz trekking nenhum na vida, eles que já têm uma experiência bem maior devem saber o que é mais adequado. Melhor imitá-los”, resignei-me e fui dormir. Devo confessar que foi a melhor coisa que fiz. O dia seguinte não foi fácil e os subsequentes foram ainda piores, com muito o que andar e pouco conforto para descansar. Imagino o que teria sido de mim se tivesse partido já de ressaca. É, eu realmente sou uma besta.

Continua no Dia 1

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